sexta-feira, 12 de julho de 2013

A morte



Fiquei feliz pela morte que Deus deu ao meu pai, foi a morte que ele quis. Todavia o pesar pela sua ausência ou melhor pela sua falta de presença física, pois ele está e estará sempre comigo, deixa-me, no meu assoberbado egoísmo, extremamente compungido ao ponto de me ferir por vezes a racionalidade.
Homem de princípios e verticalidade exemplar quer na sua honradez e palavra quer nas suas atitudes do dia a dia para com a família, a sociedade que o rodeava e o mundo em geral.
Defeitos os teria com certeza e coisas na sua vida houve, que desconheço da mesma forma que ele desconhecia da minha, essas porém a ninguém interessava ou interessam, são daquelas coisas que nem ao Menino Jesus interessavam e que Ele releva e relega para um plano infinito, o plano do desconhecimento ou talvez do esquecimento por irrelevantes face ao plano global da cena, apesar de o Diabo viver nos detalhes, mas Esse não vem aqui a talho de foice.  
Como já referi, o meu pai, morreu como sempre almejou, parece que o oiço ainda dizer que queria morrer como o pai, o meu avô Manuel Vicente, que morreu sentado, a dormir, no sofá, costuma-se por ironia ou por piada tola dizer que acordou morto, não foi o caso do meu pai que morreu vivo, bem vivo, ou melhor deixou de viver para morrer, algures, no interior do elevador monta-cargas, onde ainda o fôlego lhe chegou para premir o botão do piso que pretendia aflorar, entre o r/c e o 3º andar do bloco de apartamentos onde vivia na Rua Ascensão Guimarães.
Nasceu, cresceu e viveu numa época que lhe servia como um fato feito por medida em alfaiate de grande gabarito ou quiçá de alta costura, serviu-lhe como uma luva na sua forma de ser e estar, o mesmo já o não pode dizer relativamente ao momento em que morreu ou melhor aos conturbados anos que lhe antecederam a morte, os anos do ante crise e crise declarada.
O meu pai não renunciou, nem deixou o mundo simplesmente desligou-se, desconectou-se dele e partiu para outra realidade mais transcendental, mais sensorial, onde acho que poderia ser livre, livre ao seu jeito.
Assim, posso asseverar com propriedade: O meu pai não morreu, deixou a vida! E, seguramente, partiu em paz com ele, com a família e com o mundo.
No dia 13 de Novembro de 2011 o meu pai levantou-se feliz e sereno como há muito não acontecia ou não o fazia. Acordou, serenamente, depois de uma noite em que dormiu como uma pedra; como à muito as suas preocupações não lho permitiam, estas foram as suas palavras para a minha mãe logo pela manhã. Levantou-se, tarde para o seus hábitos quotidianos, e como todos os dias tratou das exigências fisiológicas comuns e da sua higiene pessoal, onde dava especial destaque e atenção, quase como um ritual diário, ao acto de barbear, no qual era exigente, gostava de um escanhoado perfeito, sobre o qual aplicava uma loção aftershave, neste caso a Contradiction da Calvin Klein, oferecida por um dos filhos numa das datas de referência; Natal, aniversário ou no dia do pai, para desinfectar e hidratar a sua pele já marcada pelos tempos e pelas exigências da vida, de quem criou três filhos; dois homens e uma mulher, e assegurou uma vida confortável, estável e muito agradável a uma família a quem ele dedicou, a tempo inteiro, uma vida, quer aos filhos quer à mulher a quem amava ou melhor venerava. Vestiu-se, tomou o pequeno-almoço e saiu, sem que antes não tivesse manifestado à minha mãe o seu contentamento, a sua felicidade por ir almoçar com os filhos, os disponíveis uma vez que o meu irmão reside em Oeiras, e nos netos a casa da sua filha em Salir, isto ocorreu por volta das onze da manhã.
O meu pai abdicou de um futuro brilhante e promissor na política nacional para se dedicar em exclusivo à família e ao trabalho, que ele entendia como um dos pilares basilares da estrutura social e política de qualquer nação; células fundamentais da estabilidade e saúde de um povo. No seu entendimento, quando o ceio da família era saudável, isto é, haviam princípios morais e sociais e a honradez da palavra tal como a responsabilidade e a ética no trabalho, eram salvaguardadas de forma religiosa, e a verdade prevalecia, e era enaltecida, acima de tudo e a mentira era severamente punida, por um aleijão de carácter, conviver era um prazer, apesar das discordâncias, dissonâncias, dissemelhanças, e irreverências, que eram cultivadas e encorajadas como forma de crescimento e angariação de personalidade própria e de um desenvolvimento salutar de espírito critico, criativo e interventivo, diria mesmo como uma forma de instigar um pensamento livre de preconceitos e pré-conceitos, contudo não se confunda esta liberdade de expressão, espírito aberto e livre arbítrio com licenciosidade pois esta não era tolerada e tinha punição agravada, severa mesmo.
Havia palavras fundamentais no seu sentido de família quem eram entre outras: Justiça, responsabilidade, harmonia, estabilidade, equidade, paridade, imparcialidade, rigor, perseverança, pontualidade, integridade, verticalidade, honorabilidade, hombridade, entre muitas outras. Outras porém haviam que não eram toleradas ou eram mal toleradas: injustiça, cobiça, inveja, desrespeito (o meu pai tinha um conceito peculiar de desrespeito, que estava aliado ao respeito em si, que era o seguinte: quem não se respeita a si próprio como poderá respeitar os outros, porquanto nos dizia sempre - antes de tudo o mais respeita-te), mentira quer premeditada quer por omissão, era-lhe indiferente a forma, para ele mentira era mentira e um mentiroso era apanhado mais depressa que um coxo ou, como muitas vezes também o referia, a mentira tem perna curta, desajustamento horário ou atraso, boçalidade, agressividade quando gratuita, impetuosidade, indiferença e intolerância de que teor fosse e vinda de onde fosse, ignominia, maledicência, iniquidade e impossibilidade. Da licenciosidade já aqui falei sobejamente.
Em minha casa outros quesitos eram de obrigatoriedade quase impositiva, eram e são eles: Rectidão e firmeza de atitude, generosidade de carácter, isenção na hora do julgar, sintonia, simpatia, empatia, entreajuda, respeito, reconhecimento, gratidão, virtuosidade de intenção, sensibilidade comportamental, opinião válida e construtiva, vontade e resiliência, sentido de dever, dedicação e ética no trabalho, honestidade psíquica e física, direitos e salvaguardas, disponibilidade, atitude de pendente humanitária ou humanidade, dedicação e amor pelo próprio, pela família e pelos outros.
Poderia aqui deixar um sem número mais de padrões, marcos, vectores pelos quais me rego e sob os quais nasci vivi e vivo, no entanto não quero, nem é esse o propósito destas palavras, aqui devassar a mais ínfima parcela da célula social, que é o sacrossanto lar que entendo dever resguardar por respeito a mim em primeiro lugar, depois à minha mãe e aos meus irmãos, de quem mereço e devo o respeito.
Quem venha um dia a ler estas alegadas bazófias vai pensar que a minha casa, o meu pai e a minha família, eram um poço sem fundo de virtudes. Não, rotundamente não, não o eram! Defeitos, discordâncias e desconformidades (e muitas), sim houveram! e ainda as há, mal se não! No entanto, mais são os motivos que me preenchem o orgulho que aqueles que me poderiam envergonhar. Tal como em cima deixei explícito poderia falar deles sem agravo, sem arrependimento, mas prefiro resguardar as portas de uma vida a franqueá-las, num fartar vilanagem sem precedentes, e de uma forma que estaria completamente em desconformidade com a politica de vida do meu pai e da minha família que foi e é o respeito pelo recato e o resguardo; a casa o que é de casa à rua o que é da rua; vícios privados publicas virtudes.
O culto religioso, em minha casa, nunca foi uma imposição, todavia desejado, especialmente e essencialmente pela minha mãe, mais arreigada a estes assuntos de teor litúrgico, mais incorpóreos e menos materiais. O meu pai, para além de a suportar, apoiar e acalentar neste campo de cariz espiritual, também muitas vezes a acompanhava às celebrações a ele alusivas, principalmente nestes seus últimos anos de vida, mas não só. Se bem que, e no abono da verdade, a frequência da Casa do Senhor, por parte do meu pai, se tenha tornado mais useira, após a desistência ou o abandono total das suas actividades lúdicas de fim-de-semana, a caça e a pesca, fundamentalmente, que quase sempre entravam em conflito temporal com as de carácter ecuménico.
Todos nós, os filhos, fomos baptizados e tivemos uma educação cristã (católica apostólica romana), uns mais outros menos dependendo de singularidades estritamente pessoais, acabámos por cumprir os desígnios familiares, e fazer a catequese, as comunhões (a primeira e a solene ou profissão de fé) da praxe, apesar da celebração do crisma não ter sido, por unanimidade ou por toda a irmandade, comungada.   
Estava eu falando que o meu pai acordou sereno e feliz nesse fatídico dia, quer para ele quer para todos nós, logo bem com ele e com o mundo e em paz, não que fosse coisa rara ou pouco frequente, rara sim a intensidade do como; a força do seu sentir.
As últimas palavras que a minha mãe recorda ouvir dos seus lábios foram: Vou comprar o jornal e beber um café; ritual diário, tal como o ir às compras, fosse ao mercado ou ao supermercado, para fazer tempo para que o António, que sou eu, chegue; era assim, por António, que ele me tratava ou chamava, mas nem sempre assim foi, quando miúdo até mesmo à pré-adolescência, tratava-me ou chamava-me, esmerada e carinhosamente, de Tó Mané, que adoptei como nom de plume e que reescrevo sob esta forma um tudo ou nada peculiar ou mesmo bizarra mas muito intimista; tÓ mAnÉ.  
Tínhamos combinado, telefonicamente, na véspera, o meu pai e eu, que ao meio-dia do dia seguinte, eu iria buscá-los em frente ao edifício onde habitavam. E assim foi para mim. Só que não foi bem assim para ele, infelizmente.
Parei, ao meio-dia, tal como tinha combinado, telefonicamente, no meio da rua, mesmo em frente ao n.º 48 da Rua Ascensão Guimarães e, desde logo achei estranho a ausência dos meus pais, o meu pai nunca se atrasava se pecava era por antecipação de presença, muitas vezes por brincadeira e graça, e para o acicatar um pouco, costumava dizer-lhe: Porra! Chegas sempre de véspera, ao que ele me respondia reiteradamente - não gosto de fazer esperar ninguém, é uma falta de respeito inqualificável, prefiro ser eu a esperar. Face à invulgaridade do acontecimento pedi à Maria, a minha mulher, para ir tocar à campainha e apressar os acontecimentos, enquanto eu galgava o passeio, em deliberada manobra de contravenção, mas permitindo dessa forma uma normal circulação viária, não gosto de atrapalhar ninguém, tão pouco de estacionar ou melhor parar desta maneira, porém as circunstâncias assim o exigiam e melhor que mal é menos mal.
