terça-feira, 19 de julho de 2011

A vida brilha no rosto de uma brasa

Não sei se o que faço é escrever?...
Se atirar palavras, sem nexo, contra o papel?...
Sei, isso sim! Que o que escrevo brota do coração.
Sinto esta agonia que me quebra, de quando em quando,
A vontade, desalentando-me o corpo,
Infectando-me a mente de pensamentos malsãos.
E, aí, corro para o papel, refugiando-me na palavra
Fazendo dela a força do meu amanhã.
O fogo, minha eterna companhia, crepita
Cantando-me palavras doces que não entendo,
É como se… me estivesse a falar de amor.
Mas, este mau estar perdura…
E o cérebro fervilha, enquanto ajeito o braseiro
O calor e o pensamento misturam-se por instantes
A vida brilha no rosto de uma brasa, confundindo os sons familiares
(O respirar profundo dos sonhos, a ladainha da televisão,
O estalido do tronco que arde, o cão que late na rua
E o ruído do lápis que escreve o papel).
E esta malfadada agonia, que me enche o corpo, prevalece
Enquanto espero que o fogo feneça,
Fugindo à cama que o sono não quer.
Já a Maria ressona, com o seu ventre prenhe; condição de mulher
Feliz descansa, feliz dorme, feliz sonha…
Talvez sonhe… que já é mãe.

Eu não sonho
Apenas observo
O seu ventre inchado
Cheio de esperança
(A esperança de uma vida
Acalentada e renovada)
Rejubilando vida
Como a vida deve ser
(Quietude; Silêncio; Paz e Amor)
Emmentes eu sou…
Inquietação; Desconcerto;
Insatisfação e Agonia.
A paz e o amor vão-se desvanecendo,
Enquanto as brasas adormecem
Deixando-me só e a sós comigo,
Com as minhas dúvidas
E com a minha insónia.

tÓ mAnÉ

A vida... do outro lado... da nossa

Uiva de solidão,
Na noite prenhe de luz,
Nos cumes e ravinas,
Nas florestas prateadas
Reúne a alcateia,
Dá início à caçada.
Treme a fauna apavorada,
Reina o medo,
Estremece o chão
Sob patas silenciosas.
Jorra o sangue, cheira a morte,
Carne fresca,
Ingerida no silêncio da noite.
Está saciada a alcateia,
Até nova lua banhar
A calma nervosa da noite.

tÓ mAnÉ

A sombra

Porquê comigo? Porquê a mim?...
Porquê sempre comigo?...
É sempre a mesma merda!
Eu não fiz mal nenhum,
Não interfiro com os outros
Porquê que insistem em interferir comigo?
Porquê?...
Porquê que sobra sempre para mim?
É demais porra!
Deixem-me sozinho, não digam nada!
Eu não chateio ninguém.
Faço a minha vida
Passo ao lado dos outros
É quase como um “desculpe, incomodo?”
Porque não me deixam viver em paz?
Só... talvez, mas em paz.
Não criem conflito comigo,
Porque aí...
Bem... aí eu solto as garras,
Rasgo a carne e bebo o sangue.
Deixem-me!...
Eu sou feliz assim...
Serei?...
Bem, pelo menos, menos infeliz...

tÓ mAnÉ

Amizade

A amizade é como uma pérola! Nasce de um nada pequenino, cresce, em finas películas concêntricas, ao longo dos anos até se formar e cimentar. Pode e deve ser cultivada - o tempo trás e o tempo leva, amizades de amizades; como pode ser de natureza indómita e selvagem - amizades naturais, espontâneas -, ambas têm que ser cuidadas, para que quando feitas e formadas, se possa colher o seu fruto; doce, amargo ou por e simplesmente sem sabor, dependendo do empenho e dedicação que pusermos nelas... por fim transformam-se em algo de muito, muito belo ou pura e simplesmente definham por falta de cuidado; as pérolas são lindas mas delicadas, são como flores; dedicação, cuidado, alimentação e amor, são um par indissociável, perdem o brilho ou murcham, são dependentes de todos e cada um, cabe a cada um cuidar deste bem precioso, inestimável e imprescindível.

