Ovo de sol - desabrochar; sombra, que mão tu me trazes? Presa a essa luz que me fascina, perdição do meu olhar sobre um pouco de tudo, disfarçado na ignorância do pós-além, sem que, realmente, de nada veja!... Oh! Silhueta de mundo, desvenda os teus mistérios, pousa-os na palma da minha mão, perdi-me quando sobre ti derramei o meu olhar, que nublado me quitou da realidade, transferindo-me para a essência diáfana da tua perda neste romper de emoções que de mim e em mim explodiu... tÓ mAnÉ
segunda-feira, 24 de março de 2014
Ele há coisas…
Ele há coisas que…
Não lembram a Deus nem ao Diabo!
Porém, ao Homem, sempre atento, nada lhe escapa no seu entorno.
Tudo sente! Tudo presente!
Nem Deus, nem o Diabo lobrigaram inventar a política
Tão pouco a liberdade ou mesmo a democracia
Uma vez, que estes conceitos estavam subjacentes à Sua condição divina;
Eram endógenos, intrínsecos à criação do Universo,
Pelo que não careciam de criação, já eram,
Já existiam por inerência aquando do fenómeno da própria criação;
Faziam parte integrante do pacote entregue chave na mão.
Contudo, o Homem engendrou novos conceitos,
Conceitos que entraram em conflito com a harmonia vigente,
Com os princípios basilares do próprio Génesis:
A escravatura, a subjugação, a tirania, a ditadura, a divindade e o facciosismo,
Que o Homem exerce sobre o Homem ou do Poder Divino sobre o Homem,
Onde outro Homem executa a intermediação divina sobre o Homem;
O exercício “divino” do poder do Homem sobre o Homem.
Deus e o Diabo não tinham conceitos!
Apenas partilhavam e dividiam três locais cósmicos, chamados:
A Justiça; O Julgamento; A Condenação.
Localizados em locais incertos, longe do conhecimento do Homem,
E, onde, efectuavam, consoante a particularidade, a selecção das Almas,
Depondo-as, uma a uma, na sua morada eterna.
Não só do Homem, como também, de todos os Seres Vivos.
Todavia, o Homem descontente com o processo instituído,
Que não lhe conferia pequenos poderes ou relevância,
Resolveu adequar o meio à sua ínfima medida.
Então, desenhou palavras novas como “política”, “religião, “economia” e “futebol”
Todas com o mesmo objectivo: A subjugação do Homem sobre o Homem.
Deixando, no entanto, o odioso da questão a Deus e ao Diabo
Que, deixaram de ser meros conceitos abstractos para passarem a ser,
Sob a mão pérfida do Homem, objectos de regulação e culto,
Da vontade arbitrária do Homem.
Aí, Deus e o Diabo, conferenciaram e, condescenderam,
Caindo no logro deste ser aberrante, usurpador, oportunista e arrogante,
Ao qual, sabe Deus e o Diabo, se acaso o sabem!?
Dotaram ou conferiram a poderosa arma do livre arbítrio
(não se sabe por quem, nem porquê, mas desconfia-se; por ele!
O avisado Homem)
Do qual, o Homem, faz uso e abuso sempre que lhe apraz
Ou serve os seus variegados e megalómanos interesses.
Todos os Seres Vivos, exclusive o Homem; por, a si, assim o exigir
Nascem, crescem, vivem e morrem em liberdade, em democracia
E, no pleno exercício do seu livre arbítrio, cada um dentro das suas condições
Livres de jugos, sem peias, cumprindo apenas Leis Universais.
Acontece que o Homem veio adulterar os conceitos ancestrais do Universo
E, no exercício do seu livre arbítrio, conferiu-lhes um nome pomposo:
Leis da Natureza.
Das quais logo se desobrigou como se delas estivesse exonerado
Por fundamentos de “política”, “religião, “economia” e “futebol”.
O Homem, não satisfeito, com a elaboração do conceito,
Ainda desenvolveu um efeito de estigma “o medo do conceito”,
Por lhe dar muito jeito à modelação do mundo à sua corcunda maneira.
A política serve! A religião pune! A economia gere! O futebol congrega!
E, o Homem, que não lhes é temente, excepto os ministros dos conceitos,
Que estão impunes e ou isentos a seu bel-prazer,
Pagando os seus excessos com bulas ou sangue,
(minudências para quem visa a subjugação de outrem)
Serão condenados por Deus, por o Diabo e pelo Homem,
Enquanto sacrílegos e desalinhados de uma alma geracional global.
No panorama da política, enquanto o conceito geracional de todos os outros,
E que visa exclusivamente a contenção de uma massa ou turba, que não pensa,
Ou ainda que pensando, vive à custa das migalhas que rolam,
Cuidadosa e criteriosamente, do prato, farto em iguarias, da “política”,
Logrando, ainda que, numa reles minoria, reger a grande maioria.
E que se movem como um bando de pombos que sobrevive numa praça pública.
Assim, funcionam determinados cérebros humanos, tal e qual os pombos:
Gerando apenas penas e merda! Ou, visto o caso, palavras e merda!
Os conceitos agregam a eles mais conceitos e preconceitos, tais como:
A guerra, A fome; A doença; A iniquidade; A desintegração; A desigualdade;
A perseguição; A reclusão; A indiferença;…
E, por muitos, ficam estes por mau exemplo.
Na verdade, o Homem, por sua total conveniência “Criou” ou “Inventou”,
Também, Deus e o Diabo.
A criatura tem génio! Cria! Inventa! Implementa!
Logo, enquanto filho privilegiado do Universo,
Alardeou-se de “Ser Inteligente” de “Ser Humano” e,
Apossou-se do aquém e além Universo,
Apelidando-se a si próprio de Universal.
Apre! Chega e basta!
O Sátiro, ou outro engenho da sua arte geradora, que o carregue.
tÓ mAnÉ Style
Palavras sussurradas
Sussurro, quentes, palavras
Coladas ao teu ouvido
Palavras de ocasião
Cálidas na paixão.
Oiço, na resposta, o rubor
Que as palavras provocam
Vejo, na satisfação, o brilho
Das, apenas, palavras
Que o coração amolecem.
E, sílaba, a sílaba
Conjugo, sibilando, da sedução os verbos
Em todos os seus tempos.
Vergando-te a vontade
Abrindo-te dos lábios o sim
Que, meloso, franqueia a porta ao desejo
Encerrando, timidamente, a fortaleza do não.
Quebra-se, finalmente, a muralha,
Um espaço fictício, imaterial,
Reflexo de um conceito surreal
O grande e temível Deus
O Deus do Bem e do Mal.
tÓ mAnÉ Style
Apupos
Rolam, lentos, os automóveis da comitiva,
Pretos, topo de gama.
Imobilizam-se!
Abrem-se e abrem portas.
Delas, imponentes, saem, primeiro:
Seguranças e motoristas
Para só depois, verificado o perímetro,
Os ilustres assomarem,
Ostentando seus cínicos sorrisos
Que banham seus fatos escuros
Ornados de gravatas berrantes;
Línguas que vomitam, mentiras
(inverdades muito agora na gíria)
Que os escuros fatos ocultam.
Cáusticos, brilhantes e negros, os sapatos,
Cospem promessas vazias, falsas,
A cada passo e passo a passo.
Imaculadas, as camisas, no seu preceito,
Cobrem-lhes as verdades, bem escondidas,
Atrás dos seus insidiosos peitos.
Tudo é farsa!
Contudo tudo emana respeito!
E, ainda assim, e a cada momento que passa
O povo, que espera, grita, assobia, pateia.
Aproximam-se!
A segurança aperta, contudo estreia o espaço
Alguém escarra no chão o desagrado,
Invocando, também, o vernáculo palavreado.
O alarido aumenta, num crescente contínuo incontido.
Temo pela miúda.
Pois este vómito, incessante, e peçonhento
Há muito ninguém tolera
Há muito ninguém aguenta.
Agarro-lhe a mão fortemente
Puxo-a com dificuldade da multidão tumultuosa
Que se comprime, que se agiganta
Na fúria, no asco e no temor.
Fúria das “inverdades”
Asco das imprecisões
Temor das indecisões.
Desta mole massiva, mutante, ululante e enfurecida
A menina, desesperadamente, procuro libertar
Puxo, estrebucho e esbracejo,
Mas não tem o como nem como,
Ergo-a aos ombros!
O alarido, agora ensurdecedor, cresce desmesuradamente.
Oiço um estampido seco e surdo, retumbando no ar
Seguido de um silêncio amargo e plúmbeo.
Para logo, nas minhas costas, a multidão, inquieta, ressoar,
De tal forma que, por momentos, céu e terra se fracturaram,
Num só medo, num só pavor, num só pânico.
E, o risco ténue, entre a paz e a guerra, dissipou-se num nada.
Nada este que confundiu Deus, Diabo e o Homem,
E, por um momento, Terra e Céu eclipsaram-se.
Dezassete de Agosto, dezassete horas, dezassete minutos, dezassete segundos,
Do ano da graça de dois mil e dezassete, o mundo fundiu, o mundo parou… Silenciou!...
Tão longe de mim, não fosse tão perto,
Um sussurro, ininterrupto, ouvi: Pai, pai… que barulhos foram estes?...
Foram apupos, foram apupos minha filha, respondi.
Silêncio… Acatou. Na sua inocência acreditou!
Inapropriadamente o bem julguei fazer.
Mas, de sus, ouvi, histérica de indignação, a voz surda do meu “eu”,
Troar na cabeça: Trajaste-te de fato, camisa, gravata e sapatos?!...
Envergonhado, encarei a gaiata, forcei o destino e,
De olhos pregados no chão, baixinho, muito baixinho
Deixei que a verdade soprasse de mim, dura contudo livre…
É a guerra, é a guerra… minha querida filha é a guerra que vem aí.
Pai! Porque mentiste?...
Silêncio, novamente o silêncio,
(tão pesado quanto o remorso da falta)
Entre nós e o mundo em convulsão,
Só nós e o silêncio, residiram.
Porque te amo filha minha, porque te amo!...
Não voltará a acontecer.
tÓ mAnÉ Style
Crónicas FDS da Laura - Registo XIX
Erguer e despachar vite vite foi o lema desta manhã de sábado.
Soprava, abafado, de sueste o vento. Vento levante, como frequentemente o povo lhe chama, tal como, o mesmo povo, também diz que de Espanha nem bom vento nem bom casamento. E, quando sopra de levante, o vento, o meu pai não condescende. Pesca e Ilha de Tavira são as pérolas dos seus olhos, as meninas das suas vistas, é como que uma paixão celeste, uma ordem de Deus, um desprendimento geral provocado pelo calor intenso e abafado, quase sufocante que o insufla deste desejo insano, deixando-o prenhe de um desconcerto abissal. Fica impermeável a palavras e actos, a tudo e todos, apenas luzem fulgurantemente os dois buracos da alma todo o resto é infernalmente maquinal parece regido pela robótica e por aqueles dois faróis, intensos, virados ao mundo. Não há termos para discussão ou negociação, sua mente entrou em falência plena de democracia e, nestes três ou quatro dias, graças a Deus e não aos espanhóis ou magrebinos, quem manda em nostra casa, indiscutivelmente, é o pai. Como ele afirma, com ou sem graça: São os dias da minha democracia pois, quem manda sou eu!
Nesses dias a monotonia instala-se e os trajectos são sempre os mesmos: A ida: Vale da Rosa – Patacão - Tavira- Quatro Águas - Ilha de Tavira. No cais a família fissura, eu e a mãe vamos direitinhas para a praia do cais, a sul, na praia do mar, este revolto e bravio atira-se como um cão raivoso a quem quer que lhe faça face, a bandeira está vermelha e, na água ou melhor nas ondas, só os surfistas e os “muribuggers” ou patos como vulgo são designados, se atrevem e com a devida autorização pois, o perigo espreita a cada lambidela de onda. O meu pai segue para o lado oposto do cais, para nascente, dando-nos as costas depois de nos beijar e aconselhar cuidado. Ainda lhe gritamos boa pesca e cuidado com o mar mas, acho que já não nos ouve pois, nem se volta para trás. Vai, como que hipnotizado pelo grande mago Levante, de mochila às costas, canas de pesca e xalavar ao ombro, e dependurado na mão direita o balde. Segue directamente para a testa do molhe de estibordo, aquele do farol vermelho, que separa a praia da boca da barra. Segue para a sua pesca.
Não vos vou cansar com a descrição exaustiva dos meus mergulhos e peripécias de praia. Apenas, e por ser merecedor de registo, vos vou dar um lamiré de como a água estava quentinha, óptima mesmo, e do calor que fazia, um calor digno de qualquer inferno, seja ele onde for.
