quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Paragem/Bloqueio

Estou parado de um todo,
O meu cérebro não quer funcionar,
Um “estou em off” perfeito
Recusa-se terminantemente a pensar,
(Pensar é uma recusa em si)
Gira sobre si mesmo; enclausurado
Divaga sobre tudo,
Não obedecendo ao meu comando
Como se dono de vontade própria,
É um barco desgovernado, à deriva
Em mar tempestuoso,
É luz de sua vontade
É impiedoso e cruel
É cio liberto ao vento
É cavalo galopando as nuvens
É fuga de mim,
É um milagre que não nasce,
É revolta,
Sou eu!...

tÓ mAnÉ

Pára um pouco e... pensa...

É urgente...
Urgente que se faça
E que não se faça.
É urgente...
Urgente que se discuta
E que não se discuta.
É urgente...
Que se cale e se fale
Que não se cale nem se fale.
É urgente...
Que se oiça e se seja surdo
Que não se oiça nem se seja surdo.
É urgente...
Que se ame e se odeie
Que não se ame nem se odeie.
É urgente...
Que se trabalhe e se descanse
Que não se trabalhe nem se descanse.
É urgente...
Que se viva e se morra
Que não se viva nem se morra.
É urgente...
Que se pense
E que não se pense.
É urgente...
Parar, reflectir e concluir.
Só o tempo tem urgência,
Urgência em passar,
Tudo e resto pode esperar,
Não tem urgência.
Urgente! é sim, parar e pensar...
Pois,
Urgente, urgente é, se possível, não errar!...

tÓ mAnÉ

Outra realidade

É imprevisível o que pode acontecer
Quando a vivência do dia a dia
Derrete, inadvertidamente, sobre nós
Um “floco de neve”; a vida!
Que ergue um imaginário, passo a passo,
Levando-nos, de mão dada, a caminhos
Que nunca nos atrevemos a palmilhar.
Luta, desigual, que em nós grassa,
Conflitos, ilusões e desilusões
Afectos, amores e paixões
Meros flirts ocasionais
Que, de mais, não passam.
Levando-nos ao erro, ao engano
Sugerindo que, na realidade, até vivemos.
Só e tão-só, a vida,
Ri de nós, escarnece!
Pois, de velha, muito velha, sabe
Que por ela não passa
Quem não souber viver
(amor e desdita)
O pouco da vida que nos abraça.
Vivendo outros não aprendemos a viver
Vivemos vida que não é nossa;
Outra realidade, outra dimensão...
Farsa!
E, o “floco de neve”, que em nós subsiste,
Perde luz e graça
Derrete! Definha!
Esfuma-se na sombra de uma existência diáfana.

tÓ mAnÉ

Orgulho da força

Abrem portas gradeadas,
Forjam espadas e lanças nas bigornas,
Alimentam cavalos nas estrebarias,
Vestem trajes bélicos,
Ecoam cânticos em uníssono,
Levantam nas almas o ânimo,
Derramando rios de vinho
Entre os rebanhos.
Gritam: ”Morte! Morte!...”
Com o freio nos dentes,
Açaimados, amordaçados e...
Ainda assim; gritam:
“Morte! Morte!...”
Violam lares e mulheres,
Pilham bens e haveres,
Matam velhos e crianças.
Trazem no sangue e no peito
Azedume, destruição e vingança.
Olham, cegos e sedentos
O resultado da chacina e...
Desfigurados de ganância e ódio
Gritam: ”Morte! Morte!...”

tÓ mAnÉ

Olhai


Rasgos profundos; sangue!
Garrotes, torniquetes,
Laços impiedosos; apertados!
Sufocam, a verdade, às gargantas,
Gritos arrepiantes; surdos!
Brotando do peito aberto; raiva!
Risos escarninhos; mudos!
Desaferrolhados ao silêncio; noite!
Olhos, cegos, em frente olhando
Sem nada ver e nada para ver
Olhos esbugalhados; espanto, dor!
Contudo, ainda sobra o lamento; espaço!
Pinga, na poça, uma lágrima; lamacenta!
E, ao lado do suor, ainda quente,
Mancha rubra a terra cobre
Tragando-a, digerindo-a!
Sem remorso ou contrição.  