tÓ mAnÉ

A vizinha, o mar e o amola tesouras

Tenho que sair de casa, vou deixar o meu filho só por algum tempo, olho para trás e, tal como em outras ocasiões, recomendo-lhe que não abra a porta a ninguém, sem excepção, questão de precaução, pois é pela enésima vez que o aviso se repete; a conversa é a mesma sempre que necessito de deixá-lo só. Quando vou a iniciar a descensão do segundo lanço de escadas, confronto-me com uma fulana; esta assemelha-se com a vizinha, executando o movimento inverso. Estacamos!...
- Boa tarde!
- Boa tarde! vou falar com o Pedro.
- É inútil, ele não vai abrir a porta a ninguém. O que é que pretende do meu filho?...
- Assuntos nossos...
- Se assim é...
Retomei a descida das escadas, pensando com os meus botões, perda de tempo, o miúdo não vai abrir a porta. Ouvi, distintamente, a campainha da porta; sorri, porém por pouco tempo, para espanto meu ouvi o clique da fechadura e instante imediato a porta a escancarar-se. Arrepiei caminho, irritado, subo as escadas duas a duas e... não havia vizinha, imaterializara-se, obstruindo a porta estava o Pedro, que usava os meus óculos, ostentando uma personalidade e uma postura com uma maturidade irrepreensível, de tal forma que fiquei completamente desarmado; impossível a repreensão, esta regressou humilhada ao recôndito local de onde saíra, impulsiva, instantes antes.
Como que vinda do nada, esboçando um esgar na fauce e esfuziante, a “semelhança” da vizinha, olhando-me profundamente nos olhos e… à guisa de desafio, retruque: está a ver...
... No meio de um oceano de águas calmas, azuladas e geladas, navego, acompanhado de uma mulher e três crianças, num colchão de praia. O frio é insuportável, no entanto e apesar de algo imersos na água gelada, não sofremos de hipotermia; o que acho incompreensivelmente estranho. Olho para as crianças e constato que uma delas usava uma “Tshirt” esfarrapada e umas bermudas verde choque e as outras duas envergavam apenas calções de banho, boiando na posição invertida (rosto para dentro de água – posição do afogado) na água gélida, a sua pele apresentava uma tez branca acinzentada; tez de cadáver. Numa primeira análise achei natural e não me preocupei muito com o assunto; era, para mim, natural o cariz contra-natura, desta profusão de pinceladas surrealistas. E, nesta apatia inumana, comento com a mulher que se encontra a meu lado “o nosso filho está morto...”, o olhar vidrado da mulher, num rosto já ausente de expressão, projecta-me contra o grotesco da tela em si, e de supetão entro em mim. Agarro na criança, que bóia de cabeça imersa na água gelada, ergo-a, abano-a e grito: filho, filho... não te vás embora, não partas, não me deixes, fica, fica... e, grito, grito,... Vindo de muito longe oiço um murmúrio, e mais um após outro, a criança, entreabre os olhos e numa voz ténue, quase imperceptível, ouço um rumorejar que me vai, em surdina, dizendo: pai, pai... ajuda-me, ajuda-me...
O frio é glacial, soergo a criança, aperto-a contra o peito, aconchego-a, sinto o frio do seu corpo penetrar o meu e a sua alma, pequena grande alma, voltar ao seu pequeno grande corpo, elevando, com ela, a felicidade e a alegria na minha. Nesta embriaguez de felicidade e alegria, esqueci completamente todos os outros. Afinal a única coisa importante, naquele momento, era um “nós”; eu e o meu filho, que renascera das águas geladas, tal como Fénix renasceu das cinzas, ousei pensar…
… Ao longe, fora, muita fora da imensidão azul, lá muito longe pareceu-me ouvir um som doce e familiar, sim era o som do apito de um amola tesouras, há anos que não ouvia aquele som, ao mesmo tempo, estridente, doce e melodioso. Relembrei a minha infância e… chorei, chorei, chorei… chorei de felicidade!

tÓ mAnÉ

A vida que vive em nós…

Passamos a vida a correr atrás do fim da vida!... Da mesma forma que lemos um livro almejando loucamente alcançar o seu fim!... Daí a vida, tal como um livro, não passar de uma incansável busca do inexorável fim!... É desta forma, uma vida que tange o apocalíptico, que vive no âmago de cada um de nós... esta é a vida que vive em nós... 