Na minha boa fé, pois ainda sou criança, pensei que ainda teria oportunidade de dizer adeus até que agente se veja ao meu tio padrinho Miguel e à tia Bleca, porém, quando cheguei já eles tinham deixado o adeus à Ilha para trás e rumado à sua casinha, lá na linha, a poente da capital das sete colinas. Foi por uma questão de minutos ou meias hora, quiçá, que o encontro se desencontrou, o que me deixou muito triste… por minutos também.
Contrariamente ao meu pai que comeu uma bucha constituída pelo produto interno da celebérrima lata de conserva de atum em posta e em azeite, pois não quer em óleo vegetal, dividida por dois pães de água, incluindo o azeite que, no acto da dentada, solenemente deixa que lhe escorra pelo queixo e limpa na parte inferior da Tshirt e, não vale a pena chamar-lhe à atenção pela falta de asseio da atitude pois ele logo retruca: Estou na pesca, não estou num hotel cinco estrelas ou menos! Nós, as meninas lindas, fomos almoçar ao restaurante, e para não quebrar o feitiço, voltámos ao Pavilhão da Ilha. Comemos moderadamente, não que estivéssemos tristes pela refeição simplória do pai mas sim para que a digestão fosse leve pois o calor e a água tipo”sopa” esperavam-nos. Assim, uma qualquer sopinha de vegetais e uns bifezinhos de peru grelhados, a dividir por duas marmanjas, fizeram a vaza.
Tenho uma surpresa para vos contar. Adivinhem quem apareceu, já no final da parca refeição, no restaurante?... Vá lá um esforcinho mais… puxem lá por essas tolinhas… conseguiram?... Pelas vossas carinhas já vi que não. Vou-vos revelar então o mistério, tararammmmm… O Martim Cabaço e os seus papás!
Ora, esta agradável, ocasional e surpreendente ocorrência, teve que culminar em brincadeira. É que nem poderia deixar de ser. Se não, incorreríamos em sacrilégio. Enquanto trocava umas breves e circunstanciais palavras com os pais do Martim, a mamã, pediu e pagou a conta. Assim, leve de bolso, depois de pagar o leve repasto, encaminhámo-nos todos para o parque defronte ao parque de campismo onde, claro está, iniciámos, ao de leve, o leve processo digestivo, pois ainda que leve tivesse sido o repasto, convinha guardar as devidas precauções.
Findou a brincadeira e com ela a digestão. Juntámos a trupe e, pelo passadiço de betão, dirigimo-nos em direcção à praia do mar. Na segunda bifurcação do passadiço as famílias separaram-se, nós para poente eles para nascente, conforme as predilecções e necessidades de cada uma; as famílias são mesmo assim, senão não o eram, famílias. Depois dos goodbyes até mais ver, cada agregado seguiu o seu caminho. Nós fomos para junto do molhe onde o meu pai estava à pesca – estávamos mesmo achegar e, acto contínuo, até pareceu propositado, ele estava a pescar um belo dum peixe – e o Martim e os pais, ficaram mesmo em frente do passadiço de madeira.
Assentámos os arraiais e fomos de imediato ver o meu pai e mais importante, de momento, a pescaria, é bem certo, para que se diga a verdade ou não se falte à mentira. Ó pá! A coisa estava a correr bem, o balde estava cheio de peixe e, mediante semelhante aparato quase, digo quase entenda-se, delirei e extasiei ao ver tantos, variados e grandes peixes. Decidi ali e logo que queria ser pescadora!
Não foi muito o tempo que estivemos sobre o paredão da barra. O meu pai correu-nos à má fila, e com razão, dizendo: Isto aqui está muito perigoso. Está muito mar, não tarda as ondas estão a lamber o cimento que reveste o paredão. De facto ele estava pleno de razão. Ainda não tínhamos posto o pé na areia da praia e já uma onda varria o chão de cimento do molhe. Haviam de ver como o mar estava bravo e bruto, contudo muito bonito, e como cheirava a maresia, hummmmm…
Ah! Mais uma coisa que quase me esquecia. O pai caiu e fez um dói-dói na nádega direita ou no pouco que lhe resta de glúteo. Eu aconselhei-o a ter mais cuidado, não acham que fiz bem?...
Na praia, já com um pezinho na areia macia e quente, deram-me os ardores e a ideia, irreprimível e irresistível, de uma banhoca assaltou-me avassaladoramente, não tinha como a afrentar, as minhas armas eram demasiado ligeiras e de curto alcance para fazerem face ao apelo da água do mar tipo “caldo” e ao calor abrasador que se fazia sentir. Vencida e rendida às evidências e à minha insistência a minha mãe acedeu na condição da banhoca se realizar na babuja das ondas e sob apertada vigilância que para mim soube a apertada e pegajosa vigilância tão curta era a rédea concedida aos meus rebolanços e tentativas de mergulhos. Assim estive até começar a bater castanholas com os dentes. Aí a minha mãe pôs termo à aventura com um simples mas autoritário: Laura Solange já chega.
Mesmo ao cair do pano e numa operação rotineira, todavia impulsiva; a lavagem do meu baldinho de fazer castelos na areia, a mãe, incauta, deixou encharcar as nossas farpelinhas e bugigangas de praia. Uma onda mais atrevida resolveu extravasar os limites, alambazar-se no comprimento de expansão e, zás-catrapaz, aliviou os seus maus féis sobre o local onde serenos jaziam, semi arrumados, os nossos haveres; menos-mal que eu já tinha envergado a minha Tshirt ou, como queiram, a tee shirt – obras do acaso e dos imprevistos.
Resolvidas as imprevisibilidades e eis que aparece o meu pai, nem combinado, sorridente da silva, de túrgia de pesca às costas e, mais importante ainda, o peixinho todo amanhado como é seu apanágio. Nem parou. Limitou-se a um aceno de cabeça de “está no ir” e, sem termo para desobediência, botámos os pés ao caminho. Durante este fizemos, de vez em quando, umas paragens técnicas para alívio das costas do papá que como ele vai frisando “já não tenho, nem idade, nem costas, nem força para isto”, sendo que a última foi por minha imposição e exigência. Apeteceu-me desmedidamente comer um gelado, só que isto dos apetites fulgurantes e os gelados tem mais que se lhe diga, às vezes tornam-se voláteis, uma vez que o requisito de escolha não coincide com o sonho da vontade ou a vontade sonhada. Daí o ter que limitar o sabor pretendido ao stock disponível ao momento da vontade e, o que começa num gosto, num ápice passa a desgosto, chocolate não seria a minha primeira escolha bagth… mas era o que estava disponível. Chocolate?! Pois que seja… e hallelujah, poderia não haver nenhum depois daquele, que ainda o é, dia infernal.
O meu pai vinha carregado que nem um jerico; quem é que o mandou pescar tantos peixes e grandes, e já não tinha paciência para tanta paragem nem tão pouco exigências requintadas. Não vejo a hora de chegar ao cais e o gafanhoto, que era eu, ainda saltando sabor acima sabor abaixo, dizia o meu pai meio para o alterado para a minha mãe.
A volta: Ilha de Tavira - Quatro Águas - Tavira - Vale da Rosa. Quando chegámos ao cais estava uma fila, uma bicha – é assim que o meu pai diz – enorme, porém a espera não foi muita, o trajecto é curto e andam dois barcos água acima água abaixo, independe da maré depende apenas do barco que cumpre o trajecto. Atraca um, zarpa outro e assim sucessivamente numa sucessão sucessiva de atracagens e zarpadas. E, assim, logo embarcámos e desembarcámos, no meio de um mar de gente e de uma panóplia interminável e indescritível de bagunças consumíveis e não consumíveis, provenientes de uma ilha.
Chegada à carrinha, alterei os meus apetites fisiológicos. Apeteceu-me fazer um xixi de cadeirinha, aquele que, neste caso a minha mãe – poderia ter sido o meu pai - depois de me retirar o fato-de-banho, nos segura pela dobra das pernas e tchhhhh… cá vai disto e, uma cascata, uma estradinha, sinuosa, de xixi escorrendo pela ladeirinha… é tão giro!
No caminho para casa abri um parêntesis na realidade e coloquei-me do lado de dentro… foi uma soneca e peras. Retemperante. Cumpri a viagem a de fio a pavio sem descolar do mundo da fantasia, foi como um holograma de mim viajando dentro de um eu presente, contudo ausente da dimensão vívida.
Claro que tive que cair no mundo, tal como uma mosca cai no prato da sopa, inconveniente mas inevitável, o jantar estava quase pronto e a hora do banho era já! Jantámos, como não poderia deixar de ser, peixinho grelhado no carvão só para desobedecer aos gajos da A.S.A.E., como diz o meu pai desatando às gargalhadas.
Graças ao meu anterior estado de imortalidade irreal retemperante, ainda tive coragem para ver um “chochezito” dos meus incontornáveis bonecos. Todavia estava mesmo rotinha do estrafego do dia e, sem mais delongas, enfiei o trombil na cama e… Óooooo…
Não quero finalizar o dia sem fazer uma pequena ressalva, um retorno no tempo, um voltar ao passado. Assim, façamos um flash back até à praia do mar, até à altura que eu questionei a minha mãe sobre um assunto que já à algum tempo me andava a atormentar as ideias.
- Mãe, quem é a mãe do mano Pedro? E quem é o pai?
- A mãe do teu irmão chama-se Beldora Segundo e o pai, filha, é o teu papá.
Quanto à mãe fiquei esclarecida, apesar de não conhecer a senhora mas… que o pai do mano seja o meu papá é que fez com que a porca torcesse o rabo ou o mesmo é dizer: revoltou-me o miolinho todo. Fiquei baralhada…
Como é que pode ser, como é que é possível que o meu paizinho querido seja também o pai do mano?... Bem, acho que são coisas de adultos e acho também que as vou deixar para outras núpcias. Assunto morto, assunto enterrado.
O dia do Senhor teria sido muito atípico não fora: O acaso da minha prima Sofia, a tia Rosário, o primo André e as avós Aurita e Ilda terem dado uma de aparição inesperada e espontânea, por convite expresso, para o almoço, que, inesperadamente, consistiu numa valente assada de peixe, apanhado pelo meu pai na véspera, acompanhado por sopas de água ou gaspacho à algarvia. E o acaso da queda do vento levante que reteve o meu pai em casa, caso contrário: Eu quero ir para a ilha.
Pela manhã é que canta o galo, assim o povo o diz, neste caso outro galo ou melhor outra galinha cantou, mas foi a meio da manhã. A minha mãe mandou, quer dizer, ordenou, na sua voz de general sem estrelas, ao meu pai que fosse ao Continente fazer compras de última hora para um almoço combinado em cima da hora. O que, estranhamente, ele acatou de bom feitio e sem resmungar nem resfolegar, assim numa de “é só pedires que aqui se satisfazem todos os teus desejos”.
Demorou que demorou e quando por fim chegou, cerca da 1:00 p.m., trazia naquela carinha laroca um sorriso de “manhoso satisfeito” e dependurados nas mãos meia dúzia, bem contada, de sacos bem recheados; não sei por que caminhos enviesados e azinhagas andou, mas que chegou contentinho e tarde chegou.
E, assim, aos poucos e atrasados, foram chegando os comensais. Após o meu pai chegar, foi a vez da minha tia Rosário, a prima Sofia e a avó Aurita terem arribado – as mulheres são como as rolas, andam sempre aos bandos.
Estava eu a ver os meus bonecos muito descansada quando a minha mãe aparece, disparada, sala adentro, remordendo entre dentes. Olhou para mim com um olhar vazio de quem não sabe bem o que quer ou procura. Fixou o olhar no telefone fixo mas que é móvel e, ainda remordendo, um a um foi introduzindo os números desejados, soprando entre dentes: Que a avó Ilda é uma “deslembrada”, sabe que preciso de ajuda e ainda não apareceu, bolas que até parece que não sabe das horas.
- Está… Dona Ilda, onde é que você anda? Não sabe que eu preciso de ajuda?...
- …
Vá lá, venha para cá, estão as sopas de água para fazer. Você não vê as horas?...
- …
E, tal como ligou assim cortou a ligação à máquina infernal. Deu-me as costas e saiu sem me ligar corneta. O que será que avó disse, cogitei... Deixei os meus bonequinhos e segui na sua peugada. É que, para além de estar curiosa para saber da avó, ainda estava com uma larica daquelas e interessava-me saber se o almoço estava atrasado. E, foi deste modo, que descobri que a mamã estava derredor do barbecue na tentativa, acho que bem sucedida, de o acender. Fiquei basbaque pois era coisa nunca vista nesta casa; assar peixe no artefacto pirotécnico. Pelos vistos o evento era importante ou ia haver festa grossa. Só assim se justificava a inauguração daquilo que até ao momento não passava de um mono apanhador de lixo.
Emmeios o meu pai seleccionava, escalava e salgava o peixe que iria ser objecto de submissão ao carvão incandescente e à subsequente degustação e deglutição.