Foi num ai que a Maria foi e veio e disse-me assim de chofre: vai ver, mas acho que o teu pai está morto dentro do elevador.
Surpresa, espanto, choque, incredulidade, negação, renúncia, realidade, facto, vazio profundo, esperança num engano de julgamento, eu sei lá um sem número de pensamentos vogaram livres do meu subconsciente ao consciente e voltaram num ápice ao local de origem, era como um acreditar sem acreditar ou um desacreditar da razão; morto,… no elevador?!... mas… - Pega no carro, leva a bebé para casa, a tua mãe que tome conta dela e, tu, volta logo que puderes. Estas foram as palavras que se me assomaram ao espírito e que padeciam de mais urgência, afinal o meu pai estava presumivelmente morto, isto é, segundo a Maria a defunção do meu pai era um facto irrefutável, e apesar (o tempo aqui não contou pois de tão longo de curtíssimo instante não passou; foi como se um ano de luz se desvanece-se numa u. a. de tempo) de estar a ceder a cadeira do volante à Maria e a preparar-me para seguir o caminho que mediava entre a porta entreaberta do automóvel a porta aberta do elevador, este intervalo de espaço e tempo não existiu, foi banido da minha memória e da minha consciência, pois apenas tenho a consciência e a memória do meu pai estendido e prostrado no chão do elevador monta-cargas com parte das pernas e os pés espalhados no patamar de mármore, frio, do r/c, cândido, plácido, sereno e em paz, não se denotava na sua face um esgar de espanto ou uma contorção de dor, parecia que dormia um sono repousado, o sono dos justos.
Entrei no monta-cargas. Agachei-me. Agarrei-lhe a mão esquerda, por ausência da direita, o meu pai era órfão de mão direita desde os seus dezasseis anos, idade em que lha amputaram, ainda estava quente. Segredei-lhe ao ouvido, como que para acordá-lo daquele sono eterno, daquele sonho sem fim – pai é o Tó, pai… - mas…       
Mas… contra factos não há argumentos e a intuição da Maria foi fulminantemente assertiva, tal como a minha percepção da sua intuição, o meu pai tinha acabado mesmo de nos deixar! Eu sabia-o! Foi como se ele mo tivesse segredado como um último suspiro, como um último estertor: parti meu filho. Sim era verdade o meu pai terminou, terminou como termina a pilha de um relógio, algures entre o r/c e o 3º andar do prédio onde vivia fazia mais de 37 anos, e, brincou, o meu pai era muito brincalhão, mas à sua maneira, uma maneira muito própria, muito peculiar, com a vida, que tanto prezava, pela última vez, quando quase matou de susto o vizinho do 6º andar, aquando este abriu a porta do monta-cargas e se deparou assim de sus com a aparição. Foi ele que, tartamudeando, tremendo avisou a vizinha do r/c esquerdo e esta informou a minha mãe, no entanto sobre este assunto desconheço os pormenores. 
Numa zona de ninguém entre a porta do r/c esquerdo e o átrio, estava a minha mãe, de pé, com cabeça encostada no braço que apoiava na ombreira da porta, desamparada, inconsolável, mas ainda alimentando, acalentando, teimosamente, uma esperança, uma crença que ainda era possível, que morrer não era assim. Fui abraçá-la. Alimentei-lhe, levemente, a ideia de que sim, de que talvez, mas sem grande convicção… era contra procedente, era adiar o inevitável, mas quem era eu para lhe roubar o marido como já tinha roubado a mim mesmo o meu pai?!... E, assim, me deixei ficar enlaçado por ela, soluçando, enquanto eu engolia a dor imensa que me roía a alma como um ácido corrói um metal vulgar. Não podia deixar-me ir pelo cano abaixo, havia um mundo de coisas que eu tinha que fazer… E, no meio deste pensamento, chega a ambulância do I.N.E.M., foram de uma celeridade indescritível e dum profissionalismo e duma proficiência sem par - deixo aqui o meu obrigado e o meu reconhecimento a estes homens e a estas mulheres que dedicam uma vida a salvar a vida dos outros -, deixei-os com o que restava do meu pai e saí para dar largas à minha alma que me consumia como nunca.
Aliviei um pouco o espírito e de seguida telefonei para o meu irmão e disse-lhe, como se impávido e sereno estivesse: O pai acabou de morrer, vem para baixo. Ainda ouvi um soluço. Desliguei o telemóvel.
Voltei para dentro do edifício, para junto do meu pai, para me certificar como decorriam as operações de reanimação. Enquanto dois elementos corriam contra o cronómetro da vida ou da morte quiçá? Outro solicitava, telefonicamente, a presença urgente da equipa de emergência. Contacto feito e sem perda de um instante que fosse, desligou, e reuniu-se aos outros na dura e penosa tarefa de trazer o meu pai da morte à vida.
Emmeios a minha irmã e o meu cunhado chegavam de Salir. Não sei quem os avisou, também não perguntei, isso era irrelevante, o importante mesmo era que eles estavam ali. Enquanto o meu cunhado, por mais distante e menos afectado, tratava de alguns assuntos relevantes e que o momento exigia, a minha irmã tentava, coitada, equilibrar e compor ou recompor o seu estado de espírito, numa desordem ordenada, destroçado, estilhaçado, despedaçado, bem como o da minha mãe que sabe Deus o como que lhe revoluteava.
E, conforme o tempo ia passando a nossa esperança ia murchando.
Entretanto acabava de chegar a carrinha de emergência médica do I.N.E.M., eram duas raparigas novas, uma médica e uma enfermeira, que foram chamadas pela equipa da ambulância, foram duma rapidez incrível a chegar, devem ter voado de Faro a Loulé, e incansáveis no trabalho, prolongado, de reanimação do meu pai, feito com critério e um profissionalismo e uma sensibilidade irrepreensíveis, sem reparo. Agradecido, muito agradecido, eu estou, pela celeridade de resposta à chamada e pelos esforços, sem par, envidados.
Há sempre algo surreal aliado à morte. E a morte do meu pai não foi excepção, senão veja-se: enquanto o I.N.E.M. estava a tentar reanimar o meu pai o telemóvel da minha irmã tocou, ela procurou-o, atabalhoadamente, na mala e quando o encontrou olhou para o visor para se certificar de quem lhe ligava, natural face à situação. Imaginem os olhos da minha irmã esbugalhados frente ao visor onde se liam três letrinhas, eram elas ou formavam elas a palavra “pai”, surreal, quase ou mesmo macabro, alguém durante a operação de socorro deve ter premido o telefone do meu pai entre o seu corpo e o ao corpo do meu pai e, automaticamente, o telemóvel accionou a última chamada efectuada; Uma chamada de Deus do outro mundo para este mundo?! Ou mera coincidência?!... Expliquem isso à minha irmã que ficou por não ter vida, lívida na sua tez, aterrada no seu âmago.   
Há medida que o tempo se ia escoando eu já pedia a Deus que não conseguissem trazer o meu pai de volta – que Deus me perdoe da mesma forma que eu me perdoei a mim – mas se ele voltasse não votava mais o meu pai, mas sim uma massa humana informe, e isso, ele não queria, pensava como eu, sei-o bem! Várias vezes aborda-mos o tema e ele sempre me disse que não tinha medo de morrer, tinha, isso sim, medo de ficar numa cama vegetando ou não, o que seria pior ainda, dependente e dependendo de tudo e de todos. E Deus, façamos-Lhe, justiça fez-lhe a ele e a mim a vontade, ou seja, ouviu-nos as preces. Obrigado Deus meu!
Finalmente e após um longuíssimo, assim me pareceram aqueles três quatros de hora ou mesmo uma hora, não posso precisar, intervalo de tempo, os trabalhos de reanimação do meu pai, terminaram.
A médica aproximou-se de mim, lamentou, porém já nada poderia ser feito, e declarou o meu pai como morto, o que não constituiu novidade para mim, há muito o intuía finado, perguntou-me se estava tudo bem comigo e se necessitava de alguma coisa, respondi-lhe que não mas que talvez a minha mãe e a minha irmã necessitassem.
Com a declaração da morte, ruiu o castelo de cartas da já ínfima esperança da minha mãe e a têmpera que lhe assegurara a compostura quebrou-se de sus gerando um momento tenebroso para todos nós: a queda de nós em nós, e buscando forças entre elementos do I.N.E.M., vizinhos e família aos poucos fomos compondo o ramalhete que a palavra morte tinha atirado no chão. Aqui abro uma ressalva de intimidade e dor, um espaço em branco, um espaço de recato e tenência, um momento intimista, que para mim não foi longo, nem poderia ser pois tudo se precipitava com uma velocidade prodigiosa. A médica do I.N.E.M. chamou-me à parte para me transmitir, quase pedindo desculpa, que, no cumprimento do seu dever e da lei, tinha que notificar a G.N.R. após a ocorrência do falecimento ao que eu acedi e o contacto foi efectuado, desconhecendo eu as implicâncias de ordem legal que adviriam de semelhante decisão, segui, escrupulosamente, o que o rigor da lei obriga. Apenas com uma pequena ressalva, uma vez que não se pode mexer no corpo, sei-o agora, pedi ao meu cunhado para retirar os pertences do meu pai, não queria ser eu a efectuar tão penosa tarefa, para evitar mais situações embaraçosas como um possível telefonema.
Emmeios a minha irmã sentou-se no chão do monta-cargas e colocou a cabeça do meu pai no colo, não queria que ele estivesse com a cabeça no chão e ao mesmo tempo, acariciando-lhe a face e os cabelos, ia libertando a sua consciência de maus pensamentos e relembrando os bons, isto digo eu, e evitava de certa forma o constante deambular da minha mãe, inconformada ainda, entre a casa da vizinha e o elevador, como que lhe dizendo que o marido estava bem, estava a seu cuidado e guarda, estava em paz.     
A patrulha da G.N.R., levou duas eternidades e meia para chegar ao local, vá lá Deus saber porquê que a mim não me interessa nada, apesar das parcas centenas de metros que medeiam entre o posto da guarda e o local da ocorrência, obrigando a que duas equipas do I.N.E.M., constituídas por cinco elementos, permanecessem inutilmente no local quando, porventura, seriam muito mais necessárias noutro, talvez a salvar uma vida, quiçá? Mas assim a lei o determina, e lei é lei – dura lex, sed lex (a lei é dura, mas é a lei), como muitas vezes ouvi o meu pai referir aludindo à praxe académica coimbrã. 