tÓ mAnÉ

A um passo da dignidade

A classe política global vazou, na integra, o conteúdo da palavra dignidade, tornou-a abjecta, um ingente abstruso léxico, que os povos relegaram para uma posição de teor anárquico, resolvendo-a na conveniência e à conveniência, de forma impecavelmente asséptica e sistémica, ou, por irreverência, fazendo dela verbo casso.

tÓ mAnÉ

A dissecar nuvens negras

"Actualmente limitei a minha capacidade de amar e ofertei a paixão aos mais novos" para que eles aprendam por si o que significa Amor na sua verdadeira acepção. Isto significa que, em anos que a memória já nem se quer lembrar ou por certo me vai atraiçoar, a minha capacidade de amar era ilimitada, tinha um amar fácil; amava as pessoas por aquilo (que eu pensava) que elas eram ou pareciam ser e... entregava-me de alma e coração ou seja amava com paixão. Hoje o critério passa por um crivo muito apertado. E, quando digo que ofertei a paixão aos mais novos quero dizer que esse sentimento empolgante que estava à flor da minha pele e explodia “bummmmmmmmmm” para fora, num impulso arrebatador, está, hoje, mais oculto, mais reservado e quando faz “bummmmmmmmmm” é em primeira instância um “bummmmmmmmmm” interior; para dentro, depois, só depois após apreciação ponderada, fará um “bum” para fora... Ainda amo ainda sinto paixão só que "à minha maneira", essa capacidade vai morrer comigo, só que não se entrega loucamente; é prudentemente gerida.
Assim, hoje, por culpa do Homem, verbos como o "amar" (des)significaram e palavras como “amor” e “paixão” imbuíram-se num impasse léxico, vomitam-se de qualquer forma, desvirtuando-lhes o sentido, cospem-se na cara dos outros como se de beijos se tratassem, servem para tudo no entanto nada significam, pois o sentido de sacrifício e de presença indelével, que cada um de nós sente, quando efectivamente elas assumem a sua real significância, enlaça-nos e faz de nós uma alma crente e tolerante, doce e confiante… faz de nós gente!…
Mas sim amiga! Amava e apaixonava-me de novo se e só se alguém despertasse em mim o calor suficiente para que o floco de neve derretesse e se projectasse no ar causando aquele impacto que a gota de chuva causa quando se “esborracha” contra um solo de pó quente… Aí eu… ainda assim talvez...
Por Amor e ou por Paixão... O machado rachou o cepo ao meio, decepou as palavras, retirou-lhes o sentido e a finalidade... alfim porque olhamos para trás?...