Valeu a pena a espera, pois foi uma almoçarada e uma festança à antiga portuguesa. Uáuuuuu…
Depois de almoço, e cumprindo uma boa parte da tarde e para gáudio de todos, cada um fez o que lhe aprouve ou melhor dizendo o que na real gana lhe deu ou mesmo na veneta de cada qual, excepto na minha que, de uma maneira ou de outra, alguém está sempre de olho em mim condicionando-me a liberdade total. Não que eu pretenda a licenciosidade mas um pouco menos de trela era bem vinda.
Assim, e sem seguir uma linha ordeira de pensamento, começo pela minha priminha, o meu priminho, a minha tiazinha e “euînha” que estivemos entretidos, numa promiscuidade de roça roça e do esfrega esfrega dedos, com o novo brinquedo da mãe, o “Tablet”, que o meu pai lhe ofereceu, acho que para ver se se livra da lufa-lufa do Tó “prá qui” e Tó “pra li”, pelo aniversário – quadragésimo sexto (digo isto assim para que não se assemelhe a um número e não deixe de ser um pseudo eufemismo). Ela, a Sra. minha mãe, não que quer eu bufe isto, portanto shuiiiii… O meu pai foi descansar, se não me falha a minha tenra memória, parece-me tê-lo ouvido dizer que passou mal a noite e o resto da trupe, que se resumiu à avó Aurita e a mãe, pois a avó Ilda que deu “às de Vila Diogo” para a sua casinha, com o escopo de em pleno, sem interrupções nem atropelões, se dedicar à sua folga de sempre (não pode passar sem… ai tenho um “carregum” na minha cabeça, diz ela, quando não…), dedicou-se a variadas, por muitas, tarefas domésticas.
Ao cair da tarde… aiiiii uiaaaaa… este é o grito supremo da tarde a cair, a minha mãe decidiu encher a minha piscina de bolas, insuflável, de água quente que o sol aqueceu, e bem, no interior da mangueira e, aí começou o estardalhaço. Prima dentro e eu fora, eu dentro e prima fora, ambas dentro, ambas fora, a água a já mais fora do que dentro e, assim uma hora e tal passou quase num ingente minuto irreal. Enregeladas, fomos compungidas a mudar de pego e da piscina, fria, na rua passámos para o jacúzi, quente, em casa, para um exuberante, fantástico e aconchegante banho de espuma, com reportagem quer fotográfica quer vídeo documental. Vou adicionar a reportagem fotográfica para melhor ilustrar as palavras pois estas não chegam para descrever as nossas aventuras.
No interlúdio piscina - jacuzzi – posso escrever de duas maneiras mas apenas se pronuncia de uma, não é giro?... – chegou o tio Mário, sabe Deus de onde, mas não se juntou à pandilha, foi directamente para a sala, onde estava o meu pai – levantou-se da cama e deitou-se no sofá para descansar da folga. Isto é que é qualidade de vida! – e ali ficaram, os marmanjos , a ver os “futebóis”.
E, assim, neste escarcéu monumental para não dizer descomunal, se foi deixando cair, aos tropeções, a cortina ao dia e erguendo, aos solavancos, o véu da noite e, quando no céu já algumas estrelas tremeluziam, tocou a sineta para a “lambeta”. E, por que sou umas mãos largas, vou-vos dar um cheirinho da ementa: Franguinho, da nossa colheita, em molho de tomate, executado de forma magistral pela avó Aurita. Peixe “à moda do meu pai” que é óptimo – uma espécie de caldeirada sem tomate e feito em cru, isto é, sem estrugido (refogado, aqui à moda da parvónia); o meu tio é alérgico a tudo o que tem pena, incluindo espanador. A avó Ilda cozinhou uns belos duns caracolitos que a outra avó, a Aurita, tinha trazido já limpinhos e lavadinhos.
Iniciámos o repasto pelos caracóis com pão torrado com manteiga e, só depois vieram, em simultâneo, para a mesa o frango e o peixe. Aí, cada qual safou-se como pode ou lhe apeteceu, excepto a avó Ilda, que de “embirrão”, não quis jantar connosco – ela e a avó Aurita fazem faísca e até curto-circuito no tocante aos cozinhados, é caso para se dizer: Parecem duas crianças.
Neste embrulho foi um ai até que o jantar tocasse à porta. Tempo quente. Vento ausente. Jantar na rua à luz das estrelas e outras, claro! Tinha-mos que ver algo por pouco que fosse. Quer o jantar, quer a noite, quer o ambience da envolvente, estavam mágicos, fantásticos, o que fez as delícias dos mais reticentes e dos mais exigentes. Foi de arromba!
Aos poucos a turba foi dando à sola, não sem antes dar o seu patrocínio à arrumação global. Até que chegou o momento do “só nós”, da solidão a três partilhada e, com ele a fase de reflexão, curta, do ante Vale de Lençóis.
Alguém um dia falou assim: “Um sorriso enriquece quem o recebe, sem empobrecer quem o oferece” e, um outro alguém, mencionou: “ Um minuto de tristeza, são 60 segundos de alegria perdida…”, e foi com um sorriso estampado nos rostos que desejámos boa noite a cada um de nós e a cada um dos outros. E, sorrindo ainda, desejo-vos uma boa noite a todos.
Agora um pouco de surf fora da onda…
Como é do conhecimento geral, este fim-de-semana foi palco de um evento que já vem fazendo parte das celebrações festivas do nosso amado concelho: O Festival Med ou o Festival do Fumo como algumas más-línguas já o vêm a apelidar. Gostaria imenso de vos poder fazer um relato da efeméride mas infelizmente, mas que chatice, pode ser que para o ano e já mais entradota na idade, não posso. Não fui lá!... Todavia, e face à reprogramação temporal do referido festival, posso-vos dar um cheirinho, excepto dos concertos, de ante Med, ou seja, da quinta-feira à noite, incorrendo em falta no contexto destes FDSs. Ora então vamo-nos a ele, ao cheirinho.
Na quinta-feira à noite fui jantar ao restaurante “O Pescador”, acompanhada dos meus pais e de uns primos distantes e digo distantes por dois motivos: O geracional e o geográfico, pois ambos são afastados (primeiro porque o grau de parentesco anda no quarto grau, segundo porque vivem no Brasil). Passo às apresentações: O Manolito, como é conhecido, a Cristina, sua mulher e o Vítor, filho de ambos. São todos muito simpáticos e afáveis. Gostei deles! O jantar foi muito animado e, para meu contentamento adicional, teve lugar na esplanada, a noite estava magnifica, para satisfação minha, pois pude andar de perna solta por ali a cabriolar.
O Manolito fez questão em pagar o jantar e ainda nos ofereceram uma prendinha a cada um de nós. No final do jantar fomos para o interior do Mercado Municipal onde ia ocorrer a apresentação, seguida de actuação, do rancho folclórico de São Sebastião, bem como, um concerto dado pela Banda Filarmónica “Os Artistas de Minerva”. O ambiente estava pesado, o calor era muito, as cadeiras não tinham grande qualidade, o pessoal tinha jantado e estavam pesados e as cadeiras cederam nas pernas e rabo no chão com grande aparato seguido de uma galhofa geral imensa, nem sei porquê alguém poder-se-ia aleijar…
Findas as actuações, seguimos rumo à zona histórica e suas ruas e travessas onde estavam, desde já, montadas as “barraquinhas” dos vendedores ambulantes e as portas abertas dos bares e restaurantes improvisados para o evento. Pelo que vi o Festival Med 2013 vai ser pleno de música, cores e sabores. Achei o máximo.
Os primos seguiam viagem para Lisboa no dia seguinte logo pela madrugada, pelo que demos por encerrado o passeio com o giro pelo hiper cromático centro histórico.
Na sexta-feira, após o jantar, ainda nos atrevemos a dar um saltito até Loulé para matar a curiosidade e dar um rabo de olho às modas pois o adiantado da hora não se compadecia com uma entrada no Med; €12.50 (doze euros e meio) pax era muito pilim para eu ir exercer o meu direito ao sono…
Ainda assim diverti-me imenso. Poderei mesmo dizer, sem faltar à verdade, que enchi a pancinha de brincar com a Catarina. Quem é a Catarina? Bem, a Catarina é uma menina, levada da breca de travessa, que eu conheci nos bancos novos em frente à Câmara Municipal. Ela era totalmente atrevidota o que dizia tudo comigo, fizemos imediatamente pendant em francês e pandã em português.
Bom, acho que já estou a abusar da vossa caganita, por isso vou fechar a enciclopédia deste FDS. Tchau, boa noite e beijinhos muito docinhos.
A “estramela” tagarela.
Reportagem fotográfica:
A piscina, a prima, o Goya e eu… “começou a loucura…”
Continuação da loucura…
O jacúzi, eu e a prima… banho de espuma com máscara desta…
e a loucura continuou…
Eu, a pose e o início do descanso…
tÓ mAnÉ (in Laura Solange dixit) - 2013.06.(29,30)
Crónicas FDS da Laura - Registo XVIII
Vou iniciar o relato do meu FDS, por achar de facto relevante e atípico, pelo fim de tarde de sexta-feira e, claro é, tem um propósito e um porquê do propósito. Então qual vem a ser o porquê do propósito, perguntam, e bem, vocês?
Pois bem, aqui vai do mistério ao desvendar: Porque fomos jantar fora, a Quarteira, à Pizzaria Mamamia. O que também tem porquê e é ele: A mamã não fez jantar porque planeou ir passar o fim-de-semana a casa da avó Aurita em Quarteira, pois claro. Acontece que ficou por aí, pelo planear, pois a intenção “borregou” falando em termos aeronáuticos.
O jantar, na sua substância, contou de sopa de legumes, pão de alho e pizza, na modalidade, quatro estações, acompanho por umas imperiais, ice tea e uns descafeinados para rematar as hostilidades… Et voilá!...
Jantar mamado e fomos dar uma voltinha higiénica pelo calçadão; foi óptimo. O papá estava bem disposto e entre piruetas e bilharetas foi espectáculo. Divertimo-nos e brincámos montes.
Neste cortejo quase que alegórico, decidimos dar uma saltadela a casa da avó Aurita, já que, tão perto, ali estávamos aproveitámos o ensejo para prestar uma visita surpresa ao mano Pedro que está lá asilado, ele e mais meia dúzia de mânfios. Agora, o gajinho, é nadador salvador na praia do Cavalo Preto, ele é bem claro e mais a meia dúzia de gandulos. O Sr. Pedro e a sua trupe não estava em casa mas a casa estava uma autêntica pocilga. Após uma verificação cuidada dos danos, quer no capítulo da higiene quer noutros de índole mais material, a conclusão ficou dois graus acima de cão e três abaixo de polícia. Pois é caros ouvintes a visita não teve nada de inocente mas sim tudo de propositado, tendo como escopo a verificação in situ do controlo descontrolado e o rumo desarrumado das coisas.
Finda a visita, com pontuação abaixo de zero em termos apreciativos, o azimute foi o Sítio de Vale da Rosa, certinho direitinho, como diria o Camilo de Oliveira. O resto? Bem o resto deixo ao vosso critério e imaginação… Exactamente, acertaram na muge, boa!...
E, desta forma espantosa, eis-nos chegados às 07:30 a.m. do dia que vem imediatamente a seguir a sexta-feira, o fantástico sábado, ele que é o primeiro dia a sério do fim-de-semana e, há que aproveitá-lo ao máximo. Assim sendo, e aproveitando a segunda metade da máxima “deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer”, apesar do meu pai, com quem dormi hoje, não estar muito de acordo com ela pois, para ele seria mais assim: Deitar tarde e tarde erguer e à hora que lhe apetecer, pois diz ele que crescer já não cresce, ainda que para a frente e para os lados, e que a saúde já não é lá muito famosa, mais vale rebolar o lombo na cama e fazer preguiça à bruta. Todavia eu, quando quero, sei ser muito persuasiva e assim que acordei tratei de fazer-lhe o mesmo, a ele e à minha mãe que foi dormir para a minha caminha querida. Era o que mais faltava ficarem ali a sovar o lombo na cama enquanto eu queria era brincadeira e passeio. E, assim, a tom de repique de Laura e não de sinos a procissão de sábado teve o seu início. Vou deixar aqui uma ressalva, por hoje ter sido excepção, que é a seguinte: Só o meu paizinho querido é que goza da regalia e do privilégio, benesse minha, claro!... de ficar repimpado na cama após a libertação, portentosa, do meu grito de “alvorada”.
Enquanto via a minha bonecada a minha mãe aproveitou para pintar as unhas todas que tem, com um verniz da moda de cor esquisitóide ao qual ainda juntou uns pozinhos prilim-pim-pim dourados. Sabem? Quem não tem nada para fazer ou nada lhe apetece fazer, sacode as moscas com as orelhas, não sendo estas as palavras de Camilo José Cela, servem muito bem para relatar o evento e desmistificar o discurso.