Por fim chegaram com o tinom-nim, tinom-nim da sirene a uivar, que a juntar aos rotativos luminosos das viaturas do I.N.E.M., atraíram um sem número de transeuntes, aliados a uma curiosidade mórbida, que começaram a fazer do n.º 48 romaria e local de peregrinação. E o meu pai ali exposto. Uma intolerância avassaladora a esta falta de respeito começou a nascer e a crescer em mim; retumbando-me na cabeça um sentimento de nojo. Não podia ser! Tinha que pôr um ponto final à presença dos abutres, afinal o meu pai em vida viveu em prol da dignidade e do recato e na sua morte estava sujeito a semelhante devassa. Não! É impensável, intolerável mesmo. Logo para salvaguardar o respeito para comigo e para com ele eu tinha que terminar com a exposição a que se encontrava sujeito e repor a dignidade e o recato que a condição exigia. Chega! Disse para mim. E, acto contínuo, coloquei-me, feito porteiro sem farda, à porta do edifício, e, sempre que alguém queria penetrar o espaço, perguntava: é morador, vem visitar alguém, traz algum assunto para resolver, e consoante a resposta assim franqueava a entrada ou não. E, foi assim, que a sangria desatada de viandantes exultando excitação mórbida terminou, apesar de algumas caras de poucos amigos, para as quais eu, naquele momento, me estava simplesmente a cagar.
Logo que a G.N.R. entrou em cena o I.N.E.M. deu-lhes conhecimento da ocorrência e fizeram a tramitação do processo, porque o meu pai era agora um processo, para a jurisdição competente, recolheram os seus haveres, mais uma vez apresentaram o seu pesar e partiram com o seu dever mais que cumprido. Um, bem hajam! Para os esforços que envidaram e o apoio que nos deram.
No elevador, a minha irmã, estava de pedra e cal, com a cabeça do meu pai no colo, acariciando-o e falando baixinho com ele, quando de sus alguém fardado lhe grita: saia daí, saia, ninguém pode mexer no corpo, ninguém pode tocar em nada, agora para além de um processo o meu pai passou a ser também um crime. A minha irmã, perplexa, olhava boquiaberta, reflectindo no olhar um ligeiro pânico, para o graduado, até conseguir exprimir quase num sopro e à laia de desculpa um: É para não ter a cabeça no chão frio. A resposta veio gutural e imediata: Não pode estar aí, saia imediatamente.
Conciliador, e conhecedor da filosofia de vida da minha irmã, sabia que quando ela caísse em si o caso iria ter um rumo muito diferente, e antevendo-lhe aquele olhar fulminante associado a uma clarividência, incomum, de espírito, aquando destas situações, o menor dos males seria a conciliação, antecedendo uma explosão pragmática e assertiva em franca ascensão, e sendo que o eu mais queria naquele momento eram mais problemas, porque é claro! resolvi actuar.
Onde se encontra a falta? No erro ou na omissão?... E, actuando nesta perspectiva, pedi com jeitinho à minha irmã que largasse mão do meu pai, que o deixasse partir, pois o que ela segurava era apenas o invólucro a casca, por assim dizer, do meu pai, o que era importante dele remanescia em nós e ascenderia ao lugar que lhe estava destinado, não seria nem à direita nem à esquerda do Senhor, lugares desde sempre reservados, cativos, às outras duas Pessoas da Trindade, mas para nós andaria lá muito próximo, e lá, no éden perdido, proibido, ele estaria a velar por nós tal como o fez sempre, enquanto nosso património; porque ele era nosso, acrescendo ainda as perguntas, ambíguas é bem certo: achas que o pai quereria que o sentisses assim?... Achas que o pai queria que o recordasses assim?... E, este foi o argumento, com que consolei a minha mãe, inconsolável, a minha irmã à beira de um ataque de fúria e a mim, fazendo-me crer, também, que pior que o meu pai ter falecido era eu não aceitar que ele acima de tudo se tinha libertado da sua condição humana, de uma vida plena de responsabilidades enquanto mentor, guia e farol, tendo seguido o seu próprio caminho, não o da liberdade mas sim o da luz, o de observador avançado, o do espírito que nos regeu, rege e regerá para todo o sempre, ámen.
Depois de retirar a minha irmã à missão titânica, de que se incumbiu por iniciativa própria, dirigi a minha atenção para o desapiedado agente da autoridade, que cumpria a sua missão, apesar da falta de tacto e excesso de zelo, mas quem pode criticar, se vêm já assim formatados, afinal não foram prensados para pensar mas sim para obedecer cegamente, e que estava ali de má vontade a cumprir um dever que lhe não era grato. Abordei-o com um boa tarde impessoal mas delicado. Pedi audiência em privado. E, munindo-me dos argumentos: recato, dignidade e exposição, solicitei-lhe que me fosse autorizada, por amor de Deus e dos Santos todos, a colocação de uma almofada sob a cabeça do meu pai e de um lençol a cobrir-lhe a massa corpórea ali exposta à luz da devassa. Acedeu ao meu pedido. Fica aqui o meu reconhecimento.
Ainda ventilei a possibilidade, remota, de levantar o corpo do meu pai para que repousasse no seu leito, aí porém a lei ergueu-se perante nós, tal e qual o Nilo se ergueu para o povo de Moisés, só que desta vez eu era o faraó, a barreira era intransponível: sem certidão de óbito não se pode remover o cadáver e ponto final.
Ora agora é que começa o busílis da questão e não só a abstrusidade da lei. Senão vejamos: Dia 13 de Novembro de 2011 foi o dia do Senhor, um Domingo. A certidão de óbito tem que ser passada pelo Delegado de Saúde, que tem um adicional ao seu salário base, ajudas de custos por permanência de 24 sobre 24 horas, para fazer face a ocorrências destas e de outro género, de cerca de € 1000.00, sim leu bem mil euros, no entanto não estava disponível nem deixou substituto como refere a lei. Todos os médicos contactados, meus conhecidos, talvez por ser Domingo dia de caça, não se encontravam contactáveis, excepto um que se encontrava em Espanha a três horas e picos de caminho que de imediato se mostrou disponível para o incómodo (nem sabe o quanto lhe estou reconhecido e mesmo até comovido com a atitude). Declinei a oferta, deixando no entanto em aberto a possibilidade caso não houvesse outro caminho possível. O rodar das várias listas de contactos médicos ia-se esgotando, inexoravelmente. A lei é imperativa: As ambulâncias não podem transportar cadáveres, as agências funerárias não podem transportar os corpos, a família não pode remover o finado e ali estavam os restos mortais do meu pai semi-enfiados num elevador monta-cargas, em impasse legal, decorridas que eram mais de sete horas sobre a descoberta do corpo. Alguém faz uma pálida ideia das transformações que um corpo sofre com o decorrer das horas, ainda que no final do Outono? – no dia que o meu pai faleceu não fazia muito frio e sol brilhava no céu -  alguém faz uma pequena ideia do que é percurso transformacional da face até ao rigor mortis? Coisa horrenda, posso assegurar-vos! Vai da condição humana à inumana disforme… do ante-mortem ao post-mortem, não é bom de se ver em ninguém mas, é bem pior, quando esse alguém nos toca muito perto, muito dentro, quando o conhecíamos ao milímetro.   
Foi o meu irmão que vinha de caminho e que eu informei do contra-tempo que de certa forma conseguiu deslindar o imbróglio, bem hajas mano!
Um par de telefonemas mais, uma espera para consultas legais mais que legitimas, um par de papéis assinados, na presença das autoridades, médico, cangalheiros e familiares, e uma causa de morte por senectude. E, finalmente o corpo do meu pai repousa no seu leito, não o de morte mas sim o de todos os dias, coberto e em resguardo, assegurando-lhe uma dignidade em conformidade com a sua postura na vida. Quero, também, aqui deixar a minha gratidão e reconhecimento ao médico que tornou, face à sua disponibilidade e coragem, possível esta formalidade.
Allelujah!...
Oito horas e picos mediaram entre o falecimento e o levantamento do corpo. Uma verdadeira tormenta, horror dos horrores; em súmula: Lei!     
Pouco tempo após a remoção do corpo o meu irmão e a minha cunhada chegaram, mesmo a hora de se despedirem, se assim o posso dizer, ou olharem-no pela última vez, já transfigurado, seráfico e frio, todavia ainda muito ele, mas só para quem o conheceu.
Poderá parecer desapiedado da minha parte, mas quem sabe é quem vê, quem conhece e quem sente, e socorrendo-me e alegando múltiplos factores, sendo que o mais preponderante foi a crença religiosa arreigada da minha mãe - a minha mãe crê verdadeiramente, profundamente, tem uma fé genuína, acredita piamente no Livro Sagrado - e, com base nele e nos seus ensinamentos logrei convence-la que o marido, isto não é profético, mas sim a verdade das coisas, não iria querer que ela se agarrasse a uma casca a um invólucro mas sim ao espírito do homem que ele foi, pelo que a memória do presente deveria ser relegada para o futuro da memória do passado, ou seja, evitei o beijo da separação, guardando a memória do passado e matei a visão de uma memória decrépita do presente, ordenei à funerária a remoção do invólucro hora e meia após a seu levantamento e que as cerimónias fúnebres ocorressem de féretro fechado; resolução unânime.
Alfim, pude chorar o meu pai! Recolhi-me. Iluminei duas velas em frente a uma Santa que o meu pai trouxe do Vale da Telha, lugar que o viu nascer. Ajoelhei. Chorei. Pedi perdão ao meu pai por umas e por outras, as menos graves, pois as outras resolveram-se no seu tempo. Pedi, ainda, que ele me ajudasse a estar à altura na condução da família pois eu iria necessitar. Por fim disse-lhe que poderia partir em paz e que confiasse em mim. Chorei mais e mais e quando já cansado e vazio de lágrimas implorei à Santa que lhe iluminasse o caminho e o ajudasse a encontrar o seu lugar no mundo da esperança, da paz e da luz.      
Após o velório e a celebração fúnebre o meu pai seguiu para Ferreira do Alentejo onde foi cremado, conforme vontade expressa. Para Ferreira levei o meu pai e de lá trouxe uma alma meiga e serena, que vagueava doente e perdida pelo cemitério, senti que como que encarnava o saber do meu pai e a sua candura de espírito quando ele deixava que aquele olhar vago e melancólico se apossasse da sua alma. Assim, juntamente com as cinzas veio aquela a quem chamei de Kika; uma cadela de pastoreio alentejana.        
No limiar dos 86 anos eu disse até sempre ao meu pai. Chorei! Senti-me pequenino outra vez, desamparado, órfão. No entanto, cabia-me agora a mim ser o homem que ele foi, o alfa nem sequer mudou de letra de A para A manteve-se o A, mudaram apenas as condições, as expectativas; o anel mudou de dedo, será que vou estar à altura que a platina e o brilhante me exigem?...   
O nome do meu pai era, é e há-de sempre ser, para mim e para quem com ele privou: António, António Monteiro Baptista, e este é um motivo igente de orgulho meu ou melhor nosso, da minha família.