tÓ mAnÉ

A capela e a procissão

Num local desconhecido, num cenário desconhecido, entre pessoas desconhecidas, e... sem mais nem ontem... (inusitadamente); inicia-se uma procissão. Eu, e o Francisco (namorado da Séfora) - um amigo; conhecido, digo um “aminhecido”, encontrávamo-nos sentados na margem de uma ribeira ou um tanque, sei lá... a imagem tem contornos assaz difusos; é como se existisse uma certa ubiquidade na presença da nossa existência.
... E, a procissão passa e passa, o ritmo é lento, a multidão é um emaranhado de gente e espaço, como se de um bosque, cheio de clareiras, se tratasse, e a música vinda de nenhures – parte alguma -, assemelha-se a uma esfera rolando sobre o plano inclinado, representado pelo compasso pendular do deslocamento espacial da procissão... e o ritmo é lento, lento e lento... penso, por um breve instante, que se trata da procissão em homenagem a Nossa Senhora da Piedade, mas apenas por um instante; a multidão, pese embora disforme, é pouca; não pode ser a “Festa Grande”, e o ritmo é lento, e é inverno; não é época, não chove, mas faz frio, muito frio; é Outubro, finais de Outubro, no entanto, abandono o local onde me encontro, juntamente com o Francisco, preparando-me para acompanhar o andor e efectuar a subida ao Santuário, derradeira casa da Santa, como aconteceu, até onde a memória me leva, antanho.
Oi!!!... o que está acontecendo, não percebo, mas... não é um e um só andor; é Outubro, é bem certo, achei estranho, mas..., uma miríade de andores não corresponde às lembranças que o tempo, por cruel que seja, possa apagar; um e apenas um... sempre assim foi e assim será, a memória é uma meretriz, e como tal, não engana; pensei... . Entre a miríade de andores, vislumbrei um que, desde logo, me despertou a atenção; o que é que o Zé Felisberto faz ali? um ímpio militante!... clamando, gritando, numa voz rouca, e numa cantoria infernal, entoava um hino em louvor da Senhora das Assomadas ou Cumeadas, não posso precisar, uma vez que o espaço se transformou em tempo, levando com ele andor e ímpio, numa espécie de vómito de bruma, transmudando o ritmo, o espaço, a multidão e a música; até o Francisco, como por magia, se eclipsa, dando lugar a uma rapariga; conhecida, ostentando um enorme chapéu em pedra e com a forma de um coelho. Observo-a e penso: como é possível carregar semelhante “gingamocho”. Emmentes, com a cabeça a oscilar para trás, para a frente e para ambos os lados, o seu corpo, carregadíssimo, mantém um equilíbrio instável e inverosímil. Ofereço os meus préstimos, que ela recusa veementemente. Acompanho-a durante algum tempo na árdua tarefa, a dela, de subir ao topo do outeiro, onde permanece há gerações a velha, que agora é nova e velha, capela; por quem orará o “chapelão” de coelho?...
Perco-me da realidade do sonho, entro num “inter-sonho ou melhor num buraco negro do sonho” estou no limbo da realidade, ou seja, será que é sonho?... Vejo-me no cimo de um monte, olhando uma plataforma e sobre ela (estou do lado de fora do meu sonho; vejo-me e observo-me!...) vejo o meu “Pseudo-Eu”, no bordo da plataforma, e separando esta de um abismo, existe uma parede de pedra, rebordada no topo por um parapeito de alvenaria pintado de branco; uma sinopse entre o “Eu” e o “Pseudo-Eu”. Do meu posto de observação, seguro, vejo, sobre a plataforma, a minha sinopse e a Idalina (uma velha conhecida), acompanhada por duas amigas, que me olham reprovadoramente, gritando estridentemente, e em tom acusativo “é verde!, é verde!,...”. Procuro afastar-me, como que culpado de algo de que não perscruto a culpa, mas os espectros da minha culpa, materializados na Idalina e amigas, perseguem-me, com esta a gritar compulsivamente “é verde!, é verde!,...”, procuro não ligar, ou melhor desligar, mas o olhar das amigas, continua, obstinadamente, direccionado a mim e cada vez mais intenso e acusador. Procuro questionar porquê? e o que é que é verde? como resposta as amigas “as outras”, aproximam-se ameaçadoras e a Idalina grita a mesma litania: é verde! é verde!..., farto e rancoroso, respondo: és parva!... e ponto final parágrafo... Os espectros, como por magia volatilizaram-se.
Vejo então, abrindo-se na bruma, o frontal da capela, onde jaze uma enorme porta de madeira trabalhada, encimada por um soberbo arco gótico em gablete. Paro, escuto e olho, dos espectros; nada! Empurro a porta, que se encontra entreaberta, no interior revejo o Francisco, que a pouco e pouco, se vai transmudando, tomando a forma de mulher. Ao canto, deitada numa cama, vejo também, uma Santa (é uma Santa! desconheço o porquê da ilação, mas... sem dúvida é uma Santa!...), dirijo-me a ela, cumprimento com a dignidade apropriada à Senhora, entabulo uma conversação durante um curto espaço de tempo, desta não guardo memória, guardo sim a memória dos dois beijos que ela me exige, de forma tão doce e meiga que se torna impensável, direi mesmo impossível, qualquer acto de recusa por imposição. Coloquei-lhe os beijos na face e de imediato, a Santa, delicadamente pede licença para se retirar, esclarecendo que necessita de se deslocar à casa de banho; fico perplexo... à casa de banho???... No intervalo de tempo recorrente, a transmutação do Francisco em mulher; Dircineia, completa-se e este(a) acompanha a Santa, que se levanta com a sua ajuda, ao privado. Este, é parte nenhuma no interior da capela, situando-se junto a um espelho e de privado nada tem; lembro porém, que de soslaio e reflectido no espelho, a Dircineia, comentar que ela era a única pessoa do mundo que sabia efectuar aquele trabalho, lembro ainda ter pensado: grande caca, pôr uma Santa a urinar! Emmeio, e no instante seguinte, logo me arrependo, uma vez que a Santa urinava de pé, com as suas calças pretas vestidas e, imaginem, sem molhar o chão da capela. A Dircineia, após esta manobra sui generis olhos para mim e disse: só eu sei quando ela começa e acaba; baixou os olhos novamente, pegou numa folha de papel macio (PH), passou-o, suavemente, sobre as calças, na origem das coordenadas da Santa (y). A Santa regressou à cama da mesma forma que saiu; caças pretas, blusa vermelha, cabelo e sobrancelhas azeviche, e de facto, constatei, não molhou nem chão da capela, nem calças pretas, porém o papel estava ensopado. Pensei “só mesmo tu mulher “Francisco”... Dircineia”...
Sou atirado contra a rua; peco por pensamentos (penso … logo peco, logo castigo, logo arrependimento, logo volto a pensar…).
Na encosta sobranceira à capela vejo um tornado de pó que se aproxima a uma velocidade inimaginável, formando uma coluna em espiral. É um touro desencabrestado, correndo na direcção do adro da capela; voando contra o tempo e devorando espaço; de mim, para mim e contra mim. Mal tenho tempo para, ineptamente, subir a um muro que liga a capela a um enorme portal e saltar para as abas de um desmesurado plátano; este “zingarelho” todo pareceu-me levar uma eternidade e foi obtido mediante um esforço hercúleo. Não tive ou não quis ter tempo para avisar ninguém... acho, mesmo, que a minha única preocupação foi fugir à besta... e hei-o na praça principal, marrando numa criança de sexo indefinido, originando um baque oco, semelhante ao de uma abóbora atirada, violentamente, ao chão... repentinamente aparece o meu irmão, que desempenha um papel relevante na estória do touro, porém perdida nos meandros tortuosos da minha memória... meretriz mas honesta. Lembro porém, que foi a partir desse instante que o animal investe sobre mim ou melhor sobre o local onde me encontrava. Tentei e consegui subir mais alto, entrelaçado na teia de galhos do plátano... o que era sempre pouco, a besta, crescia e crescia, quase me tocava o fundilho das calças (que não eram pretas), pois naquele momento estava tenazmente agarrado aos ramos da árvore na posição de macaco; corpo arqueado convexamente no sentido do chão e suspenso pelos braços e pernas, sentindo o bafo quente e ofegante da besta. Aí, percutido pelo medo, elevei a perna e coloquei o pé na aldraba de um portão descomunal, encimado por duas gárgulas que jorravam um líquido leitoso... salto no tempo…, estou a tentar subir a uma das gárgulas, o touro já não existe, aliás já nada existe, apenas eu, o portão, a gárgula e um precipício imenso, caio, entro em queda livre e... acordo encharcado em suor e penso... é um sonho bolas!... 