tÓ mAnÉ

O sonho

É tudo tão difícil,
Quando permanecemos de olhos abertos,
Tudo é mais fácil,
Quando fechamos os olhos ao mundo.
Os problemas!...
Resolvem-se ou solvem-se,
Num fechar de olhos;
Passam por nós, como se de outrem se tratassem.
A realidade dura e crua
Enche-nos de dúvidas materiais,
Tantas vezes sintéticas e obsoletas,
Fazendo-nos sofrer e chorar.
Fechando os olhos; sonha-se acordado
É tudo mais fácil, mais directo.
O sonho é lindo mas...
Acordar desperta em nós
A realidade dura, perversa e concreta.
Abre-se o leito, vem a cheia,
A grande enxurrada aproxima-se,
Não há força que a sustenha.
O grito é inevitável, a queda está ali.
Agora, há que levantar, recuperar
E esperar a época das chuvas,
Da limpeza e da clarificação do espírito.
Sim! agora é esperar,
Esperar o amanhã, o depois...
E que, dias melhores nos encham os olhos
De uma esperança nova.
Há que libertar os sentimentos,
Aprender a dizer o que se sente,
Sem receios nem freios;
Abraça este defeito,
Ama-o! como se virtude fosse
E projecta-te no mundo gritando:
Viver é bom!... é fácil,
Basta abrir os olhos e sorrir”.

tÓ mAnÉ

O meu jardim

No meu jardim,
Tenho um canteiro; único!
De terra quente e húmida; recôndito!
Nele plantei uma semente de amor,
Dela, desabrocharam, tenros,
Os rebentos de vindoura roseira.
Com folhas da cor de beijos,
Espinhos rasgando meigos carinhos.
Nasceu! Cresceu! botão de rosa
Aveludado, terno, doce, lindo,…
De embriagante de aroma.
Inigualável!...
Logo,
Abriu em rosa; única e recôndita!
Escondida, por tímida,
No mais esconso canto
De canteiro do meu jardim,
Rosa de um vermelho rútilo,
Desvendando em pétalas, se descobriu,
Desabrochou! Refulgiu!
Uma rosa, no meu canteiro, floriu,
Floriu em amor tão-só para mim.

tÓ mAnÉ

Navegar

Nas ondas do teu cabelo,
Navego...
Navego, num desassossego!
Na vida nunca vi,
Onda tão malandra,
Que do sol em si se ergue,
Num ulular de elegância e espanto.
Prazer doce que arrepia,
Arrepio de prazer,
Prazer que não encontro
Neste meu recanto.

tÓ mAnÉ

Não chores...

Não chores mesmo,
Finge apenas,
Pois, um beijo é um beijo
Com ou sem lágrimas
Finge apenas,
Com ou sem... finge apenas.
Nada mais importante que...
Fingir a verdade,
Aceitar a mentira;
Finge apenas...
Pois, por certo,
Não finges mais
Que mais finge
Este mundo de fingir.

tÓ mAnÉ

Mensagem

A luz traz a sombra,
Sombra duma existência,
Existência cheia e leve,
Todavia,
Complexa mas...
Vívida!...

Iniquidades

O manto do senhor da noite
Pousa sobre nós
Seu filho, de madrugada,
Geme, mutilado pelas rodas da morte
Que primem e trucidam seu corpo,
Quais bigornas, quais rodas dentadas,
E, já moribundo, geme.
Fadas do nada
Cumprem a sua missão, do além
Elevando seus cânticos, no halo gélido da noite,
Rezam, rogam e apelam
Tanto à Divindade como ao Sátiro.
Olhem! Filhos do Homem,
O sol vai nascer,
(Contudo não para todos)
E com ele, a morte, também!...

tÓ mAnÉ

Homem

Um último fôlego...
Mais uma ave no céu;
Um sorriso, sumido, numa boca,
Gritando por pão.
Uma última esperança...
Mais um pássaro morto;
Mais uma lágrima num rosto,
Correndo para o mar.
Grita! Liberta os braços...
Ama o espaço; corre!
... e ainda vás a tempo,
Liberta mar e vento.
Salva a Terra; estás a tempo.
Salva o Mar; corre, corre com o vento.
Salva-te!...
Há ainda no mundo; haverá?...
Um amor... e um lugar
Que vale a pena salvaguardar.