Post Scriptum: Escrever é um acto de purificação de alma!?... Uma catarse, uma contrição ou uma maldição!?... Um dia eu tinha que fazer e escrever isto, e isto é o luto e a minha homenagem póstuma ao meu pai, para que de uma vez por todas ele e eu descansemos em paz. Como refere Antoine de Saint-Exupéry in “O Principezinho”: Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos.

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A menina que não queria ser Top Model



Era uma vez...
Uma menina que não queria ser capa de revista nem manequim de passarela, todavia tinha tudo para o ser… Um dia resolveu vestir o seu semblante a rigor e na sua singeleza sútil e sedutora, envolta num mistério de exuberância e escondida atrás de um olhar meigo, gentil e brincalhão, vestiu a sua farda de infante, e num rasgo de névoa, como soprado por vento levante, abriu-se da bruma que no seu entorno nasceu; floriu, desabrochou e vermelha ainda das primeiras vergonhas pueris, voou ao mundo, entregando, linda, o seu encanto, rodeado de um esplendor sublime, que de sus, cativou...
Chamava-se Sevetla e assim se há-de chamar, assim o espero. Nasceu e cresceu numa modesta capital europeia.
Sevetla é proveniente de uma família modesta mas honrada. Seu pai era empregado de balcão, hoje reformado, e a sua mãe vendia o suor de cada dia, à hora, em casas das senhoras privilegiadas, que lhe podiam requisitar e pagar os serviços, hoje velhinha e gasta, e tal como o seu marido reformada.
Sevetla nasceu serôdia, já seus pais iam entrados na idade mais que madura, e inesperada, caprichos da natureza. Todavia encheu uma casa vazia de esperança num turbilhão de emoções desmedidamente fortes e amores retraídos por retardados e escondidos por esquecidos. Com Sevetla regressou uma crescente vontade de dar largas à vida e de amar incondicionalmente a petiz.
Sevetla tinha um irmão, o Igor, já na idade da razão, bastante mais velho, entre eles viviam duas gerações, duas contradições e um afastamento inopinado, pois este, sempre que lhe foi possível ou a oportunidade se lhe apresentava, demonstrou o seu desagrado e desagravo relativamente ao nascimento da sua irmã caçula ou da pequena Sevetla. Facto que ganhou uma maior relevância, dimensão e requinte, aquando do seu enlace matrimonial, acicatado pela, agora, sua esposa – sempre a velha rivalidade entre mulheres -, face ao estatuto que o contrato lhe conferiu, Igor desproporcionou e extremou a sua já doída dor de cotovelo, adicionando-lhe um vigor renovado, raiando mesmo o seu desprezo o limite do inusitado, e desconforme com os sentimentos de Sevetla que respeitava e amava o irmão desde que foi atirada no mundo, afinal era o seu “mano velho”.  Inobstante, o seu coração, esse, ter ficado a morar no coração de seu primo Sergei de sua graça. Que por ironia do destino Deus, na Sua sábia, todavia muitas vezes incompreensível, que o diga Sevetla, misericórdia, lhe o usurpou cedo, na primavera da vida, vítima de um estúpido acidente de motocicleta, retirando-lhe copiosas lágrimas de alma e induzindo-lhe, para todo o sempre, uma dor sem dimensão nem tempo; incomensurável.  
Quis Deus, na sua infinita sabedoria, também dar-lhe um filho e um marido ou melhor um pai do filho – que nunca o foi – e um companheiro que não faz nem tem a menor das intenções de a acompanhar, quer nas suas ansiedades e medos quer nos seus devaneios e sonhos.
Assim, Sevetla, após a morte dos pais, vê-se, repentinamente, só no mundo e num mundo só que gira em torno das suas incertezas e desconfianças.
Assolou-a a fome também. Fome de amor, carinho e compreensão, fome de quem nada tem que comer, fome de quem não tem por quem bem-querer, excepto por Nicolay, que lhe rasgou as entranhas, é filho seu, pariu-o! E a ele se dedica em exclusividade de amor, carinho e compreensão.
Deu-lhe Deus, ainda, um querer e uma vontade de ferro, aliada a uma argúcia e uma inteligência excepcional, que foram inseridas num invólucro invulgar e de todo invejável; o corpo, a fauces, o porte, a postura e o sorriso de uma Top Model. Predicados dos quais a Sevetla não estava de todo preparada nem ciente, apesar de nela se ir aos poucos desenvolvendo e despertando uma consciência de si, manifestada através de um incremento, que se vem a agigantar e a arreigar, de segurança em si e de si. 
Contudo Sevetla, escondida na biblioteca onde trabalhava e ainda trabalha assim o espero, estava longe de se julgar capacitada ou sequer ousar sonhar em um dia vir a ser uma Top Model, apesar de não poder deixar de reparar que os olhos, plenos de lubricidade, dos rapazolas e dos homens se pousavam, demoradamente, em si evidenciando um notório ar de lascívia e cobiça impudica. Sevetla sentia-se como que despida e acariciada por aqueles olhares concupiscentes que, curiosamente, não lhe desagradavam, antes pelo contrário, faziam-lhe crescer no corpo um calor em forma de desejo, provocando-lhe uma sensação licenciosamente agradável de impudicícia, causando-lhe tremuras nas pernas e uma vontade terrível de apertar as coxas contra o sexo que lhe ficava perlado de desejos irreprimíveis e, que, algumas vezes, inadvertidamente, até lhe passava, delicadamente, a mão numa carícia furtiva, todavia irrefreável, perdendo por instantes breves, mas como duma infinidade intemporal se tratasse, ou de uma forma abstrusa de transe, a noção da realidade. Por momentos Sevetla entrava num espaço meramente abstracto, indecifrável, em que a relevância do ser era engolida pela voracidade indómita do prazer não atingindo no entanto o paroxismo. Porém, tal como voara para o outro lado da realidade assim voltava à sua condição de urbanidade singela e de mulher respeitável, tão volátil e precário era o intervalo de tempo entre o almejar e o querer, assim ela se revelava.
Dias havia que ungida, animada e inebriada por esta nova e desconcertante descoberta, que de tão óbvia, se perdeu no templo do conhecimento, revivia, aquele instante, e aí, ressumava-lhe na pele um aljôfar, húmido, escoltado de um espasmo latejante que lhe retesava os seus mais íntimos músculos e, enrubescia de afecto e de espanto, pela desenfreada e inopinada sensação de deleite que atingia, desfalecia, em sonhos sobre o negro balcão, enlaçada num livro que por ali se perdera, como se na aba, macia, da cama, deitada estivesse, abraçando o ursinho que, desde sempre, a guardava dos medos de criança.
Sevetla, em tempo algum, ousou fantasiar que tanto assim o desejasse! E, muito menos que, intrepidamente, o revelasse ao espelho e ao obturador da objectiva fotográfica, manuseada por mão própria, que, com o passar do tempo, lhe ia acendendo deslumbres e desejos frementes, que o seu corpo, por vontade própria, ia acalentando, soltando-a de probos e velhos preconceitos, permitindo-lhe, assim, dar largas ao sabor dos seus mais recônditos e insondáveis anseios, que tão acesos ardores imanavam. Anseios, enclausurados, resguardados, que pululando, o seu mais íntimo ser, não morreram por desleixo ou ignorância de existência, mas sim, encontravam-se latentes, esquecidos, aguardando, perseverantemente, a altura certa para desabrocharem, para se revelarem e audazes se rebelarem, vigorosamente, em todo o seu esplendor.
Todavia, Sevetla, tímida e envergonhada, não queria sequer pensar nisso, não se afoitava, para ser mais explícito, apesar das amplas reportagens fotográficas, que, só, no seu recato e no seu sacro santo quarto, a si própria presentear. Munida do telemóvel, Samsung GT-S5660 Android, ou da câmara fotográfica, Fujifilm S1800, usando o módulo automático de disparo retardado ou simplesmente o truque do braço esticado, e bimba, zás, já está. Depois, extremosamente, escolhia as eleitas, as preferidas, dessas, numa segunda análise, retirava as que considerava raiarem o indecoroso ou aquelas que, já libidinosa, haviam excedido os rigores das tempestades do espírito e do corpo. Estas guardava-as, recatada e silenciosamente, para si num álbum que intitulara de “Limbo Erógeno”, num eufemismo de: Quase pornográfico, ou como, também, lhe gostava de chamar: Arte Na Sua Génesis Primeva. As outras, após passarem os crivos referidos, ainda eram sujeitas a uma última análise, escrupulosa no rigor e no detalhe, nada lhe escapava, tinham que estar perfeitas. Dessas, então, saiam as que tornava públicas, fazendo delas gáudio, exibindo-as aos amigos e difundindo-as, nesse palco imenso, que é o mundo das redes sociais, onde viaja incógnita sob o nick name: the red girl.
E, assim, nasceu o mito da menina que não queria ser Tope Model.