tÓ mAnÉ

segunda-feira, 18 de julho de 2011

A razão e a duvida

Vem vindo, devagar mas resoluta,
Pisa as folhas do caminho
Que o Outono derrubou,
Com a ajuda do vento
E da chuva, que ainda agora chegou.
Traz com ela o saber
Que as Primaveras lhe ensinaram;
Sabe, porque viu muitas vezes,
Porque sentiu na pele; dura e fria,
Ou, por vezes, quente e macia.
Sabe! Que após a noite vem o dia,
Seguindo a flor o fruto
E ao amor o sofrimento.
Sabe! Que... nesta vida ninguém ganha,
Todos perdem!
Sabe! Que... desde que nasceu
Começou, inexoravelmente, a envelhecer;
Só para morrer nasceu!
Sabe! Que sozinha não existe,
Alguém tem que o perpetuar e demonstrar
Pois, a existência, seca e própria, desacredita o ser...
Solidão excessiva debilita, desmoraliza e definha a razão…
Traz a loucura pela mão;
São amigas inseparáveis; amam-se!
Sabe! Sofrer porque amou;
Será que amar é isso?
Ou antes sabe amar porque sofreu?
Ou será outra coisa qualquer?
Será que saber é...
Envelhecer sem nunca perceber a razão do ser?
Porquê? Pergunta velha, cansada,
Repetida vezes sem conta,
No entanto, sempre actual;
Hoje é segunda-feira; porquê?
A convenção é a razão ou a dúvida do porquê! Será?
Porquê, amor? vida? e morte?...
Porquê?...