Enquanto isto se desenrolava no palco principal, ali ao lado no palco secundário, o meu pai já ia numa de contar carneirinhos. Ai ele é isso! Espera aí que eu já te amolo…
E, assim, fizemos um pacto de gajas e deixámos o sornador na cama contando lá o que lhe apetecesse e num “vaipe”, quase irracional, decidimos ir para Loulé, beber o cafezinho matinal e fazer as compras semanais.
Partida, largada, fugida e aqui vamos nós, as gajas, sem via verde activa, directas para Loulé City. Estacionar. Beber o cafezinho da praxe. E Dona Ana shop, num shoping cheio de speed. Seguidamente fomos dar uma de “na boa vão elas”, apesar de não abandonar-mos as cercanias a passeata foi bem fixe. Senão, topem só: Fomos visitar a escola da prima Sofia Miguel que, se Deus assim o quiser, vai também ser a minha escola dos grandes grandes e, aproveitando a deixa, e por ser ali bem perto, demos um saltito à minha velha escolinha, a escolinha da Mónica. Na verdade senti um ratinho de saudade, contudo gosto mais da escolinha da Telma e da Lena, é outro aconchego, percebem?...
Cansadas de laurear a pevide e o queijo voltámos para casa. Quando chegámos tivemos logo uma surpresa. Imaginem que quando a minha mãe chamou pelo meu pai para ajudar com o transporte das compras a resposta que obteve foi um silêncio. Será que ainda está a dormir? Ó meu Deus do céu haja paciência, refilou a minha mãe, voltando à carga e a carga também o silêncio voltou. Onde se meteu o raio do homem? O carro está aqui, homessa onde estará metido? Quase gritou a minha mãe.
Depois de vasculhar, infrutiferamente, a casa toda e a zona do canil, espanto, dos espantos o meu pai havia abandonado os aposentos reais. Levantou âncora sabe Deus para onde. Ou seja, deu aos “calcantis” o “marau”.
Só muito mais tarde, por portas transversas ou travessas, sei lá eu… vim a saber que deu corda às botas e foi beber café ao Trincas e dar uma de leitura, mas isto pode lá ser?... Ai. ai, ai senhor pai, mau, mau Maria…
E, pior, como foi a pé para Loulé a mãe teve que ir buscá-lo, deixando-me em casa com a avó Ilda a almoçar; salsichas às rodelas com batatinhas fritas, feitas no novo brinquedo de cozinha da mamã, a Actifry, e sopa de cenoura com fiapos de ovo cozido. Na verdade eram mais que horas para uma menina decente como eu almoçar e, para mais, esta tarde temos um compromisso: A festinha de aniversário da Joana Virote, que vai ter lugar no Sítio de Vale Verde (shuiiiii… a casa dela tem uma piscina grande e, parece que logo a calhar, está um belo dia de sol… vai haver rega bofe pela certa!...).
O meu pai foi “agorinha” mesmo tratar dos cães, coisa quase nunca vista, contudo com um significado implícito muito específico: Vamos voltar muito tarde da festinha de aniversário da Joana. Sei que é assim porque o papá quando chega muito tarde a casa, desata logo a reclamar que ainda tem os cães para tratar.
Andavam para bater as 03:00 p.m. mas as quinze ainda não ressoavam no campanário, quando de armas e bagagens, abandonámos a residência Figueiras Baptista, o “ montinho da casa amarela” que de amarela nada tem pois está pintada de cor de tijolo ou brick para as almas mais requintadas, mas tinha e continua a ter a ruína que deu origem ao apodo, que também carinhosamente lhe chamo de “a nossa casinha”, com destino mais que traçado: Sítio de Vale Verde, casa da Joana.
Logo que cheguei ou melhor chegámos, porque não fui sozinha, comecei de imediato a entabular convivência com todas as meninas que por ali esvoaçavam semi livres como um bando de estorninhos que deambula pelos céus preso por um fio imaginário que lhes torna o movimento aleatório, todavia contido num espaço limitado pelo alcance do invisível fio. Não, não falei de meninos mas vou falar. Apenas um vagabundeava por entre este mar de fêmeas. Bolas tanta gajinha junta, isto é que vai ser uma concorrência no futuro próximo… Elas muitas, eles, poucos, ai, ai, ai…
Andei saltaricando por aqui, por ali e por acolá deixando o tempo passar e a digestão concluir, o tempo e a digestão são assim como primos afastados, apesar de aparentemente afastados estão dependentes e gostam muito um do outro, passa o tempo e a digestão vai ficando mais leve até o processo dar em vontade de comer. Já perceberam não é? Espertinhos! É que sem digestão feita não há banho na piscina. Mas, lá iremos, até porque ainda não acabei de digerir. Vamos falar um pouco da casa da Joana que, para além da piscina, ainda tem outros pólos de atracção que fascinam uma criança como eu. A casa da Joana tem: Um lindo jardim, com muitos pinheiros, lindas plantas e flores, um relvado imenso e espectacular, um rock garden, uma cascata com um lago que tem peixes e uma cobra de água e, vejam lá se não é o máximo, um insuflável, ou seja, tem tudo o que faz as delícias de uma menina bem comportada quanto eu.
Perambulando enganei o tempo e com ele a digestão e, piscina espera aí que aí vou eu… mãeeeee onde estão as braçadeiras cor-de-rosa?
- Aqui filha, aqui. Anda cá…
E, eu fui logo a correr. Desobediente num momento destes? Não, nunca!...
- Põe-mas mãe, põe-mas! Depressaaaaa… vá, vá,…
Com mais ou menos atrapalhação e no meio de um “quieta senão não vai ser fácil” e lá foram as braçadeiras, que previamente e adivinhando a afogadilho, a minha mãe tinha enchido de ar, para o seu devido lugar e começou o “fandolírio”, la fiesta, como diriam as herramientas do Manny Mãozinhas.
Gostava ainda de partilhar convosco uma coisita que me melindrou bastante assim que cheguei. Vejam só que até me fez chorar e tudo. Oh pá! Não é que quando cheguei me deparei com o seguinte: Em cima da mesa, soberbo e lindo, estava o bolo de aniversário da Joana, até aqui tudo bem mas, tinha logo que ser igualzinho ao do meu aniversário? Cores e tudo. Acham isto bem?... Pois eu não! E digo-vos mais, não gostei nada das atitudes quer da Joana que copiou o meu bolo, quer da Suzi que o concebeu exactamente igual ao meu. Na verdade quem teve a ideia original fui eu. Bolas haveriam de haver direitos de autor de ideias de bolos de aniversário. Acho que vou tratar desse assunto!
Bem, agora que já desopilei e desabafei, vamos ao que conta, ao importante, pois isto são coisas passageiras. Na festinha fiz uma amiga do coração, a Beatriz, ela é muito querida e docinha e nós sentimos logo uma empatia natural uma pela outra, é assim como um amor à primeira vista do ponto de vista da amizade, o que foi tão bom, uma vez que brincámos mais que muito, um verdadeiro pandemónio.
Todo este granel sob o olhar rapace, tipo “Essilor”, multiluminoso, da minha mãezinha. Estão a topar o esquema?... Pois, neste capítulo o processo observatório do meu paizinho foi muito reduzido, quase nulo atrevo-me a dizer. Preferiu passar o seu precioso tempo a comer e a beber, bem como, a dar à “estramela” ou “linguete” e na galhofa com os amigos e as amigas, do que a brincar comigo. Mas deixem que não espera pela demora. Aqui não por não apropriado mas em casa vai ouvi-las e das boas. Ora onde é que isto já se viu?... Acho que tem que começar a andar de trela como o Mister Goya, hummmmm.
E nesta loucura, neste vai e não vai, o tempo foi-se gastando e o final da tarde começou a fazer a sua aparição e com ele um senhor que, feito macaco, subiu a um pinheiro, com uma pinhata em forma de matrafona que lá dependurou bem amarradinha a um dos troncos. Depois dele descer, foi distribuído um pau de vassoura, um e um só para evitar percalços indesejáveis, e começou a cacetada e a paulada à matrafona, primeiramente mais timidamente mas, depois de vários incitamentos, do género: Dá-lhe com força ou força nisso, etc…, a violência dos baques aumentou até que rebentámos com a pança da matrafona e a chuva de guloseimas começou: Rebuçados, caramelos, sugos de fruta, chupa-chupas, etc e tal… Aí, nós, as crianças, iniciámos uma guerra feroz, sem quartel, para arrebanhar tudo o que pudéssemos daquilo que a matrafona vomitou. Até houve “berranço” e “choraminganço”, vejam só!...
Com o entardecer, para além do senhor da pinhata, também apareceram outros visitantes, estes, indesejáveis e esfaimados, eram às centenas para não dizer números maiores que desconheço, ainda. Chegaram para vencer, desprovidos de escrúpulos, os mosquitos e melgas atacaram massivamente toda a gente, ninguém logrou escapar, o que obrigou a malta a bater em retirada de bandeira branca erguida.
No momento exactamente antes do “obrigada estava tudo óptimo” e dos beijinhos da praxe, fui agraciada pela mãe da Joana, a Fatinha, com um presentinho que adorei: Uma Tshirt branca, com um estampado de fundo da Mia e dos seus amiguinhos Elfos. Daí até à carrinha foi um ápice e também num ápice o bzzzzz atacou. Bzzzzz…
Eu não acredito nisto o meu bzzzzz prolongou-se, em directa, até quase às 10:30 a.m., ou de outra forma, meia manhã desperdiçada no bzzzzz. E, assim, desta maneira inglória, desperdicei meia manhã de domingo, o que considero uma fatia demasiado grossa do meu bolo de domingo, usada única e exclusivamente no capricho do: dormir, sornar, “xonar” e por aí… não sendo por isso considerada como pechincha. Enfim…
Este percalço fortuito, graças a Deus, fez do restante do meu domingo um corrupio. Resumindo: Ele foi pequeno-almoço, um instantinho para a bonecada da ordem, vestir o fato de banho no “cem à hora clube”, após uma higiene matinal menorítica, o envergar de um vestido (vestido é uma daquelas coisas que antes de ser já o era tal como pescada) fresquinho para compor o ramalhete, o arrumar a tralha de praia e, lá fomos nós em tom de risota e numa de “na boa vão eles” para a Ilha de Tavira; O meu pai tem uma paixão assolapada pela formosa Ilha e, quando o meu tio padrinho Miguel lá está então nem dá para falar noutro destino, senão aqui D’el Rei, pois tudo é sacrílego.
Mal desembarquei ou melhor que pus o pé no cais do outro lado da ria, marchei a ritmo acelerado para a praia mesmo ali à direita do ancoradouro dos vaporettes e mesmo coladinha ao cais. Foi ali que montámos arraiais e demos o primeiro banho do dia com sabor a cloreto der sódio e outros tipos de iões positivos, negativos ou neutros quem afinal se quer importar com isso, nesta situação e, mais importante, na minha idade; Salvé Deus que inventaste a água salgada. E, bem-dito sejas nessa Tua magnificência.
Facto: Com estas manobras todas já passavam das 13:00 horas. Assim, e para não atrasarmos nem o padres nem a procissão, demos mais uns “mergulhaços” rapidinhos pois a água estava de partir ossos: Gelada, geladinha o que não foi impedimento de maior no que concerne a minha excelsa pessoa.
Tremuras colmatadas pelo rigor da acalmia vigente àquela hora do dia e pelo embrulho “atoscalhado” na toalha de praia e o posterior estiramento ao sol, começou, atabalhoadamente, a tarefa do “arruma o estojo” e do “toca a andar que se faz tarde”.
Arrastando o passo, penosamente, pelo passadiço de betão que irradiava um calor sufocante, e debaixo de um calor inclemente, cumpriu-se, a custo elevado, o espaço entre a praia do cais e o restaurante Pavilhão da Ilha, onde se iria processar o almoço e, onde trabalha o Filipe Cuco, amigo do meus pai das pescarias e outras cenas e aventuras carnavalescas de outros tempos que não o meu, graças a Deus!
Arrumadinhos, comme il faut, na mesa, cardápio decidido e de gargantas refrescadas; um par de imperiais e um meio litro de água fresquinha, aguardámos pacientemente, haja paciência nesta Ilha que Deus criou para desobedecer ao stress ou quebrar as leis do mesmo, pelos pratos escolhidos saírem da ditosa cozinha ou um similar a isso mesmo que para o caso se torna irrelevante e com que só se importa a A.S.A.E, pormenores, não acham?...
Eis que chega a minha sopinha de legumes e o sargo escalado, grelhado na brasa, acompanhado por uma espécie de batatas a murro e salada mista, não montanheira. Comi, vorazmente, a minha sopa que, digasse, estava deliciosa e ajudei os meus papás com a dura tarefa de rapinar o sargo até à espinha que, regado com uma sangria de vinho branco, finórios os meninos, e um ice tee de manga para o Je, não se revelou uma tarefa árdua. Sobremesa, ninguém quis. Assim, dois cafés e a conta deram conta do que restou do almoço.