Das bocas foleiras, ao top do ordinário, às meras opiniões de quem não sabe como dizer nem como o fazer, das invejas do mulherio, das assisadas, às desviadas, de tudo alfim, ouviu, leu e conheceu esta menina que afinal já é mulher, e, sem perder o norte e o tino, o seu périplo fotográfico, na primeira pessoa, continuou, pois os cães ladravam e a caravana passava. Fez ouvidos moucos a palavras de loiça e à laia de ardoiça, capturou, cativou e, assim, um grupo de fãs, de seguidores atentos, foi criando em redor desta personagem mística e mítica, que lhe ajudavam a preencher um ego vazio e desprendido que sorvia como uma esponja seca o néctar meloso ou acintoso das palavras ditas e escritas, derramando-as em cálice de morno muco, originando uma nova e fogosa aventura fotográfica. Desta forma, paulatinamente, comentário após comentário sessão após sessão fotográfica, foi enchendo a sua mente e criando o seu conceito de arte, o mais nobre: A arte de SER arte.
Todavia nem tudo foi assim tão certo tão linear, dúvidas e mais dúvidas pairaram, como nuvens negras no céu, criando tempestades de alma e dilúvios de incertezas morais, emanando raios que rasgaram autênticas crateras no chão do seu corpo, carnais devaneios levantaram-se como vendavais, por fim a tempestade amainou, e, corpo e espírito desfragmentaram-se de um uno inicial disforme e a clarividência surgiu aquando da separação do corpóreo do imaterial e ascendeu aos píncaros, impune e imune a tudo e a todos, Sevetla, finalmente criara o seu EU.   
Esta diáspora tem uma história que vos quero contar. Era uma vez…
Um impasse, um impasse entre o renascer de vontades e as quebras pueris de deslumbramentos inerentes a sonhos inefáveis aliados a uma personalidade desordenada, donde nasciam e feneciam perfis na Netlog, conforme a sua conveniência e os ataques ferozes de que eram omnimodamente vitimados por uma oligopsiquia atroz. Todos eles exuberantes, sensuais e descabidamente naïfes, contudo sem ferirem o fio condutor que a todos une: o seu cariz próprio e muito singular – explodindo virtudes e emanando uma assunção e presunção de arte. 
De facto Sevetla não intenta exibir-se, antes pelo contrário, o que ela verdadeiramente ama é a arte e para ela o corpo é arte na sua expressão mais primeva, todavia necessita desesperadamente de mais ou melhor o seu ego exige-lhe mais, e o permanecer anónima no bolor bafiento de uma biblioteca universitária, não se coadunava com os seus anseios, não era propriamente o sonho seu, mas como fugir, como contornar? Como chamar a atenção do mundo para o seu mundo? Como soltar uma alma presa a um sonho? Como projectar esse sonho num mundo hermético à sua realidade comezinha, ao seu ínfimo reduto? Como a libertar?...
Sendo que as cadeias inerentes à vida a obrigam a uma condição inóspita que lhe cativa, agrilhoa o corpo e que a alma não aceita, não tolera e, onde remanesce intacto e eternamente livre o sonho. Sonho que acalenta de tenra idade mas que hibernou, permaneceu latente, porém agora que desperto, não lhe pode mais ignorar a existência. Sonho que a consome dia após dia como uma peçonha hedionda, que verduga, lhe preenche as horas, acendendo-lhe desejos, ausentes de face, num corpo delirante que explode no calor das noites insones e atirado ao prazer desenfreado da antecipação que compensa o sofrimento por antecipação e, assim, esvaída de si e em torvelinho desprende-se nas mãos libidinosas do sono num: até amanhã sonhos.
Sevetla sonha entregar e sujeitar o seu corpo à arte de fazer arte, todavia não sonha ser Top Model. Para Sevetla a arte é insinuante, é sensual mas é pura também, e, soleva corpo e alma; arte é beleza estática ou em movimento, está para além do corpo e roça os píncaros mais grandiosos de um estado de alma que atingiu a luminosidade radiosa, o esplendor que apenas existe num limbo, num entre Ser e o ser Deus, é divina e resume em quatro letras a sublimidade do SER. Assim, quem a ela se dedica na sua plenitude faz parte de uma franja de seres semi-divinais que não vivem entre os Homens mas num Éden diáfano que se encontra ligado à Terra por um campo electromagnético de atracção criado pelo fulgor, pela perspicuidade das mentes, tal como um satélite, só que não é dotado órbita fixa, vagueia perdido pelo espaço, e tem uma dimensão intangível. Por outro lado a vida de Tope Model é algo corpóreo, palpável, infame onde impera a promiscuidade, a permissividade, a arbitrariedade de critério, e onde sobrevive um submundo de podridão de carácter e imoralidade, é algo abjecto, uma aberração da natureza, uma troca continua de serviços, de favores inconfessáveis, abominável, a face oculta do mal.              
Sevetla croiu uma perspectiva muito singular muito própria entre estes dois mundos; onde um fio ténue separa a arte da exibição crua e discricionária do corpo, para ela completamente divergentes: A arte eleva e a exibição, remunerada, do corpo degrada a condição de ser humano. Um quase diálogo, prenhe de concupiscência, entre a deidade e a meretrícia.
Esta concepção, esta convicção, granjeava-lhe alguns amigos entre o público masculino, mas outras audiências, aquelas que não lhe entendiam os desígnios ou os consideravam um atentado à moral vigente ou ao seu pseudo pudor, ou ainda àqueles que, de pendor lascivo, lhe procuravam cativar os favores e eram dócil e liminarmente, todavia com classe e veemência, repelidos, recusados, por repúdio e nojo, depois de se exporem com indecorosos e insidiosos comentários ou consoante a gravidade do seu entendimento, atirados, entregues na lista negra, impiedosamente, e, às vezes pelo simples facto de, com boas intenções e delas está o inferno cheio, lhe demonstrarem algo mais, um genuíno afecto ou um afecto mais efectivo, era a carapaça emocional a escudá-la de si, do mundo, que a compelia à rejeição, crua e nua, irracional por vezes, contudo sem maldade. Atávica. Consequente das rejeições que lhe macularam a vida, pelas incompreensões, as sujeições, mas inocente também.
Sevetla na sua maldade era, inocente, no julgar; num prato colocava as injustiças impostas pela vida no outro o alvedrio do seu pressentimento, e assim, funcionava, à sua maneira, o fiel da balança por ela construída para protecção, para defesa, do mundo hostil, áspero, que em seu entorno vogava, insinuante, roçando-lhe, sem cerimónias, a sua pele macia, carcomendo-a aqui e ali, abocanhando-a, sacudindo-a e finalmente arremessando-a na sarjeta, numa noite fria da sua indómita existência, à qual ela resistia intrepidamente, cuspindo na infâmia, em cada letra, insinuantemente latente.         
A salvaguarda do conceito é a intermitência, a subsistência do ser. Verdade pia para Sevetla.
Assim, e no meio desta balbúrdia, neste ruído de fundo Sevetla navegava, navegava de rumo perdido, incerto, ao sabor do seu discernimento, da sua objectividade toldada por um absurdo e abjecto prenúncio de rejeição incontida, mal resolvida, inconsútil na sua abstrusa concepção; imposição do ser a si, molde deformado de uma existência conturbada, periclitante e de um trajecto de vida titubeante, cumprido em si e para si, porém só, comprimido num mundo, iníquo, que desejava expansível e equânime.
A lógica para Sevetla era uma batata de pele macia mas muito irregular e disforme. Conceito que aplicou, solenemente, à sua relação, conflituosa, com o mundo, um mundo que não nasceu para ela nem tão pouco ela para ele, regulando as suas atitudes, tal e qual uma correctora de mercados financeiros avalia uma empresa, um grupo, uma holding ou um Estado, isto é, sem critério óbvio, mas objectivamente, baseado em previsões aleatórias de mercado, em enquadramentos semi-obscuros de semi-obscuras influências. Sevetla era uma ilha deserta, virgem, rodeada de recifes de coral e uma ondulação traiçoeira, onde apenas existia uma entrada que simultaneamente era também a saída, porém tão inóspita que nunca ninguém logrou lá passar. A barreira de coral que a defende, é mais um cemitério de navios e almas naufragadas; uma necrópole singular, onde jazem no mesmo chão sagrado os sentimentos e os ressentimentos. Mundanidades.
E, nesta agonia constante, lobrigou ao fundo do túnel a luz, a essência, explodiu desfragmentou-se em duas partes únicas e dissemelhantes: Corpo e Alma.   
Hoje, os anos crestam-lhe a imagem da mulher que já foi, contudo, liberta da prisão do passado e vogando só no tempo, numa cadência insólita de tempo, Sevetla, continua vogando pelas redes sociais, presa a um sonho que nunca logrou alcançar e a uma juventude que há muito de si emigrou.
Todavia o seu sonho impera, é muito mais profundo que o poço que, só, cavou e onde, só, se refugiou, prevalece intacto no tempo que, para ela nunca passou.