tÓ mAnÉ

Destino

Destino?...
Casualidade?...
Grito estridente ferindo a noite
Sonhos de criança; Sem bem nem mal
Acordar em sobressalto
De olhos rasos de água.
Chão que voa debaixo dos pés
Rasando a vida em diagonal
Realidade obscura
Mansidão sideral
Olho atento
Visão do mal.
E então?...
Continuar?... continuar?...
Rebanho estúpido!
Espantado!
Incrédulo!
Sem perceber
Que o vão matar.

tÓ mAnÉ

Contra-tempo

Há o que ficou dito,
E o que ficou para dizer;
O que foi feito,
E o que ficou por fazer;
E depois? Alguém perdoa alguém?...
Despautério este;
A indiferença!
O sem vontade!
O contra-tempo!

tÓ mAnÉ

Cinco tostões...

Cinco tostões;
O preço de uma vida.
Cara ou coroa;
Tristeza ou felicidade.
Cinco tostões;
No dia da verdade,
Tocam os sinos.
Cinco tostões;
É dia de finados.

tÓ mAnÉ

As aguarelas dos petizes

Um pincel, uma paleta e um godé
Uma caixinha esmaltada
Repleta de quadradinhos coloridos;
Sonhos e ilusões?!...
Uma folha de papel lambuzada
Um bibe sujo de cores; molhado!
E os gritos e os choros…
(Alegrias e tristezas de momento)
E, assim, a folha vai-se, de vida, colorindo
De formas toscas e imprecisas,
Todavia, plenas de intenção e de brio
Que de pequenitas e travessas mãos
Timidamente, risco a risco,
Um sonho, livre, entra em revoada
Não tem tempo nem espaço
Não pára!
E, na folha, velhinha, já cansada
(Amarrotada, amarfanhada, embotada e rasgada)
Surge de sonhos coloridos pintada,
A aguarela!
No papel,
Já sem espaço… 

tÓ mAnÉ

A vida... muda

De tempos a tempos
A vida muda...
Sem nos dar tempo
Ao tempo que nos usa.
Assim, de tempo em tempo,
De nuvem em nuvem,
Saltitamos de sonho em sonho
E,... a vida muda...

tÓ mAnÉ

A maldição e a praga

Vindos do além, da bruma,
Olhos escondidos na penumbra,
Chegam, silenciosos, pela cacimba
Para dos campos a verdura roubar.
Assolam-na!
Caindo-lhe em cima pela brandura.
Rasgando a terra,
Ferindo-lhe as entranhas,
Rompem em surtos; abrolham!...
E, mudos, já não calam o rancor
Que de silêncio ensurdece
A hoste fria, cruel e agreste
Nesta luta sem pudor
Injusta e desigual
Que medra e infesta
Este mundo iníquo
Não branco, não preto; furta-cores!...
De um lado o bem do outro o mal
Campo de batalha
Silêncio sepulcral, soar das trombetas
Embate estridente, inferno colossal  
Coragem, esperança, grito, choro, súplica,…
Colorido de palavras numa tela surreal 
Massa bruta que viola
Ébria de sangue e vinho
(De Sacro Santo Lar)
A harmonia,
O descanso, a paz,
O amor e a ternura.
Despojos de batalha;
Pilhagem geral.
Descansa, tranquilo, quem vence
Inobstante a chacina final.  

tÓ mAnÉ

terça-feira, 13 de setembro de 2011

De mim

Olho!
Olho em teus, meus olhos tristes.
Sinto!
No teu sentir o meu sentir,
Que quer e não se atreve,
Que deixa e não quer.
Toco!
Na tua pele macia, fremente!
Que deseja mas não dá!
Recolhe-se, escuda-se
Mas pede, anseia…
Simplesmente quer…
Medo!
Medo de perder
Medo de entregar
Medo de se dar
Medo de ter.
Abre mão da razão
Abre o coração.
Entrega-te!
Só perdemos o que não damos
E, quando não demos, não mais recuperamos.
Assim, a razão nos prenda,
Ao que de irrazoável nos sustenta.
Dá o que queres…
Pois só assim receberás o que necessitas.
Não peças o que não deves,
Antes o que pensas não merecer.
A razão é irrazoável,
E, o querer é o alcançável…
Quer! Dá!...
Nem tudo é irrecuperável…