Alfim, eu e a mãe ou a mãe e eu, seguimos caminho para a casa, arrendada, da tia Bleca e do tio padrinho Miguel, para um ratito de descanso e aguardar pela lenta digestão do repasto, isto sob o meu ponto de vista, está bem claro, não é?... Duas horas e meia… Valha-me o santo…
O meu pai não quis saber de descanso. Do restaurante meteu a primeira e todas as outras e fez uma directa à cabeça do molhe onde, alegadamente, o meu tio padrinho Miguel estaria a pescar – fala-se de pescar e o pai perde o trambelho.
Seguimos caminho disse eu mas… bem, mas temos que introduzir uma leve correcção ao seguimos pois não se processou bem assim ou pelo menos tão direitinho assim. Parámos. Óooooo aonde é que está a admiração? Não quis fugir ao rigor da verdade até que o rigor dela depende muito do ponto de vista de quem a chama a si, de quem dela se quer fazer dono e senhor. Sim! Parámos no parque em frente ao Parque de Campismo, onde dei umas escorregadelas no escorrega e algumas mais cabriolas inofensivas; ajuda no processo digestivo, e só depois, aí sim! Seguimos caminho para o destino final.
A tia Bleca estava ausente e, logo a brincadeira continuou. Porém, com a chegada da tia logo outro galo cantou – ela quando quer sabe ser severa e autoritária, nem precisa falar, um olhar basta. Logo, tive que sossegar e descansar.
Finda a hora do repouso, regressámos à praia do cais, na praia do mar as ondas estavam enormes; segundo a tia, onde tomei mais umas banhocas, quer de água quer de sol.
Distraídas e entretidas não demos pelo senhor tempo “o inclemente” passar. Foi preciso aparecerem os pescadores, o meu tio e o meu pai, acompanhados pela ordem de retirada para que caíssemos em nós.
Arrumar, barco, carrinha, casa e prontos… Zzzzzz (estava podre de cansada e nem sabia)…
tÓ mAnÉ (in Laura Solange dixit) - 2013.06.(22,23)
Embargo
Encheram-me, de tinto, a taça,
Quando o branco é sonho teu.
Ao palheto não lhe acho graça
Tão pouco ao carrascão.
Porém, Brut, gelado,
(tinto, rosé ou branco)
Do champagne, ao espumante,
Passando pelo cava também,
Todos, alegremente, marcham,
Nesta parada sem fim,
Onde, ao rosé, junto o suchi e o shashimi
E, a todos eles, sempre junto um pouco de ti.
No capítulo dos generosos e doces
Elejo o porto, o madeira e o moscatel
Não recusando contudo,
Toda a colheita de um late harvest.
E, assim, neste deguste, perdido
Ergo por ti o cálice meio cheio
E, a ti, o néctar dedico.
Todavia, ainda que almeje,
O néctar teu
Em paladar meu
É furtivo.
tÓ mAnÉ Style
Na gaveta
Quando, nua, sobre a cama, a contemplei
Voluptuosa, voluntariosa,
Insinuava-se!...
Olhei-a, lascivo, e,
Desnudei-me, também.
Dei-lhe as costas
Abri a gaveta da cómoda
E, de um canto, escondidas na vergonha,
Retirei a venda e as luvas de cetim, negro,
Como a recôndita escuridão,
Do profundo dos meus desejos
Que, há muito, adormecidos,
Aguardavam ocasião.
Entreguei-lhas e,
Submisso, entreguei-me,
Cedi-me, libertei-me! …
À sua mais oculta, mais perversa,
Imaginação.
tÓ mAnÉ Style
Emboscado de mim
Emboscado, aguardo
Quero surpreender a minha alma,
Sem préstimo, que deambula
Por um mundo sem espaço.
Neste embuste vívido
Que é o meu corpo gasto
Embosco-me de mim.
tÓ mAnÉ Style
Luna
Luna, lua tua,
De luar me banha
Canalha, de ti, assim,
Safado, o meu corpo,
Clama!...
E, a razão, aconselha-me…
E, a razão, implora-me…
Que,
Não escreva, assim,
Em chama!…
tÓ mAnÉ Style
Subitamente “Importantes somos todos nós!!!”
“Importantes somos todos nós!!!”, às vezes fico extasiado quando me deparo com uma frase, simplesmente, avisada e lúcida no meio de toda a panóplia de insanidade verbal que orbita, infestando e poluindo, o meu entorno. E, então, subitamente, perante tão claro e sútil uso do verbo, dou por mim especado, admirando, e embasbacado, pensando: Será que o comum “embelezador de paredes incautas” compreende melhor a realidade cósmica, irrefutável, e a nossa realidade mundana, inquestionável, do que toda uma comunidade política e/ou politizada à qual se junta uma súcia de “opinion makers” e “opinion leaders” de circunstancia, proveniência e de índole duvidosa?...
tÓ mAnÉ Editions
O meu mundo tem dois sóis
O meu mundo tem dois sóis…
Um que brilha esplendorosamente para os afortunados e outro que tremeluz, esbatidamente, para os esquecidos.
Um que não consente que a noite acenda os seus medos e outro que oculta os dias cintilantes enchendo-os de terrores múltiplos.
No meu mundo, que tem dois sóis, nada está correcto e harmónico.
Morrem os obesos e os famintos e os outros também.
Porque um sol, para realmente o ser, tem que ser fonte de vida. E, no meu mundo, assim o não é.
Todavia, no meu mundo, há um sol que cria, enquanto outro há que mata.
Há o sol da paz, da harmonia e da prosperidade e, em contraponto, há o sol da guerra, da miséria, da fome e da destruição.
Sóis diferentes para gentes diferentes: O sol dos ilustres e o sol das plebes.
Há o sol dos brancos e dos negros que é diferente do sol dos amarelos e dos vermelhos. Poderíamos misturar de outra forma as cores, pois esta foi aleatória, que os sóis não mudariam, ambos continuariam muito iguais a eles próprios.
Face a este problema incontornável e dualista e, como o mundo é meu, vou dar-me ao luxo de desenhar um sol, um sol que banhe todos de igual forma, mas que consinta o respeito pelas suas diferenças e pelas suas culturas.
Não sou Deus mas Este deu-me o aval de criar, o livre arbítrio de consciência e o dom da imaginação. Recorrendo a eles vou conceber um terceiro sol: O sol da igualdade, da justiça e da solidariedade.
Um sol mais abrangente quer no âmbito quer no conceito. Um sol raiz de todas as coisas. Um sol para todos e não só para alguns. Um sol piedoso e misericordioso. Um sol pleno de abundância e destituído de mínguas. Um sol que ri e chora quando a isso é compelido. Um sol mais humano quanto toca tudo e todos. Um sol que acarinha e alimente a diferença, donde floresce o fundamento do mais profundo saber. Um sol que admita a noite e a lua, como seus pares, não lhes restringindo quer direitos, quer deveres. Um sol que brilha intenso, mas que se sabe ocultar quando é necessário que chova. Um sol que deixe viver e morrer com a dignidade inerente ao ser e ao saber.
Em suma um verdadeiro sol. Regente e magnânimo para todos os seres vivos e matéria morta.
Nasce sol meu.
tÓ mAnÉ Editions
Completa(mente)
Completamente irritado! É assim que posso definir, de momento, o meu estado de ânima. Depois de ter passado uma noite atribulada e mal dormida, remoendo, remordendo, deglutindo e ruminando o maldito do sapo que, subtil e subrepticiamente, me foi enfiado, na véspera, pelas goelas abaixo, sob o título pomposo de elucidação.
Não vou aqui falar do sapo pois cada um tem os sapos que merece e quando os engole tem duas opções: Digeri-los e cagá-los ou vomitá-los na cara de quem nos impingiu tão viscosos animais.
A minha peleia é outra que, apesar de inglória e solitária, é uma peleia, uma luta, contra o inconformismo e em prol do intervencionismo quer cívico quer político.
Devo confessar que, a cada dia que passa, a minha solidão cresce. Cresce quando, pela manhã, vejo ou oiço as notícias, quer na televisão quer na rádio. Cresce quando chego ao local de trabalho e vejo o conformismo estampado na desilusão de cada um. Cresce quando à hora de almoço, no restaurante ou em casa, revejo as pseudo notícias no ecrã policromático ou da caixinha de fabricar ilusões. Cresce quando chego a casa, cansado, e mais “crescido” e sou malbaratado ou ignorado. E por fim cresce quando à noite tenho insónias ou noites mal dormidas; empanturrado de “ensapadas”.
Almoço só ou acompanhado pelas palavras que escrevo que, há muito, são as minhas amigas, mulheres e amantes. Enquanto confidencio os meus silêncios e as minhas mágoas ao meu velho, todavia sempre novo, bloco de bolso e a cada trago de tinto que furto ao fundo abaulado do copo, sempre meio cheio, que cúmplice, não se manifesta, não se queixa, nem reclama, entrega-se ao sacrifício de mim numa rendição incondicional.
A cada dia que nasce, renasço na esperança vã que as notícias da 08:00 horas me noticiem a mudança para que façam minguar este ímpeto solitário que em mim todos os dias renasce, cresce e me cava na alma, a covato, onde aos poucos vou, solitariamente, cultivando, salpicados, os cardos da minha insatisfação.
Não logro um sorriso faz muito tempo. De rir, abertamente, tão pouco me lembro e gargalhar… nem de chacota pois esta, por norma, é indecente.
Os sabujos da política e os políticos retiram ao meu âmago a alegria. Sugaram-me os conhecimentos, apropriaram-se deles enquanto conhecimento próprio, trajam-nos, na vã tentativa, de cobrir, de vestir a sua desnuda ignorância, fazendo, assim, da sua mediocridade uma forma inteligente de um não o ser. Usaram. Usurparam. Fizeram seu o que era meu. Venderam-me, como se escravo fosse. Privaram-me do privilégio do ser meu em prol do ser seu.
Sanguessugas nojentas que vivem, na conveniência do regime, independendo de qual, com, e de, o saber e o trabalho de quem sabe, de quem por inconveniente é muito conveniente manter na sombra. Aí, nessa noite eterna, onde produzem a luz com que alumiam, fascinam e encandeiam quem tem a coragem de nos seus olhos os olhos de frente pôr, quem os ouve fingindo-se comovido quando na realidade está bebendo para regurgitar onde devido e, pior, quem lhes deixa por convir, espaço para criar mas, apenas o suficiente, para que, da nascente oculta, a água fresca possa brotar, sempre renovada, alimentando os vampiros da ignorância que, decumbentes, o chefe de clã vão bajular e alimentar.
A informação, o conhecimento, o saber fazer, como vós sabeis, é cinzento, na sua génese, não é preto mas tão pouco branco tão pouco e de transparente nada tem, por vezes, poucas, translúcido mas na sua ingente massa critica é, infelizmente, tenebrosamente opaca.
Assim, a mediocridade gera uma mediocridade ainda maior pois, só assim, a mediocridade poderá medrar. Cresce, eleva-se e sobrevive graças a uma luz que permanece, obrigatoriamente no escuro, na penumbra, no outro lado da realidade, no backstage, fora do alcance das luzes de ribalta, onde não ofusque o brilho baço, mate dos actores principais que lhe sonegam, quer uns quer outros – actores principais, secundários e figurantes – a possibilidade, ainda que exígua, de sair da solitária, de refulgirem, ainda que uma só vez.
tÓ mAnÉ Editions
A imponderação do inconsequente
Será que um inconsequente pondera os seus actos e decisões? Será?...
Será que pondera as consequências, o impacto e o impacte, na vida alheia, das suas irreflexões? Será?...
Será que lhe é indiferente a sujeição a que obriga quando imponderadamente decide por si só? Será?...
Será a arrogância da ignorância? Será?...
Assusta-me pensar na imponderação!
Aterroriza-me a impiedade dos inconsequentes!
A simples possibilidade de reflectir, sem leviandade, na imponderação e nos inconsequentes arrepia-me! Arrepia-me até aos ossos! Sobretudo, por bem saber, que a imponderação dos inconsequentes é analisada até à ultima das consequências – ponderam inclusive o imponderável – pois a inconsequência dos inconsequentes é medida, cuidadosamente, para evitar a não afectação da mesma aos actos praticados e às decisões tomadas pelo actor material da imponderação ponderada à exaustão. Assim, o inconsequente de si vincula as inconsequências a outrem, marginalizando-se das imponderações perpetradas. Existindo, portanto, numa vivência longínqua da efectivação da acção. Distanciando-se, prudentemente, da realidade substantiva da consequência. Viaja na proporção inversa da razão causa efeito. Volatiliza-se, sublima-se, imaterializa-se, ao momento, conforme as necessidades factuais produzidas pelo efeito causado.
Neste mundo de imprevisibilidades capacitaram-se e dotaram-se de meios de inversão e subversão do acto, da decisão, da atitude e até da palavra, remetendo-os ao âmbito da imprecisão ou arremetendo-a em ombros alheios.