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Certas pessoas



Certas pessoas
Têm as palavras correctas
Um olhar pleno de dizeres
Que esquece-las,
Nem que seja por momentos,
É um perder de genuínos credos  
Gestos, desígnios e propósitos
Que, de ignorados no mundo,
Nos fazem perder o caminho
Relegando seus mil sinais.
São, pois, seus toques e detalhes,
Estremecendo em nossos corações,
E, na ausência da presença,
Trazem a nós o recordar,
De que:
“O ainda há pelo que valha a pena”
E, que pessoas, existem
Que, no detalhe, o essencial têm e retêm
E, com seu mágico toque, mostram
O quão especiais o são!...

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As bailarinas do silêncio



Rodopiam, como loucas,
No silêncio da noite
Orladas de uma áurea argêntea
Que envolve a sua diáfana silhueta
Revolitam.
Vestem branco alvo
E, descalças rodopiam,
Numa dança frenética, insana
Envoltas de um lençol de névoa
Que a cada rodopio, desvanece
Deixando seus corpos esbeltos
Seminus e descobertos
Logrando antever pálidos rostos
Aos tíbios raios de luar expostos.
Do chão frio da floresta
Da noite álgida de inverno
Do seu halo morno e húmido
Exala, um fio estreito e ténue,
Um nevoeiro de alma
Um vapor de vida
Emana, enche a clareira
Que de pedras suadas está cercada
E, onde ao centro, o fogo crepita.
Rodopiam e rodopiam
Dançam insanas, resplandecentes,
Invocam deuses menores
Incendeiam ânimos latentes
Provocam os sentimentos
Despertam velhos entes.
E, a cada rodopio rola do corpo ao chão
O branco véu da entente
Que a seus pés, nus, jazente
Abre, amplo, um alvo manto
Onde os nus pés dançantes
Revoluteiam, sôfregos de movimento,
Leves em volúpia crescente,
Libertos do húmus que na terra descansa.
Prestes, o desenfreio, terminará
O silêncio da noite já definha
A aurora no céu já se adivinha
O estralejar do fogo feneceu
O último gemido morreu na garganta
O alvor, aos poucos, engole a escuridão
O sono desperta para um frenesi de vida.
E, nesta transição, nesta cedência de posição
As magas, as feiticeiras, as fadas, as bruxas, as mulheres apenas?...
Saem do transe,
Olham-se.
Vêm-se nuas
Apressadas vestem
Do dia a dia o rosto a vergonha
Cobrindo seu corpo gracioso e macio
Com branco véu de terra já maculado
As bailarinas do silêncio
À condição de mulher retornam.

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A janela do sonho



Ontem à noite a minha mulher pediu-me para que ficasse com a nossa filha na nossa cama para que lhe vigiasse a noite, o sono. Estava apreensiva por causa da queda ocorrida, na tarde, na aula de dança, onde embateu, com alguma violência, com a nuca no chão; resguardo de 24:00 horas por via das dúvidas ou por afectação à segurança, apesar de ela se encontrar bem disposta e estar: ela como só ela só.
Acedi, sabendo à partida que não iria resultar em sono ou melhor em horas de descanso efectivo, horas que já vinham a ser jogadas fora do relógio do descanso para a qualidade de vida, do desassossego provindo das noites anteriores. Assim, quer o corpo quer o espírito, já vinham a reclamar veemente por sossego, paz e descanso, elementos que à partida não se conjugavam com a situação pendente.
E, por saber, de outros carnavais, o que a casa gasta, era mais uma promessa ou melhor uma certeza que o descanso tão almejado ainda não era desta que veria a luz do dia ou morderia a quietude e o silêncio da noite. Mas, como referi, tolerante, acedi, na esperança mais que vã que desta vez seria diferente, é sempre assim a esperança acredita mais que nós.
Quando cheguei à cama para me deitar passavam trinta e cinco minutos das 23:00 horas. A minha filha dormia tal e qual um anjinho, cândida, não se denotava movimento, ténue que fosse, que não um respirar leve e morno. Dormia o sono dos justos, dos infantes.
Deitei-me, após ter colocado em cima do travesseiro a almofada de ler. Agarrei As Cinquenta Sombras de Grey de E. L. James, afofei-me, buscando um pouco mais de conforto no conjunto, já de si periclitante e desarticulado, do sistema cama, travesseiro, almofada, livro e eu. Aconchegado, o quanto bastasse mas não o suficiente, abri o livro na página onde o marcador dormia e iniciei a minha higiene mental diária; não que o livro se preste muito a isso - literatura de cordel, também faz falta mas muito de vez em quando -, o ritual de pertencer a mim e só a mim por um período indeterminado de tempo até estar prestes a cair no abismo do cansaço e na modorra do sono. Aí levanto-me, verto os fluidos clorídricos e zus vale de lençóis. Um clique do interruptor do candeeiro de mesa-de-cabeceira, um escuro repentino, um ajeitar de lençol e edredão e um partir rumo a um mundo pardacento de sombras; a inconsciência voluntária do sono.  
Ontem, recordo, que esta pletora de manobras foi executada com luvas de pelica, não fosse o anjinho despertar.
Luz apagada. Meia volta ou volta e meia, encontrei a posição do zeeeee… Estava eu em vórtice direccionado ao buraco negro da inconsciência, à beira do apagão e eis que o reboliço começa; é sempre assim nem sei porque me sobressaltei, num ápice, de anjinho de sossego passa a anjinho do desassossego, desata a espernear, atingindo-me as costas e a bolinha do pensamento.
Acabrunhado, com o coração a querer saltar-me pela boca, passo de uma semi-inconsciência para um limbo entre uma forma meio atoleimada, desnorteada, desconcertada e ofegante, nem meio cá nem meio lá, antes pelo contrário, vogando-me na mente um sentimento difuso, incongruente de um: o que se passa, onde estou, agarra que é ladrão?... e um arranjo desconcertante de uma consciência semi-perdida na ilusão do sonho.
Caio dolorosamente no mundo do eu, numa atroz consciência de mim: acordei e agora? Entrei em desarmonia e subitamente um pânico insano apoderou-se de mim, povoando-me a mente uma realidade obscura, inclemente, como um pesadelo vívido: agora não vou conseguir dormir mais, mais uma noite em branco, o coração voou-me do peito para o cérebro latejando-me nas têmporas, agrilhoado ao pressentimento duma insónia iminente coadjuvada a duas noites praticamente insones.
Lancinante, excruciante, flamejante como uma escorva percutada no interior do cartucho de uma bala dando inicio à deflagração da pólvora e ao consequente disparo do projéctil, a ideia incrustou-se em mim, retumba e entra em rotação conjugada com um movimento uniformemente acelerado, percorrendo distâncias incalculáveis no meu sistema neurotransmissor, tal e qual uma bala ao sair do cano de uma arma de fogo no cumprimento do seu trajecto parabólico até ao impacto final, inventando em mim a imagem, tenebrosa, do cumprimento de mais um dia de trabalho, lambuzado do cansaço acrescido de mais dois que passaram.
Levantei-me. Urinei. Dirigi-me ao quarto da Laura onde, plácida, alheia, a Maria dorme, dorme a sono solto e repousante. Hesitei. Retornei ao quarto. Sobre a cama a Laura, dorme, espalhada sobre o plano transversal. Ajeitei-a, sobre o plano perpendicular à cabeceira. Tornei à cama. Apaguei a luz e, alvoraçado, procurei conciliar o sono que, contumaz, tardou.
Esperneou, escoicinhou de novo a petiz e o meu coração, já alerta, desenfreou-se, cavalgou livre, dento de mim, a rédea solta, galopou, troando-me nas entranhas, explodindo-me os sentidos, desembestou, desencabrestou, espezinhando-me e embotando-me a razão. Aí, rasgou-se-me no cérebro um clarão um grito: assim não dá!... Acendi a luz. Levantei-me. A criança dormia enlevada e perdida em sonhos.
Mexia e remexia. Presumi que tinha calor. Descalcei-lhe as meias. Beijei-lhe, ternamente, os pezinhos. E, aguardei. Tudo, agora, parecia acalmia, remanso.
Passo ante passo, silenciosamente, dirigi-me ao quarto do lado, inclinei-me suavemente sobre a Maria e sibilei-lhe ao ouvido de mansinho: troca de cama comigo. Senti-me um baderna. O cansaço, porém, gritava mais alto e o coração ainda me batia forte no peito.
Alfim mudei de quarto de cama mas a paz não alcancei, teimei em não adormecer. Porra! Merda de feitio este! Pensei.   
Não houve Pai Nossos nem Avé Marias que me valessem ou consolassem a alma em desalmada dessincronização, agarrei-me, em última instância, a uma ovelha de pelúcia, pertença da minha filha, para consolar a alma tal como um naufrago se agarra, à sua última esperança, encerrada, na última tábua que resta do naufrágio. Resultou, por fim descansei. Acordei, ao toque do despertador, ainda abraçado à ovelha. Idolatria?!… Talvez!?... Il faux pas
Acordei, acordei sob a harmonia das cordas da harpa e a égide da felicidade, que derramaram sobre mim a boa nova: a minha filha acordou hoje para o sonho. 
A minha filha hoje, pela manhã, disse: mãe, sonhei com a praia, com o mar e com muita água. Este é o primeiro contacto, consciente, da Laura com o mundo dos sonhos, a minha filha teve o conhecimento ou o reconhecimento do sonho. Finalmente a Laura descobriu e aprendeu o que é sonhar ou como é o sonhar; abriu mais uma janela do seu ainda pequeno mundo, a janela da consciência do sonho, uma etapa importante no seu difícil abrolhar para a vida.
Este evento trouxe-me uma felicidade intensa, imensa, desmesurada e a incumbência, desmedida, de lhe semear, implantar um sonho.