tÓ mAnÉ

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Sedução

Sedução, ai sedução!...
Ansiando sedução, seduzes!
Seduzes tão profundamente
Que chegas a induzir à sedução
Traduzes em gestos
A mestria do acto implícito
Invocas, em cada olhar, rútilo o roxaxá
Sabendo semeada, em terra infértil,
Semente de uma paixão morta
Que, de intensa, se acende,
Rolando, qual lençol de lava ardente,
Rutilante!...
Em coração, incauto,
Que ledo e exultante, anda
Baque! Impacto! Baque!...
Meteoro, cratera em deserto
Raio lazer
Corte! Frio, certo e rápido
PC mágico, ecrã policromático.
Tontura, rodopio de volúpia
Louco logro idiossincrático
Enfoque malsão! Súplica!
Reclame à “Mãe Natureza
Chamamento, versus encantamento
Sereia em mar pirata
Fractura da falha transversal
Deslize de placas
Maremoto, oceano pacífico
Ilha devorada; salgadas águas
Lágrimas! Lágrimas!...
Céu! Sopro de vento
Trapo adejando em mastro.
Tudo simples
Tudo engano
Tudo sonho
Tudo sedução
Vector do bem e do mal
Simples sedução!?...
Engano do sonho!?...
Alfim, seduzes porquê, sedução?...

tÓ mAnÉ

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Ao meu amigo Júlio Cachola

Em que estou a pensar? Estou a pensar em ti amigo Júlio e deixo aqui a minha pequena homenagem àquele que foi um grande amigo e soube ser um grande homem e o meu repúdio à hipocrisia que hoje presenciei e me indignou profundamente e que sei a que ti outrossim teria despoletado o mesmo sentimento. Bem hajas pelo que foste e pela memória que deixas,... a ti e para ti deixo o meu agradecimento por me teres dado o privilégio de seres meu amigo e desfrutar do teu convívio. 
Pois é o meu amigo Júlio era um sonhador e um grande amigo! Sonhava até que as coisas podiam mudar, apesar de a cada dia que passava elas pioravam e pioravam - e não falo da saúde dele - falo do mal que lhe faziam, das ratoeiras que lhe armavam, do vazar as suas funções de conteúdo, de o deixar fechado num gabinete sem nada para fazer. No dia das suas exéquias, antes de partir para sempre e ser cremado, os politicamente correctos apareceram, vestidos de hipocrisia e sorrindo para dentro e para fora; alguns, para mostrar aqueles focinhos execráveis - qual matilha que cheira o sangue da presa ferida - a todos aqueles que realmente gostavam do Júlio e estavam ali de alma na boca e lágrima no olho e que esperavam, que não, o apupo de alguns e os gritos de hipócritas de outros, que os obrigasse a meter o rabo entre as pernas e "dar ás de Vila Diogo" acossados pela multidão e de ouvir de alguém, que de muito chegado, se atrevesse, em surdina dizer: vão vocês aqui são persona non grata. O Júlio Guerreiro "era" aquele indivíduo ímpar, com todos os defeitos e qualidades que lhe reconhecíamos, e que organizava e falava da história, na TV, do Carnaval de Loulé que no fundo era boa parte da sua história e da sua vida.
Em homenagem ao Júlio que hoje vai conhecer a sua derradeira passagem na terra. E, porque cada um destes amigos que já não volta e porque cada vez são menos, deixo aqui esta mensagem sob a forma de música (The sad cafe – The Eagles). Adeus Júlio não digo para ires com Deus pois tu Nele não acreditavas e sempre me dizias que se existisse Deus não haveria um mundo pleno de injustiças, mas sim de plena justiça e a que eu invariavelmente te respondia Deus tem os seus desígnios e tu dizias pareces um inquisidor mor... assim vai, parte apenas; deixa connosco a saudade, e que encontres, onde quer que vás um mundo melhor, e que melhor e mais justiça te faça, vai amigo, vai em paz...

tÓ mAnÉ