A quem devo tudo


O tempo vinca-nos, indelevelmente, a alma,
Leva-nos as ilusões; sonho a sonho…
Deixa-nos a saudade; forte sensação de que algo mais poderia ter sido feito…
Tempera-nos os dias; dia a dia…
Cria-nos as alegrias, as tristezas; sal e pimenta…
E… as rugas; a sabedoria, a sensatez…
Aguça-nos os sentidos; alerta, o saber sentir…
Traz-nos as memórias e essas, enquanto intemporais,
Dão-nos os valores; valores para a vida…
Aqueles que recebemos
E… que de geração em geração,
Todavia moldados/adulterados à época (novas são as realidades),
Procuramos de uma forma, quase atávica, transmitir,
A quem nos segue e prossegue; tarefa árdua, contumácia direi…
A vós, enquanto Pai, Mãe e Amigos, coube-vos essa dura missão…
De vós fiz referência, marco, padrão e farol…
Dentro da minha irreverência, claro! …
Que, no fundo é a vossa,
Aquela que, no fundo da gaveta, cuidadosamente foi ocultada,
Porém transpirou, os poros da madeira conspiraram; exsudaram-na…
Entranhou-se na minha pele, como um creme de beleza,
Moldou-me suavemente a existência.
A vós…
Que tudo e em tudo tenho a agradecer
A vós…
Que ontem, hoje e amanhã rasgaram as minhas inquietudes, tristezas e dissabores,
Sublevando as minhas alegrias, conquistas e vitórias
A vós… que…
Ontem lembro com carinho, hoje abraço e amanhã olho embevecido…
Devo um mundo de tudo… Obrigado!...
Quem me dera ser o Pai, a Mãe e os Amigos que tenho…
Obrigado! … Ontem, hoje e amanhã.

tÓ mAnÉ    

A personalidade


Quem sou eu?...
Eu sou...
A viola que toca
Escondida no escuro
Aquela melodia doce
Que não ouso mostrar
E me quebra o coração
No amor e no infortúnio.
A ave que canta
Quando ri e quando chora
Na solidão da gaiola
Que não a deixa voar.
O sopro do vento no canavial
Trinado inseguro
Em tímido concerto
Maestro sem batuta
Orquestra individual.
A rapace ferida que grita 
Acorde vibrado no ar
Insatisfação em marcha
Triunfo por vislumbrar.
A lua
Mudança de fase
Temperamental
O mar
Tempestade sem maré
Barco que não partiu
E o cais quer largar...

tÓ mAnÉ

A luz


A luz da verdade
Perde-se na escuridão da injustiça,
Da mesma forma que a farsa
É a arma dos cobardes
Que incapazes de agir à luz do mundo
Se refugiam no submundo das palavras
Sem sentido, dogmáticas, despidas de conteúdo
Aliadas a subterfúgios vazios e incipientes
Rebuscados por mentes perversas e destorcidas
Que pretensiosamente imaginam um dia reinar o universo.
Querem que me regozije com isso?
Basta!
O sol nasceu para todos!
E não só para meia dúzia de pseudo eleitos
Que supostamente, digo mais, hipocritamente  
Erguem as bandeiras da liberdade, solidariedade e humanidade
Disfarçadas de sorrisos; pastiche de um mundo velho
Fruto do defecar das suas diáfanas mentes
Apodrecidas, frustradas, dementes e desfocadas no tempo
Parindo ideais intransigentes de inconfessáveis intentos
Fomentando o compadrio, o clientelismo e o conluio.
Porque será que não estou contente?
Será porque o mundo está doente?
Será que morreu a luz da nossa gente?... 

tÓ mAnÉ 

A inquietação

Sinto um nada a encher-me o corpo
Um nada... Um nada sem forma,
Mas ocupando um enorme espaço,
Uma imagem flutuando; sem rosto
Um paraíso deposto,
Um vazio.
Sinto uma inquietude a sacudir-me o espírito
Uma falésia, abismo ou precipício,
Um Éden vermelho e roxo...
Talvez uma queda no espaço
Um estilhaçar de espelho
Um nada.
Sinto uma insatisfação roendo-me a alma
Uma paranóia fria
Um farol guiando ao engano
Uma mão chamando
Um farrapo humano
Um medo.
No entanto, sinto...
Uma esperança saindo-me das mãos
Um nada enchendo-me um vazio
Uma quietude quebrando o medo
Uma força sobre-humana
E, no corpo, espírito e alma
Uma enorme segurança.