Não carregam substância, nem detêm substrato. Caminham leves e desenraizados. Esgueiram-se! Navegando entre uma indefinição perpétua do verbo e o consequente imponderável. Para eles a culpa é sempre abstracta e nunca adjectiva – foi uma questão de semântica, foi uma questão de leitura, o objecto do verbo foi descontextualizado, subvertido, pelo que irremediavelmente perdido no contexto da sua inserção,…
Na verdade quem se atreveria a pensar o que é impensável?... Ou ponderar no que é imponderável?... Ou ainda questionar o que é inquestionável?... Ou mais dizer o que é inefável?... No mínimo seria apodado de atrevido ou audaz e no limite ascenderia até ao limiar superior da loucura.
Contudo, a resposta é assaz simples: O inconsequente!
E porquê?
Porque, o inconsequente, por impoluto e avisado, por inimputável e impunível e pelo uso exímio das qualidades suso referidas, que, para os mais desatentos, volto aqui a dar realce, por as querer inesquecíveis: Volatilidade, sublimidade e imaterialidade.
Afinal quem se atreve a punir um louco em seu perfeito estado de saúde mental?!... A medicina não atesta e a justiça não ousa!...
E, desta forma ligeira, entre as gotas da chuva, no meio duma saraivada, o inconsequente, passa incólume, enquanto as consciências desarmadas de tão portentosas ferramentas, ficam encharcadas até aos ossos, vitimadas pelo objecto, pela matriz, pelo vector da imponderação pérfida e sórdida dos inconsequentes.
Todavia, louco é aquele que no seu perfeito juízo dá aval e crédito a tamanho prejuízo. Aquele que lega e delega, por sufrágio universal, semelhante responsabilidade à criatura boçal; imponderação consequente por quase todos vista enquanto um processo ou uma causa natural: A democratização do poder desmedido da besta colossal.
tÓ mAnÉ Editions
Morena
Beijada pelo raio de sol,
Tua pele, morena, é sumaúma.
Solto, em teus lábios,
Brinca inocente, morena, doce sorriso.
Presa no teu olhar, morena,
A felicidade, estampada no rosto, reluz.
Teus cabelos, morena,
Molhados de gel, brilham, ofuscam.
Morena, teu corpo ondula,
Ao sabor do samba,
Que arde no teu sangue,
E, magnânimo, entrega-se,
Derretido, morena,
Tal como (gel)ado de manga rubra espada.
Deixa-me, morena,
Deixa-me, que cheire esse teu odor
De mato ancestral.
Deixa-me, morena,
Deixa-me, sentir o teu sabor.
Deixa-me, morena,
Deixa, de ti o meu paladar saciar.
Ó, morena, de unhas de gel,
De vermelho pintadas.
Deixa-me, morena,
Deixa-me, senti-las assim afiadas,
Morena!...
tÓ mAnÉ Style
14
Dois pensamentos de 14:
1. Ademais, muita gente te disse que és uma mulher lindíssima!...
No entanto, permite que te diga aquilo que,
Salvo raras e honrosas excepções,
Ninguém te disse:
“A tua beleza para além de extrínseca é outrossim intrínseca, é o casulo que contém a crisálida que abriu um dia, na borboleta que os outros vêem”.
2. Não cansa olhar teu lindo rosto!...
Deus na Sua eterna sabedoria,
Sabe bem o que faz!...
E, se por alguma eventualidade não te ofereceram uma flor fica esta à laia de exemplo.
tÓ mAnÉ Style
segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014
Três tristes textos (Protesto e/ou a graça?!...; O Sr. Birra; Apetites de ser)
Protesto e/ou a graça?!... --
Não passa um só dia que eu não proteste. Tal como nem um dia só se vai que não dê graças a Deus. Protesto e agradeço em doses diferentes e consoante a vontade mo exige.
O dar graças dá-me ânimo para protestar. O protestar traz-me as bênçãos e as dádivas de Deus de que necessito para continuar este périplo diário, sem me sentir manipulado por cruzes e fios de nylon, tal e qual uma marioneta, neste teatro burlesco em que todos vivemos e em que o espectáculo somos nós.
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O Sr. Birra --
Hoje trouxe o meu adorado bloco de notas, reticente, devo confessar, teria, melhor optado pelo meu livro de leitura ou talvez pela companhia de alguém. Mas, teimoso, agarrei-me às letras pintadas neste fundo, apesar de nada me ocorrer para o preencher. Limito-me a construir palavras e a soldar linhas com elas; forjar frases avulsas, sem sentido, conspurcadas pela ausência de imaginação.
Deveria ter a decência, se é que ela é para aqui chamada, de não encher de desabafos desconexos estas folhas virgens, puras que merecem bem mais que uma sujeira, uma diarreia mental, uma descarga (maus humores figadais) biliar ou algo bem pior, quiçá, uma demência momentânea. Pois, na verdade, até parece que estou tomado pelo Sr. Birra, que, usualmente, costuma afectar os bebés e garotos de tenra idade e até os vovós, como também a classe política e outras vedetas afins ou ainda algumas mulheres na temporada da “chica”.
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Apetites de ser --
Apeteceram-me “pucarinhas” assadas em chapa quente com uma pitada de sal ou uma folhinha de toucinho fumado, até parece que estou prenhe. Prenhe de uma vontade enorme de mudança – mudar de estilo de vida. Ser mais, melhor e diferente. Ser farol num mar ausente. Ser música soprada, expelida, escorrida da boca de um vulcão activo, não em erupção. Ser névoa que absorve e bane a mentira em nós contida. Ser sólido, aquele que abala todos os padrões da geometria. Ser luz, aquela que perfura a noite da loucura, da insanidade dos Homens. Ser aquele, que não Deus; Esse, divino, não castiga, perdoa na Sua eterna magnificência, que ergue a gadanha e faz a (in)justiça que a justiça não se atreve a fazer. Alfim, ser aquele que veste de amarelo quando a moda é vestir preto.
tÓ mAnÉ Editions
No Zé dos Matos
No meio, ou no seu mais ou menos, da segunda intervenção do segundo painel do Colóquio “Metamorfoses do Campo e da Cidade”, por volta das treze horas e trinta e tal minutos e, após uma considerável diarreia literária, em módulo de leitura de autor, inacabada, que versava sobre arrogante e vã tentativa de estreitar o campo à cidade, através de alegorias e extractos de poemas e textos, de Virgílio, de Almeida Garrett – Folhas Caídas – ou mesmo Eça de Queirós – A Cidade e as Serras, desabafo um pouco mais alto que o que conviria à ocasião ou ao evento: Socorro! E, acto imediato, levanto-me e saio com cara de desagrado.
No caminho entre o auditório e o automóvel, faço uma pequena passagem e paragem nas instalações sanitárias. Mijo. Inspecciono o prepúcio que, após os abusos e maus-tratos da véspera, estava-me a provocar um ardor incómodo. Nada detectei de anormal, nem sequer um vermelhão ou um prurido que fosse. Botei a gaita à cueca e corri o zip das calças, lavei as mãos e propus-me ao caminho.
Sentado no carrinha, ainda estacionado, com o estômago a roncar por um reforço ao pequeno-almoço, apesar das bolachitas e dos bolos do coffee break, e contemplando a luminosidade deslumbrante do dia que me entrava como um flash luzente na alma, bem como a temperatura amena que se fazia sentir inobstante a época do ano; início de Novembro, uma ideia desatou a bailar na minha cabeça: Estou no parque de estacionamento da Universidade Campus das Gambelas, não vejo o mar há já algum tempo, estou só e sem compromissos, e o tempo, por si só, até convida, porque não hei-de dar um pulinho ao Restaurante Zé dos Matos em pleno Parque Natural da Ria Formosa, na Ilha de Faro?... E não havendo um porque, o rumo, tal como o destino, estava traçado.
A viagem é curta, como curta é distância entre os pontos da partida e da chegada, agradável, onde se beneficia de uma paisagem maravilhosa e de uma fragrância inesquecível da Ria Formosa em plena baixa-mar, contrapondo com a estopada do colóquio entre o bulício da cidade e o bucólico dos campos.
Foi com uma enorme sensação de bem-estar e uma satisfação inefável que vi deslizar, pelo exterior dos vidros da 308 SW, os contornos da ponte que liga a zona do sapal à estreita faixa de terra que a separa do mar. Deslumbra pela fragrância peculiar da brisa a maresia, inquinada pelo almíscar do matope das zonas alagáveis, agora descobertas, que enche, preenche e turva os sentidos enquanto circula livremente atravessando os vidros abertos da carrinha.
Estacionar, foi mesmo à porta do restaurante, apesar do sexto dia, da sexta-feira, do mês de Dezembro, do ano de 2013; É a crise, dizem uns e a oportunidade dizem outros, mas de que importa isso afinal, para eternizar, o meu momento de felicidade?... E, eis-me à porta do conhecido Zé dos Matos e, isso sim é que é assaz importante. Uns passos mais e descubro-me a escolher, sob orientação, uma mesa no avançado coberto que, na realidade, se encontra posicionado nas traseiras do estabelecimento e, que permite uma ampla visualização, um privilégio único, da Ria de Faro e da ponte de acesso à ilha, que de facto não é uma ilha mas sim um istmo. Nesse momento, assalta-me a cabeça a seguinte ideia: Deus é grande, é bom, é pai, é negro e é fêmea.
Obedecendo, sentei-me onde me foi indicado - na mesa já por mim, mentalmente, pré-definida - ou seja, em qualquer uma das mesas livres que, por sinal ou mau sinal, eram o universo de quase todas, triste sinal dos tempos este, pois em tempos idos sem marcação havia que esperar e desesperar ou levar na cara com um redondo estamos cheios, atirado em surdina, pelo empregado que, em vão, tentava empregar ou envergar o melhor de todos os seus sorrisos.
A maré, entretanto, já enche. Assim ditam, para quem sabe um pouco de marinhagem, as proas dos barcos que se viraram a nascente, para a foz em estuário.
Abro o cardápio, rebolo os olhos sobre ele, donde, sobressaem, quatro iguarias, que de imediato, despertam a minha gula, provocando-me um rosnar surdo no estômago, avisando-me do adiantado da hora. Ovas fritas, “eirózes” (assim estava escrito, onde é que já se viu um menu sem erro, até parece mal) fritas, arroz de lingueirão e raia de alhada, e o meu estômago famélico rebolava.
Pouso a lista na mesa. Acorre de imediato o empregado. Inteiro-me se poderia pedir uma mista de ovas e eirós ou irós ou ainda enguias, todavia nunca “eirózes”, acompanhada de meia dose de arroz de lingueirão ou langueirão. Pesaroso, o empregado, responde que não. Aí opto, entre um piado, deambulante, de uma gaivota que passa pairando no vento e um olhar de relance à ponte, pela raia de alhada, afinal estamos no tempo dela, da raia, não menstruada; na gíria, dizem que, a raia está menstruada quando a raia adquire uma tonalidade avermelhada, durante o período de eclosão larvar que ocorre entre Fevereiro e Agosto e, que durante o mesmo não se devem comer.
Para acompanhar peço três quartos de um branco fresquinho – Vinha das Servas 2012 da Herdade das Servas; um alentejano encorpado e frutado, vai bem com o prato escolhido, faz-lhe a cara.
Aguardo. E, enquanto isso, resolvo começar a derramar imbecilidades sobre o meu bloco de notas; tinta que agarrada a ela traz mais tinta, fazendo do compasso de espera um acto de entretenimento pseudo-intelectual. Inicio a escrita. Observo quem me rodeia. Todavia não vou por aí. Eis que esvoaça um fiapo de ideia na minha mente: É contumaz, estou sozinho, que mais hei-de fazer que não roçar pelo papel a esfera da esferográfica, tombando nele os meus pensamentos soltos, esvoaçantes tal como balões de hélio livres de peias, e observar quem e o que me rodeia, entre um copo de vinho, um sorriso solitário, talvez até patético.
Eis que o tacho em alumínio faz a sua entrada triunfal na sala e aterra pleno de classe sobre a mesa, libertando um odor acidulado, todavia maravilhoso. É o acepipe que chega para libertar do sofrimento o meu estômago já rancoroso que entre um urro e um ronco, exige o que lhe é de direito.
E, assim, dei o início a um intervalo para o abuso…
Generosa é a palavra que define a dose e generoso foi também o abuso; foi enfardar à fartazana como o bom povo diz. Cometido que foi, comido e bebido, assim o está. Só peço a Deus que não me caia em mau saco e não me meta em alhada alguma, pois a cozinheira carregou no vinagre da raia, no que concerne ao meu estômago e ao meu gosto singular. Quanto ao resto, impecável, o café já fumega, e para meu conforto, bom de tragar, LAVAZA grita a chávena, porque hei-de duvidar?