tÓ mAnÉ style 

A guerra



A mais estúpida forma que o Homem criou enquanto manifestação de poder, de cobiça, de inveja e de ciúme. Há sempre alguém que defende e alguém que agride. É um conflito aberto entre partes e às vezes fala-se de guerra interior; conflito de si para si - Eu versos Eu – a mais pequena forma de guerra que de certa forma despoleta todos os tipos de guerra; um conflito inicia-se sempre por uma pequena guerra interior – o agressor é simultaneamente o agredido, a geração do conflito é intrínseca, e este mal-estar interior reflecte-se extrinsecamente, dando origem a conflitos de ordem superior; entre dois indivíduos, entre famílias, entre regiões, entre estados, entre planetas e no limite entre galáxias, e tudo porque alguém não conseguiu dominar a sua guerra pessoal; Eu ante Eu – o medo, a frustração, a cobiça, a inveja, a vaidade, a maldade, a insídia, a estultice, … e a sede de poder que se enraíza a estes predicados. Esta constante luta do Eu com o Eu é a propulsora e a geradora dos grandes ditadores.
A guerra semeia a discórdia, acicata irmão contra irmão, não teme porque não deve, pois é dever do homem lutar por tudo e por nada; a honra, a verdade, a fé, o
amor (até por amor se faz a guerra). (continua)…

Ninguém deveria precisar de mendigar, seja de que forma fosse, para viver, Deus deu de graça o que o homem vende...

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Adventos



Salve insignes criaturas
Salve, salve…
Erguei os braços aos céus
Erguei, erguei…
Cantai Avé Marias
Cantai, cantai…
E, quando, já roucos,
De preces orar
Cansados, injustiçados, gritai
Gritai, gritai…
Cuspam impropérios a eito
Agora,
Agora que ninguém vos ouve
Soltai vossos ais
Soltai, soltai…
Ai quem nos acudirá
Ai, ai…
Soprai Salmos aos ventos
Soprai, soprai…
De nada vos adiantará
O socorro,
Jaz no fundo dum poço
Tarda, não virá!
Emmeios,
A gigantesca roda do tempo
Inclemente, não pára
E, os adventos, correram,
Não olharam atrás,
Não voltam mais
Morreram na memória
De uma história só:
A vossa!

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A saga...



Neste périplo
Entre as Áfricas
E os restos do mundo; Portugal
A esta cidade algarvia
(antes vila)
Chegaste! Vieste parar!
Alicerçaste!
Novo alento aqui criaste.
E, com:
Empenho, esforço e abnegação
Uma vida, plena, dedicaste…
A esta comunidade louletana
(não que a mereçam, é certo!)
Todavia, agora, é chegada a hora,
A hora do repouso
(o descanso do guerreiro, alguns o dizem)
Bem merecido por ventura.
Bebe um copo… amigo!...
Grita merda!!!...
Grita foda-se ou que vão para o caralho!!!...
Pois, agora, já não importa
E ao luxo te podes dar
De “impoliticamente correcto”, seres!...

Um abraço de um louco!


tÓ mAnÉ    Editions

À distancia de um "ckick de mouse"; Um anjo no meu céu



Dificilmente uma aparição de um anjo traz dependurada a si a iluminação do nosso céu. Nem sempre a felicidade rebenta, assim, espontânea, no nosso coração e, está há distância de um “click de mouse”, talvez por exigirmos em demasia daqueles que de nós mais próximos estão ou que nos rodeiam e, que por isso, perdem o brilho, o seu encanto e a sua magia, predicados que, por neles encerrados, não se encontram, efectivamente, perdidos mas sim por nós desvalorizamos, por uso ou desuso. Hoje o brilho, o encanto e a magia ou aquilo que lhe queiramos chamar ou pensamos que o são, estão à distância de um “click de mouse”, vogam, ao nosso bizarro conceito, livres nas redes sociais e páginas, sites de encontros imediatistas, nos quais nós desconhecemos quem pensamos conhecer, ou deliberadamente nos induzimos ou conduzirmos ao engano, não por o queremos mas sim por conveniente.
Procuramos amizades e amores virtuais, inventivos, liberais, fáceis e inconsequentes, sem virtudes ou pecados, frutos podres de uma árvore, decrépita, a árvore de todas as ilusões. E, preferidos, por proibidos, por desconhecidos, por apetecidos, porém todos frutos de vaidades que não temos mas que almejamos, de pessoas que não somos mas desejamos ser, no fundo frutos de um caleidoscópio social emergente de uma forma não despiciente de ser.
Esta árvore, seca, que gera no seguimento da flor frutos já putrefactos, cresce-nos os corações de uma pretensa sensação de acolhimento, de importância e até de preenchimento dos vazios que nos assolam as noites e quantas vezes os dias, também, todos eles precários, transitórios que tal como nascem assim fenecem: repentinamente; árvore das respostas fáceis às perguntas difíceis que a vida nos propõem no seu exame de fim de um percurso e inicio de novo rumo, assim o ditam as leis: o ciclo tem quem iniciar e encerrar antes que um novo se reinicie.
Não quero generalizar! Nem estou a generalizar! Daí o “ Um anjo no meu céu”.
Olá anjo meu!
Mentira que eu criei só para mim.
Mentira porque acredito nela.
Mentira porque a isolei de todas as verdades da minha vida.
Mentira porque de facto nasceu e cresceu assim, mentira.
Mentira por ausência de uma verdade absoluta.
Mentira por eu, frequentemente, a sonhar como uma verdade sempre presente.
Mentira por não poder ser verdade mas por o ser, inexoravelmente, também.
Mentira por consequente e mentira porque todas as mentiras são, talvez tão-só, as mais puras verdades.
E, tudo isto, á distância de um “click de mouse”, distância essa que se sobrepõe a oceanos, a continentes e quiçá, um dia, a universos e galáxias inteiros. Daí a criação de uma nova palavra no léxico da modernidade, uma palavra moderna, nova no seu conteúdo, na sua acepção, todavia antiga na sua diáspora, no seu périplo, para a história do Homem no seu percurso natural: internauta.
Devo confessar, chegados aqui, que sou um internauta medíocre e retardado, um autentico tecla 3 (DEF), falando uma linguística mais jovem que a minha e alusiva às novas tecnologias, nomeadamente, à da comunicação telefónica sem fios, a linguagem do teclado dos telemóveis, os mais antigos, claro, a geração ante “touchables”, em que o uso das redes sociais tipo facebook, netlog, skype, entre muitas outras, para mim, só se abriram, incompletamente, de há meia dúzia de anos a esta parte; um leigo! Onde o essencial se revela como uma vitória e não como uma derrota, como muitos dos “experts” meus conhecidos me rotulam: os meios informáticos e tu são uma, e uma só, incompatibilidade.
Mas que feliz que eu estou, meu anjo, pelo pouco que sei, pois foi esse pouco que nos apresentou!...
Lembro-me nitidamente, como se fosse hoje, como nos conhecemos. E, quando o  recordo ainda sinto aquele arrepio gostoso, pela espinhal medula acima, que se eleva ao longo do pescoço, como se de um beijo cálido se tratasse e, que irradia pelo meu corpo, chamando-me ao irreal, ao confuso, ao virtual, aquele, que se sente tal e qual o fosse… real!...
Eu, sonhador de palavras e jardins suspensos, tu, perdida nas ilusões e mergulhada nas desilusões. Não tínhamos como nos encontrarmos que não fosse a vicissitude ou na virtuosidade da virtualidade. Foi a música que nos uniu, e com ela as palavras, e com as palavras o desentendimento, e com o desentendimento a música, que, por fim, nos trouxe ao entendimento dos actos e das palavras, aquelas que navegam nas letras que associadas ao som e ao privilégio da imagem, nos fizeram compreender os pontos de inserção dosa nossos pequenos grandes mundos.
E, assim, deste-me um tu ao qual eu acrescentei um eu, o meu eu. Não somos uno, sei-o bem, somos a distância existente entre dois “clicks de mouse” ou de dois “keyboards” e tão intermitentes quanto um néon na noite escura; umas vezes eu sou a imagem e tu a obsidiana, noutras invertemos os papéis, tu a imagem eu a obsidiana, que são as nossas vidas.
De palavra em palavra de vídeo clip em vídeo clip cimentámos esta amizade, cheia de percalços, este amor distante, solitário, esta vontade de sermos um só no calor da paixão, esta tesão de nós.
Hoje, quase próximos, quanto um abraço, quase tão próximos que o teu halo acende em mim o desejo que em mim reside, inerte, ou quase tão próximos que o simples roçar, ao “click de mouse”, tu fazes as vezes da lixa da caixa e eu a do pau de fósforo, nesta biosincrasia que é a vida encerrada numa caixa de fósforos, ou seja eu encerrado em ti, naquela caixinha de encantos mil e tu, por vontade própria abres-te, e eu saio para ti, e tu, delicada e insinuante, entregas-te, roçando-te, esfregando-te, sovando-te, dando-te à fricção, provocando em mim uma reacção química sem igual, uma comburência daquela cabeça vermelhona, originando uma chama que me consome a madeira numa paixão escaldante, fulgurosa, e rápida, acendendo desejos incontáveis, enrouquecendo a minha voz, que te implora que te abras para mim, uma vez que dentro de ti me deténs, me encarceras, deixando que a minha chama ateie o cigarro que libidinoso e preguiçoso da tua boca pende, aguardando, silenciosa e ansiosamente, o momento em que a primeiríssima emanação de fumo exale, aliviando a solidão e a carência de calor que em si não encerra, mas que, todavia, de fonte autónoma depende.
Fuma, pensativa, meu anjo.
Fuma, contemplativa, não apresses o morrão, não apagues a acendalha.
Goza entre cada fumaça, ou trago, ou passa o prazer que no teu corpo se deleita e, quando chegada a beata, aspira o fumo devagar, pois aí o calor já queima e, perto, muito perto, está, abrasiva, a implosão do amor, depois, com meiguice, esmaga no cinzeiro o que resta, com cuidado, vai ser a minha alma que calcas, saciada, satisfeita, completa, feita em cinza, é bem certo. Aí, amarrotada, refugiada no filtro, aguarda paciente uma nova oportunidade, o reacender da volúpia, que no maço dos vinte se resguarda.
Poderei dizer, sem faltar à verdade e seguindo a metáfora empregada, que cada vez que roço por ti perco a cabeça. E, também, que: É assim que começa a história.      