tÓ mAnÉ

A ilusão

Abro os olhos,
Tentando libertar a alma.
Abro os braços,
Tentando voar para o mundo.
E, assim, caí em ti
Centelha de mim.
Olhas-me!...
Lenta e languidamente aproximas-te,
Estendes-me os braços,
Afagas-me o rosto,
Beijas-me a face.
Incauto,
Mergulho num profundo torpor,
Fecho os olhos... e adormeço...
Quando acordo
Estou sozinho no quarto,
Partiste!...
Alfim,
Tudo não passou de um sonho,
Tudo não passou de vã ilusão,
Uma ilusão... uma efémera e triste ilusão.
Uma ilusão de ser “Eu”.

tÓ mAnÉ

A grande seca!...

Que grande seca!...
Que seca!...
Porra! É mesmo uma seca!...
Foda-se que seca!...
Caralho, mas que seca!...
É mesmo uma seca!...
Merda! Grande seca!...
Que seca, é a seca...
De uma vida de seca!...
Que seca esta, hem!...

tÓ mAnÉ

A folha e a alma


Estas folhas ressequidas,
Melancólicas e pisadas,
Foram verdes e frondosas,
Perfumadas como rosas,
Outrora!...
Lembram almas humilhadas,
Atiradas na valeta,
Arrastadas pela lama,
Rasgadas por sulcos profundos,
Até o sangue jorrar
E, nos olhos,
O sal das lágrimas
Brotar!...
Almas vivas, alegres,
Risonhas e cativantes,
Que, aos poucos, como folhas,
Secaram, definharam e caíram,
Feridas no peito,
Sucumbiram!...
Ódio na vitória,
Amor na derrota,
Mãos dadas; vida e morte.
As folhas morreram
E, na alma vencida,
Ergue-se uma súplica,
Um som transviado,
Das bocas que sofrem
Um lamurio surdo,
Sai!...
E, como por milagre,
Um rasgo de luz explode,
Retumbando em força nova,
Na alma (leve, leda, limpa e forte)
Que, como braços de liberdade,
Quais rebentos na primavera,
Floresce!...
Cresce um abrolho, num prado, num baldio,
Aqui e além uma folha aparece,
O abismo ilumina-se;
Num sorriso, num verde,
Numa alma, numa folha,
E, com novo brilho, o sol,
Renasce!...

tÓ mAnÉ

A esperança


O mundo está cinzento,
Cinzento e feio;
Não há alegria no rosto das gentes.
Passa um automóvel que buzina,
Ouve-se uma voz perdida,
Um “zum-zum” distante.
Mais uma tarde sem vida
Atirada contra o tempo
Na procura incessante da noite,
Noite que traz o alvorecer
E, com ele o novo dia;
O amanhã...
Será que o amanhã se revelará um lindo dia?...

tÓ mAnÉ

A escolha


A escolha...
É um factor limitativo
Da imaginação humana.
Não escolhas!...
Deixa que te escolham!
Não vivas!...
Deixa que te vivam!
Não morras!...
Deixa a vida!...
Quiçá, um dia,
Lembres e talvez sorrias
Pensando que o livre arbítrio
Nasceu contigo, contudo
Deste-lhe costas
Por não importante o dote
Daí, em nada te serviu.
Triste sina esta de quem
Por não saber fazer
Deixa a outros a tarefa
Aquela, que por sua,
Deveria resolver. 

tÓ mAnÉ

A ânsia e o vómito

Entre dois porquês, surgiu-me,
Como por milagre,
Uma resposta clara... a ideia.
Pois é, o mundo é redondo
... E agita-se como galho verde,
Acorda e agita-se inquieto,
Mostrando-nos que... espera…
Mostrar não! Afirmar, talvez?...
Aqui, ali, além... existe uma luz
Brilhando entre dois porquês:
Porquê vida?
Porquê morte?
Porcaria de vómito, não me larga...
Surge e desaparece...
Cola-se, entranha-se!…
Maldito sejas!  
Vertigem intermitente;
Que me enches de nada.
Rodopias... Mas não cais...
Cala-te, isola-te... enche-te de coragem
... E, deixa-te morrer!...
Ou, vive de vez, fora de mim!


tÓ mAnÉ