Quinze e dez brilham nos ponteiros do meu Citizen Eco-Drive, peço a conta; a “marafada” como se fala no meu Algarve. Pago. Não reclamo como é meu uso. Mijo, lavo as mãos, e saio.
O regresso nem sempre tem mais encanto tal como a despedida e, foi o caso, pois não me apetecia regressar nem tão pouco despedir-me. Queria mesmo era ir sonhar, enquanto marcava, aleatoriamente, as minhas pegadas na areia molhada da beira-mar.
Incontornável. Tive que abrir mão dos sonhos e voltar a pôr os pés no chão.
A maré, na força da enchente, impou, ganhou espaço, espraiou-se pelo sapal, o cheiro a maresia almiscarada, apesar do levantar da brisa em vento, quase se dissipou, até o caminho de regresso parece que aumentou.
O colóquio espera-me para um terceiro e quarto painel, intervalados por um coffee break. Chego atrasado mas daí não advém mal.
Agora, entediado, no anfiteatro sentado, toda a magia se esfumou. Abla una española, num “españolez”, sobre um projecto na bacia hidrográfica da Ria de Alvor, todavia longínqua voga a minha alma, voga solta e sonhadora…
Rezo!
Rezo para que o sono não me dê e, se me der que não durma e, se dormir que ao menos não ressone e, se ressonar que sejam todos surdos ou que ninguém esteja atento ao acto…
tÓ mAnÉ Editions
Forjador de vidas
Tentei, incongruentemente, juntar os pedaços da minha vida e fazer deles um mundo igual a todos os outros mundos mas o infortúnio de ser desigual aos demais não me permitiu tal veleidade, obrigando a que o puzzle dos meus dias e, a cada dia, não se completasse como assim o destino o predestina.
O decorrer dos dias fez correr os anos e o número de peças soltas foi, atormentadamente, aumentando e, o que de início, não passava de um mero buraco, ou dois, soltos, na pequena grande folha das vinte e quatro horas, com o vazar dos tempos, cada vez mais as peças faltavam, ou sobravam, ou simplesmente estavam desajustadas ao puzzle e os espaços em branco engrandeciam, rasgando os meus dias como grandes clareiras num bosque, abrindo vazios, inexpugnáveis e insondáveis, em mim, desanexando-me e desindexando-me das páginas (constituídas por doze horas) e das folhas e por fim, lavrados que foram os anos, do próprio livro fui, lentamente, expurgado, até apenas uma reminiscência de mim perdurar, teimosamente, sob a forma de uma áurea diáfana.
Hoje, recordando de longe, do local onde me refugio em segurança, reconheço que as folhas eram formas de estar e as peças soltas os elos que deveriam encaixar-se numa realidade diferente, um painel de outro livro, o livro da vida que deveria ser mas, não era, a minha, eram as peças desajustadas e as que sobravam (por pertencerem ao mesmo tempo a duas realidades, a duas vidas separadas, eram as peças coincidentes) que completariam os brancos livres das folhas incompletas que formariam um outro livro de uma outra estante nesta biblioteca, neste arquivo semi-morto, da vida. Esta seria a recôndita prateleira da estante onde guardaria o livro que deveria ter sido a minha vida, vida inscrita, a ferro e fogo, nestas peças, irrecuperáveis, que foram atiradas nas profundezas do tempo, recalcadas, humilhadas, todavia nunca esquecidas. Esta prateleira seria, dessas peças o cemitério, e era lá que deveriam, libertas, serenas repousar e descansar eternamente.
A vida que (sobre)vivo misturou, na sua infinita ignorância, estas duas nefastas realidades, criou um mundo desequilibrado, pleno de lacunas, brechas e clareiras, inquinado, que viaja permanentemente de um eu que não era EU, para um NÃO EU que era no final eu e, neste périplo sem fim à vista, a insatisfação vai galopando desenfreada dentro de um ser híbrido, um eu-nim-EU, perdido, inexoravelmente, entre o ser e não SER e, irremediavelmente, atirado no mundo do estar sem que na realidade lá permaneça; divaga no mal-ESTAR indeterminadamente.
Esta duplicidade de SER por não ser conduz a um percurso sinuoso onde, a rebelião, sufocada pelo sentido de responsabilidade apegado ao não mundo que a própria vítima cria ou deixa criar, assume-se, com a travessia dos tempos, como um coma induzido. Esta artificialidade, no entanto e contrariamente ao coma induzido, vegeta, inconsequentemente, entre explosões de ira incontida e uma paz em banho-maria e, assim, vai-se afundando numa depressão reprimida, estudada, todavia nem sempre domada e contida.
Vejo nestas palavras um homem quebrado pelo silêncio, pela violência das palavras surdas sopradas ao vento, jamais expressas, impostas pelas memórias de um EU, irremediavelmente, perdido nas peças que cada folha, impreenchível, largou a estagnar, a apodrecer nas poças e nos charcos existentes nas clareiras dos bosques, que resultaram das lágrimas impostas que os alagaram. Deixando, inacabado, na prateleira da estante mesmo ali ao lado, um livro, a história do meu EU, a história de alguém que não este boneco, de vida, animado.
Porque me entrego assim?... Será uma rendição?... Ou será antes uma consequência directa deste circo, desta arena de areia sangrenta, onde me vejo como o chacinado e nunca como o gladiador vencedor?... Será que estou alquebrando e deixei que fosse traído e ultrapassado pelas subtilezas da vida?... Esta mesma vida pela qual passei e passo ao de leve, deixando mesmo parte dela por viver, parado num marasmo basbaque de quem nunca viu aquilo que já nada tem para ver.
Contorno partes, noutras porém passo as folhas relegando as peças mais inconvenientes, tentando esquecer as que supostamente não interessam, ou as que tomo por irrelevantes por conveniência, ou ainda largando-as no branco e preto da indiferença por descabidas. Assim, faço e desfaço a meu bel-prazer, as lacunas, as clareiras, as partes brancas e, vou fingindo a vida que vivo, vivendo uma vida que não é, necessariamente, a minha, abandonando a vida que deveria viver, vivendo na penumbra duma vida que não é minha.
Quem sou eu?...
Um forjador de vidas indevidas?... Ou a improcedência do bem e a inconsequência do mal?...
Quem sou eu afinal?...
tÓ mAnÉ Editions
Crónicas FDS da Laura - Registo XVII
Pois, pois, pois o sábado já abriu alas pelo corredor, estreito, da minha herdade. Quem vem lá, quem vem lá? O fim-de-semana e com ele, aos trambolhões, as minhas crónicas de FDS.
Parecida, semelhante, quase igual, aproximadamente análoga com todas as outras manhãs de sábados, assim foi esta manhã de sábado. Uma repetição do que já é repetido, um eco, uma reverberação próxima mas também tão longínqua, um aperceber desapercebido.
Começou, tal como no sábado passado, com o pequeno-almoço na mesa da rua, do pátio da cozinha, sobre uma enorme sombrinha ou chapéu-de-sol ou pára-sol, azul, desbotado de outras épocas, que a minha mãe resolveu montar junto à mesa para tornar mais agradável a nossa estadia; o sol já vai picando. Comemos o mesmo de sempre, para variar, claro. Eu devorei o meu leitinho com muito “xicólate” e a mãe, lambuzou-se, com uma tosta mista, um galão caseiro e um sumo de laranja natural, feito na Bimby, aquela maquineta infernal. Quanto ao meu pai: Na cama na ronceirice.
Adivinhem quem nos veio visitar logo pela manhã? Pois não adivinham, faltam-lhes os dotes, mas eu digo-vos: O Ioan e a Maria, fiquei muito contente – a Maria cresce a olhos vistos de dia para dia e, cresce para a frente e para os lados. Ela está descomunalmente grávida, e vai ter um menino. Tenho que lhe perguntar se ele ainda se vai chamar Alexandru, acho o nome tão estranho para um bebé pequenino.
O Ioan, mal bebeu o café, foi logo trabalhar, deve ter combinado, da última vez que cá esteve, algo com o pai, coisas lá deles e das quais não percebo patavina. Apenas ouvi falar em arranjar a campainha e o videoporteiro que estavam avariados há mais de um ano; as coisas aqui em casa são assim: Se não faz muita falta pode esperar, está-se bem! Agora que estou a falar neste assunto recordei-me de uma coisa que achava muito curiosa e engraçada que vou partilhar convosco: Sempre que o conserto do videoporteiro vinha à baila ou pela boca da mãe ou pela má-língua da avó Ilda, o meu pai respondia invariavelmente: Assim não me chateiam! E encolhia os ombros como que a atitar o tema objecto da observância para trás deles, os ombros. Que será que ele queria dizer e mostrar, pergunto-me.
Estávamos, eu a mãe e a Maria, o mulherio, comodamente sentadas à mesa de pequeno-almoço, quando, vai de lá senão quando, apareceu a avó Ilda - ela está avelada, olhem-lhe só o aspecto, o ar - numa de quadrilhice – assim que denota algo ou vê alguém que não é usual acontecer ou aparecer, ou seja, que sai um pouco dos costumes da sua loucura do dia-a-dia, vem logo meter o bedelho. Está-lhe no sangue, que fazer?... Mas verdadinha dita até que este comportamento, coscuvilheiro, dá um certo jeito. É como ter um polícia em casa ou mais ou menos, pois ela não foge e dá o alarme e o polícia mais ou menos.
Já o tempo tinha feito rodar o sol quando, estremunhado, de pijama e coçando o “sim senhor”, apareceu o meu pai para se juntar a nós. Altura em que o Ioan também deu por encerrada a tarefa. Finalmente a campainha, de cujo som já me havia olvidado, e o videoporteiro estão operacionais (vamos ver até quando!), Allelujah!...
Vou ter que vos fazer uma confissão que por relevante não poderia ficar, neste espaço de tagarelice aberto ao critério da vossa imaginação, por linha branca. Assim, confesso que: Deveria ter começado este relato, esta minha crónica FDS, pelo final de tarde de sexta-feira. E porquê a ousadia de começar logo por sexta-feira? Ora vamos lá então, mas por partes, tal e qual um jogo de futebol.
Parte um ou primeira: Porque o fim-de-semana começa logo que deixo a porta da escolinha, o que acontece, salvo raros e honrosos casos, na sexta-feira à tardinha e, porque, basicamente, estamos no verão é ainda muito de dia porque no inverno é noite cerrada.
Parte dois ou segunda: Porque os meus pais resolveram, às vezes dão-lhes estas telhas ou venetas, oferecer um jantar na minha, que é a nossa, casa, A quem? Hummmmm… Pois claro: À minha prima Cátia, ao primo emprestado Tomás, ao priminho Gustavo, ao tio Orlando, à tia Ondina, à avó Ilda e à tia Vitalina. Raio que já estou cansada de tanto badalar família e como vocês já os conhecem todos sobejamente nem mais um pingo de baba que vou esbanjar sobre este assunto. Parágrafo.
Falemos antes de comida que é bem mais interessante e gostoso. O jantar que foi mais um repasto e peras ou maçãs ou como vos der na real gana, foi constituído por uma massada de pargo e corvina, quiche de frango e gambinhas frescas da costa, cozidinhas, isto sem mencionar doces e frutas variadas.
Nada deixei para trás. Petisquei de tudo e por tudo o que foi sítio, até me atrevi a meter o bedelho na canjinha de frango, cebolinha e massa de argolinhas do priminho Gustavo, que estava de estalar.
Foi uma festinha bonita e digo festinha porque afinal sempre foi algo mais que um simples jantarinho.
O Gustavo é terrível das orelhas, nem queiram saber a energia que o raspelho tem, só mesmo visto. Era meia-noite e picos quando se deram, finalmente, por encerrados os trabalhos ou melhor quando todos resolveram recolher aos respectivos sacro santos lares. Para dizer a verdade eu já ansiava por isso e acho que o meu pai também, pois falando por mim, já estava borradinha de sono e já estávamos no sábado, ufa… até que enfim que desampararam a loja.
Bem, agora que já escancarei tudo o que tinha para dizer de sexta-feira voltemos ao dia de sábado, mais precisamente a manhã, que ficou para trás com a abertura deste parêntesis.
Depois de terminado o trabalho e dadas duas de conversa e três de simpatia, o Ioan ajustou as contas com o pai e foi-se embora com a Maria; ouvi dizer que tinham outras coisas para fazer razão pela qual não aceitaram o convite para o almoço.
Apesar de a hora já estar bastante entrada na tarde, ainda houve tempo para brincar às corridas à volta de casa com o meu pai, que acordou bem disposto e prestou-se à “cansadeira” de andar atrás de mim à volta e à volta de casa.
E, de tropelia em tropelia, eis-nos chegados à hora da paparoca. O almocito foi parco em inovação, poderia dizer que foi uma reutilização de produtos cozinhados para o jantar da véspera (não se pode desperdiçar a comida. Morre muita gente com fome, está sempre o meu pai a dizer), nada de grave e soube-me bastante bem, não sei se foi pelo adiantado da hora ou se realmente estava nos trinques.