tÓ mAnÉ Editions

A fímbria da frincha



Páginas, páginas aos montes…
Presas, compactadas em lombadas coloridas,
Dias, dias carradas de dias,
Seguidos, intercalados ou criando lapsos longos de calendário.
Sonhos; adiados, impressos, expressos
Ou mais ou menos sonhados;
Omissos;
Espalhados, derretidos nessas páginas, nesses dias
E, ao voltar de cada dia,
E, ao voltar de cada página,
Voltam-se novos sonhos, fenecem outros
E, soltos, assim no dia-a-dia
Consomem-se todos os sonhos dos sonhos
Que arreigados, amarelecidos e gastos
Vêm, nestas páginas,
Em branco,
Que de negro vamos preenchendo
Com de tudo um pouco
E de nada um tudo
Chamando-lhe… qual eufemismo:
Vida.

tÓ mAnÉ  style

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Ligação

Dois corpos fundem-se!
Liga que liga o ineligável.
Na bigorna, à força de martelo,
A liga incandescente, jorra!
Forja o sentido
E, na água imbuída,
Solta a fragrância
Em fumo, que é desejo; agridoce.
A tempera rasga sorrisos
Gera suspiros e gemidos
Que, em jaculação,
Derramam,
Apoteoticamente, a inquietude
Num mar, remanso, de cumplicidade.
Novo tempo, novas virtudes,
Incônditas, nascem!
Ó abraços, entre braços laços
Ó palavras soltas de conteúdo
(Verbo de encher e vazar).
Calor, suor e marcas do amor
Tudo no lençol derramado
Recordando às almas fundidas
Que em eclipse sempre novo
O desejo, cálido
Pingo a pingo rola
E, a taça, húmida, já chora
Pelo martelo que na bigorna
O anseio, feito desejo, molda.

tÓ mAnÉ

A todas as mães

Quantos e quantas,
Dias e noites; vigílias insones
Espaços intemporais,
Que ontem, hoje e amanhã,
Velam sobre um filho,
Nos olhos e coração de uma mãe?...
Que em troca de nada
Tudo dá! Até aquilo que não tem.
E, nesse olhar cansado
Que nunca da luta se cansa
Verte um líquido sagrado
Que não é lágrima
É esperança!...

tÓ mAnÉ

Ser um só?

Porque me faltas tu?
Porque não te tenho nos braços?
Quero esmagar teu peito contra o meu,
Quero que meu desejo se enlace no teu,
Ser um só.
Quero ter-te!
Quero sentir o teu corpo húmido,
Quero sentir-te, escorrendo quente, entre meus dedos,
Quero o teu sabor na minha língua,
Quero o teu corpo vibrante e fremente,
Quero sentir-te ondular em mim,
Quero ouvir os teus ais e os teus suspiros,
Quero ouvir dobrar os teus sinos,
Quero, finalmente, o teu cansaço,
Desfalecendo no meu abraço,
Quero ouvir o teu sussurro em meu ouvido,
Lambendo-me a alma,
No inverso do sentido,
Quero!...

tÓ mAnÉ

O meu quarto... a dez

Estas paredes que me sufocam
Vêem a liberdade que me cortam,
Estes mosaicos sarapintados
Olham-me como se estivessem embriagados,
Aquela vassoura ao canto,
Rindo-se do meu pranto,
Aquela pá inútil
Grita-me “a tua vida é fútil”,
Aquele balde de lixo, plástico,
Sempre sisudo e cabisbaixo,
Estas três lâmpadas
Lúgubres como campas,
Aquelas botas reluzentes de engraxadas
Cavam-me o espírito como enxadas,
Estas mobílias castanhas
Força do ódio que me rasga as entranhas,
Este ar pesado e pestilento
Enche-me os pulmões de um grito violento:
“Tirem-me daqui,
Morri mas não apodreci”.
Tragam-me de novo a vida,
Numa bandeja servida,
Mostrem-me o caminho,
Perdi-me! Estou sozinho,
Venham todos, tragam mosto e vinho,
Eu quero... quero estar convosco.

tÓ mAnÉ

Cambraia negra

Peça a peça, derramasse, 
Desliza, em impudicícia, roçando o corpo
Arrepiando a pele, macia e morna,
Explodindo em volúpia,
Já sem retorno; fusão de vontade incontida.
Ouve-se, em surdina,
Baque abafado no chão
Frio, de mármore, lazúli.
A máscara que veste
A pele doirada do sol
Que o mês de Setembro trouxe,
Revela-se!
Alfim, resta:
O colar de prata envelhecida
Do qual prende, dependurado ao pescoço,
Um medalhão;
Que, envelhecida corrente, sustenta
A diferença existente
Entre o amor e a sedução.
Os brincos, pendentes,
Como almas cansadas
Que almejam, reconfortante, chão.
E, os sapatos, pretos,
De salto alto e pontiagudo
Onde, alcantilada, a alma resiste
Observando longas fímbrias de cambraia negra
Que, prostradas, contemplam
Longas e esbeltas pernas
Negra nascente, sedosa, de deleite, impaciente
Fartos seios
Negros mamilos proeminentes.
Que desprovidos de pundonor, ansiosos,
Em orquestra, afinada,
Vibram em doce cadência
No silêncio, mudo, das vontades
Provindas de diapasão carente.
Ó negra fímbria, negra nascente,
Negros mamilos proeminentes
Que aguardam…
O prazer, insinuado, que tarda.

tÓ mAnÉ

Pára um pouco e... pensa...

É urgente...
Urgente que se faça
E que não se faça.
É urgente...
Urgente que se discuta
E que não se discuta.
É urgente...
Que se cale e se fale
Que não se cale nem se fale.
É urgente...
Que se oiça e se seja surdo
Que não se oiça nem se seja surdo.
É urgente...
Que se ame e se odeie
Que não se ame nem se odeie.
É urgente...
Que se trabalhe e se descanse
Que não se trabalhe nem se descanse.
É urgente...
Que se viva e se morra
Que não se viva nem se morra.
É urgente...
Que se pense
E que não se pense.
É urgente...
Parar, reflectir e concluir.
Só o tempo tem urgência,
Urgência em passar,
Tudo e resto pode esperar,
Não tem urgência.
Urgente! é sim, parar e pensar...
Pois,
Urgente, urgente é, se possível, não errar!...

tÓ mAnÉ

Trajecto de existência

Assim, neste vazio
Que eternizo, numa manta,
Cheia de palavras
Ditas, não escritas.
Faço soar o eterno sino
Que nas laudas
Chama à oração
Aqueles que no vazio
A alma deixam,
Por sorte do destino
Ou destreza da desgraça,
Descalços,
Percorrem o caminho de pedra fria
Cuja única luz é a vela que os alumia.
E, assim,
Nesta lúgubre procissão,
Do santo ao pecador,
Todos nela vão.
E eu, que em ti, um vazio deixo,
Vou na frente,
Firme a cada passo,
Pois sei, que de um valor vazio,
Não passo.
E assim vou marcando o passo,
Sincopado a compasso
Espaço a espaço,
Que da pessoa o vazio deixa,
No seu valor,
Que, como de bitola, o fosse,
Na vida e na morte,
Assim não o deixasse,
Patente e, em devassa, exposta,
A medida do seu trajecto;
Límpido ou abjecto...

tÓ mAnÉ