Engolido que foi o almoço de pedaços disto e daquilo cada um desabelhou para seu lado. O pai foi fechar-se no escritório, agarrado ao computador, para ajudar a mãe, com a tese de mestrado, essa bendita ou maldita coisa, de que já estou farta até à medula óssea ou ao tutano, nem sei bem o porquê nem em quê, o que também não me interessa nada, pois eu fui sacrificar-me a ver os meus bonecos e a brincar ao faz-de-conta, enquanto a mãe, primeiramente, se agarrou aos tarecos da cozinha e depois foi transladar dos roupeiros, coisa que deveria já ter feito à séculos, a roupa de inverno e substitui-la pela de verão, parece que finalmente o tempo bom chegou, o que já não era sem tempo, por onde é que ele terá andado, conjuro.
De tanto estar sentado na cadeira, desconfortável e anatomicamente incorrecta, da secretária, o papá piorou das costas; aiiiii os meus lombos, como ele diz. Estar muito tempo sentado faz-lhe bastante mal às costas e hoje não foi excepção. Ao levantar-se, metia dó, até parecia um velhinho, não é que seja muito novo mas também não é assim tão velho, eu viu-o bem, apesar dele não ter reparado, estava todo encurvado para a frente, segurando as ilhargas com as mãos, e quando começou a andar os passinhos eram muito miudinhos e arrastados e apoiava as mãos, para se equilibrar, onde podia ou melhor jeito dava. Segurei-o, ternamente, para ele não cair, não que tenha muita força mas para ver se ele se animava um pouquito mais e se sentia apoiado, e acompanhei-o até ao quarto, onde se deitou, sobre a cama, de borco, isto é,de barriga para baixo e, juntando o ânimo que lhe restava, chamou pela mamã; estava mesmo derreado, nunca o tinha visto assim tão dorido. Ainda bem, a mãe, não tinha penetrado nos aposentos reais, já o pai lhe pedia para que ela lhe fizesse um massaginha às costas com o creminho de tomilho milagroso que serve quase para tudo e todos os fins, de acordo com o Professor Dr. Tarass Koval, personagem já caracterizada nestas minhas crónicas de FDS.
Cuidadosamente a mãe foi-lhe sovando as costas com o benfazejo creme e à medida que ia surtindo o seu mágico efeito o meu pai ia relaxando, até que ali ficou “desmastriado” e meio para o esquecido, sozinho, a curtir as suas mágoas.
Enquanto o meu pai estava todo entornado sobre a cama, nós as mulheres, iniciámos os preparativos para uma deslocação higiénica à praia; um saltinho de sol, mar e areia. Nada, mesmo nada fácil é efectuar a reunião da tralha necessária ao evento, pois a tralha é mesmo mais que muita e os adereços, esses, juntos são mais do que a areia da praia.
Tarefa, ainda que árdua, realizada. Agora urgia saber se o saltinho se daria ou não e aqui entra novamente o meu pai em acção: Primeiramente, a mãe, foi verificar o estado do seu estado e só depois de uma análise rápida resolveu perguntar-lhe: Sempre vamos à praia? Está tudo preparadíssimo! Acho que eles já tinham combinado o programa previamente.
Vamos sim, respondeu o pai, acrescentando: A miúda necessita de apanhar ar, sol e água do mar. Dar umas banhocas e brincar um pouco na areia. Passa a vida encafuada em casa, bolas. E não há-de ser por minha causa que vamos ficar em casa.
E, dizendo isto, levantou-se, a custo, mas levantou-se, preparou-se, sabe Deus e ele a que custo, todavia não deixou de ir comigo ou melhor de nos acompanhar. Vejam só que até pediu à mãe, não sendo inédito não o é também usual, para levar o carro, alegando que não tinha coragem e que era perigoso nas condições em que se encontrava. Desculpas esfarrapadas, de quem está de rastos e, não o admite. Orgulho nu e cru!
Estas foram as condições, inegociáveis, para que pudéssemos chegar à praia de Loulé, em Quarteira. Abro aqui umas chavetas, por serem mais, hierarquicamente e matematicamente falando, que parêntesis, para revelar que o meu pai não se atreveu ou melhor nem sequer ousou a tentar fazer quaisquer das manobras de praia, como por exemplo: Transportar o saco dos brinquedos ou espetar o pára-sol e, claro, também fazem parte de uma boa tarde de praia, as brincadeirinhas envolvendo a minha ilustre pessoa a areia molhada, a banhoca conjunta que é muito “fixolas” e é condição sine qua non de praia na sua verdadeira acepção da palavra.
Sabem, vendo-o como o vi nem me atrevi a exigências, o coitado estava mesmo mal, via-se na perfeição. Assim, ficaram as despesas inerentes a estes custos por conta da mamã.
Inobstante a água do mar estar um tudo ou nada para o fresquinho, o que para mim é irrelevante, pois fresco não é palavra de ordem quando se trata de banhoca no mar, coloquei as braçadeiras cor-de-rosa e fui com a mãezinha desfrutar de um reconfortante banhinho. A mãe não compartilhou do meu regozijo, não sei porquê, a água só estava mesmo fresquinha, e quando saiu da água parecia uma perua depenada.
Tenho uma confidência para vos fazer: Enquanto brincava, na areia molhada, a fazer castelos de areia, conheci um menino. Não lhe perguntei pelo nome, o acanhamento não deixou, acham que teria sido importante?... Eu também não achei. Quando o conheci ele estava a fazer uma cova na areia mesmo à beira-mar que, estava sempre cheia de água. A maré enchia e com ela a cova, isto aliado ao estado um pouco agitado do mar, proporcionou-nos uma bela de uma piscina natural com aguinha sempre renovada. Adorei tomar mais umas valentes banhocas na piscina improvisada.
Com o cair da tarde, ao longe, ouvimos uns gritos algo familiares, um pregão como lhe chama o meu pai: Bolinhasssss, bolinhasssss, bolinhasssss de Berlinnnnn, era um rapazola que gritava ou melhor apregoava, segundo o meu pai. O ratinho que tenho na barriga logo acordou e desatou a ratar, a ratar a pedir-me uma, ele adora bolinhas de Berlin.
Comprámos-lhes uma, desta vez fizemos-lhe a vontade ou satisfizemos-lhe a vontade, mas só desta, uma vez que as bolinhas não passam de pocinhos de gorduras polinsaturadas, um verdadeiro veneno para a saúde do ratinho. Porém, azar dos azares, quando já meia marchava a outra metade resolveu rebolar-se pela areia. O meu ratinho ficou inconsolável e, eu, ao ouvir aquele baque surdo na areia, fiquei lívida. Paralisei. A tristeza invadiu-nos, a mim e ao ratinho. E chorámos, e gritámos, todavia o fedelho que vendia as bolinhas não voltou a gingar na areia da nossa praia. Apre, irra que chatice!...
Bailando neste vira que não vira a hora da fuga, velozmente, fez a sua aparatosa aparição. Rebolou sobre si, sorriu e piscou o olho à malta, fez uma vénia e partiu, não falou mas tudo disse e, zus Loulé City ou melhor Vale da Rosa Parvónia.
E daqui não levam mais uma palavra que seja. Nada mais vou contar, porque estaria a ser fastidiosa e a fazer um replay em slow motion do que é useiro, vezeiro e costumeiro dos meus, já incontáveis, relatos de FDSs. Imaginem!... Façam alguma coisa para variar. Vá lá cambada.
Voltarei amanhã, revigorada, cheia de promessas e aventuras; assim o espero.
Domingo, ó domingo… tu que és o dia que antecede a segunda-feira e me trazes a esperança e a promessa de que a véspera de sábado vai ainda demorar, por isso ao fim da noite eu te odeio, o que tens ainda para me mostrar, me ensinar antes que te desfaças e percas nos braços da madrugada do dia que se te segue?... Revela-te domingo meu!
E foi só pedir que logo o domingo se rebolou, na sua generosidade sem par, derredor os nossos corpos e perante os nossos olhos, mas que “bicho laruta” me saiu este domingo é mesmo de “fina-arrasga”.
A primeira revelação veio sob o espectro, volúvel, do primo André que nos agraciou com a sua insigne presença, a sua e a do seu, deletério, computador, apêndice que se lhe prende na extremidade de uma das mãos para, de tempo em tempo, dar descanso à outra, todavia, sempre presente. O André, também é detentor de um outro apêndice de algibeira ou bolso, que serve para contrapeso do peso que lhe falta, o telemóvel last generation, comme il faut.
Largando-me deste assunto, e esquecendo as mariquices ou maquinetas tecnológicas das quais, o primo, tanto gáudio faz, vou dedicar-me a outro de não somenos importância ou relevância e que se traduz num volte face de 180 graus ou num looping de personalidades, porque falar do André e passar de seguida para o meu pai é como se fosse a acelerar em sexta velocidade e de rompante enfiasse uma marcha atrás, são caminhos paralelos e de sentido inverso, cruzam-se de quando em vez no infinito.
Ora vamos lá ao salto de personalidades. O paizinho não melhorou das moléstias da véspera, as costas não lhe deram tréguas durante a noite e pela manhã também não enterraram o machado de guerra, pelo que lá teve que ir, contra vontade, de rota batida para o Centro de Saúde, à rasquinha. Haviam de vê-lo todo torcidinho; não gosto nada de ver o meu pai assim.
Demorou-se por lá tanto tempo que até tive tempo para me esquecer que ele não estava em casa – passaram-se tantas coisas pelos entremeios que, o facto, de facto, não se pode traduzir em admiração alguma, por isso, vamos lá a fazer bico pequenino e calar esse Óooooo gigantesco de desaprovação e filha desnaturada, pois estou certa que a vós vos aconteceria a mesmíssima coisa. Senão vejamos como rolou a locomotiva, neste apeadeiro: Comecei por me enrolar na brincadeira com o primo, depois os jogos de computador gritaram pela minha atenção, para seguidamente os malvados dos bonecos me aliciarem até à sineta para o rancho, para, logo após o almoço, voltar a repetir todas estas tarefas, ainda que, não necessariamente, pela mesma ordem – aleatoriamente, percebem?
Vejam bem o tempo como ele é na sua verdadeira essência, umas vezes passa tão depressa que nem damos por ele, outras, porém, leva eternidades para se diluir nos ossos e, como diz o Dr. José Seguro: Os dois anos deste governo mais parecem dois séculos.
Batidas já eram as dezassete horas quando o meu pai voltou, ressalve-se que quando saiu ainda não tinham batido as onze e, para ele o tempo deve ter escorrido bem devagar, pois quando a mamã lhe perguntou como é que ele estava, limitou-se a dizer: Tenho as “nalgas” feitas num passador. E, se tinha palavras que o apoquentavam guardou-as por ali deixando a retórica para outra ocasião ou para um nunca mais, dirigindo-se directamente para o sofá e espojando-se nele abundantemente.
Neste marasmo, o que restava da tarde foi, indolentemente, passando. O pai no sofá. A mãe às voltas e reviravoltas com a tese de mestrado. E, o primo, revolitando entre o computador, o telemóvel e o bem-aventurado fazedor de amigos virtuais, que de amigos nada têm, o Facebook, ora num, ora noutro, conforme as necessidades do artista. Falto eu, pois… eu estive por conta própria, devidamente vigiada por algum deles, e entre bonecos e bonecos estavam o resto dos bonecos; não sei se terá sido prenda ou castigo por ter vestido logo pela manhã o vestido de princesa… ou porque há domingos que são mesmo assim: De mau feitio.
Palpita-me que a minha crónica está a ficar sem material de feitura, não estou a ver que vá acontecer uma remontada da situação, como dizem nuestros hermanitos em linguagem de futebóis, aqui na “tabanca”.
Neste momento toda a gente está a tomar banho de sofá mas cada qual direccionado no seu vector próprio. Assim: A mãe e o primo estão a ver um filme qualquer no computador, usando o programa wareztuga.tv, eu estou com um o olho nos bonecos e a língua a ditar a minha vidinha ao papá que, está com aquela carinha de farto de me ouvir, e de quem quer ir atirar o canastro para cima da cama ou de outro sofá, por forma a não ter que aturar ninguém, digo eu mas, sei lá…
Bem, o certo é que nem sempre aquilo que nós somos é necessariamente aquilo que nós gostaríamos de ser, como também, nem sempre aquilo que nós queremos é necessariamente aquilo que nós temos.
Assim, e como já não vou, pela certa, ter mais coisas de interesse comum para contar, vou-vos fazer uma vénia de despedida e dizer-vos: Despeço-me com amizade, como dizia o Eng.º Sousa Veloso no saudoso, segundo o meu pai, programa televisivo TV Rural.
Fuiiiii…
tÓ mAnÉ (in Laura Solange dixit) - 2013.06.(15,16)
terça-feira, 10 de dezembro de 2013
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