segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Crónicas FDS da Laura – Registo X


Cedinho, bem cedinho eu acordei hoje e, como é meu apanágio, bem disposta e gritando pela minha mãe: Mãeeeee… e, ela logo acode gritando por sua vez: O que é filha queria…, tudo se passa como um jogo em vida real. Eu grito por ela e ela responde-me. O que de início foi coisa séria, pois eu deitava-me acompanhada da minha mãe e acordava sozinha na minha cama, o que me gerava um certo (in)cumprimento de onda na minha cabeça, passou hoje em dia a um jogo em forma de bom dia.
Mãeeeee… anda cá, e lá vou entrando no quarto dos meus pais, e perguntando: Onde está a mãe pai... de onde o meu pai, sempre o meu pai que é mandrião e não se quer levantar cedo, me responde: A mãe está a chegar filha querida. E, assim, desta forma elegante, tipo elefante em loja de porcelanas, lhe acabo com o sossego. Ao cabo e ao resto hoje é sábado “e porque hoje é sábado” (Vinicius de Moraes, dixit) não é dia de ficar escarrapachado na cama a fazer preguiça e, para além disso, adoro quando o meu paizinho se levanta com aquele seu humor fantástico de: Cão abandonado, vadio, escorraçado, agredido, tiritando de frio, enregelado, escanzelado, famélico, e encharcado até aos ossos, fica tão giro nessa compostura e, para além disso, veste-lhe bem a pele!...
Hoje resolvi, isto é, apeteceu-me, ir ver os meus bonecos para a televisão da sala, enquanto a minha mãezinha foi pendurar a roupa, no varal, ao sol. Talvez assim não incomode mais o meu paizinho, talvez assim ele durma mais um “cochezito”, advindo daí a virtude de ficar um pouco melhor humorado. Na verdade, também me interessava, pois tinha uma surpresa para ele e não convinha “nadica” de nada que o seu humor piorasse.    
Sabem qual era a surpresa, sabem?... Claro que não, vocês não são adivinhos! Eu conto: Queria ir à “vila” com o meu pai. Queria ir beber um cafezinho de água, ir ao mercado e à loja da fruta e outras coisas mais da Dona Ana a “Gordicha”. E, acontece, que tal como vocês, o meu pai também não é adivinho, portanto estava em plena ignorância desta minha pretensão e planeava, ouvi ele dizer à mamã, ir sozinho às compras a Loulé. Era o que mais faltava ir sozinho para a “vila” ver as gajas.   
Observei-o, à distância conveniente, com muito esmero e atenção, enquanto se despachava, não fosse ele escapar-se à sorrelfa, nalgum momento de laxismo ocular. E, quando ele estava prontinho para dar largas à imaginação, gritei: Papá, papá,… também quero ir, ao que ele respondeu: Está bem filha o pai espera por ti. Pede à mamã para te preparar e nada de brincadeiras.
E, assim, foi ou melhor não foi bem assim mas talvez um pouco mais ou menos, na medida em que a mamã lhe deu uma de “ciumeira” e em menos de um farelo também se despachou e zus, fomos todos, para parecermos muitos, passear e fazer compras à “vila” no carro bonito.   
Estacionámos junto à escola da prima Sofia, próximo da Dona Ana retail market e, depois de encomendarmos o pão, cozido em forno de lenha, das Fontes Ferrenhas, fomos beber o café, confortavelmente sentados na esplanada da Loulé Pizza; e o sol, e o meu cafezinho de água, e o meu pai a sorrir para a minha mãe, e ambos sorrindo para mim, e um mundo de gente revoluteando ou revolitando, o que é a mesmíssima coisa, pelo Largo de São Francisco, e eu felicíssima da vida, pois tudo era bonito, agradável e esplendoroso. Foi fantástico! Mas, ainda assim, tudo tem um fim e neste caso em particular, foi a ordem imperativa da minha mamã: Vamos que se faz tarde e, assim, de armas e bagagens, seguimos vida, ou seja, acertámos o passo na direcção da merceeiria, casa da fruta, padaria, charcutaria, etc e tal… da Dona Ana a “Gordicha”, o que para mim foi uma decepção; estava feitinha para ir ao mercado – adoro ver o meu papá, a regatear o preço, do peixe, da carne, da fruta e outros produtos mais, com os vendedores, eles dizem-lhe uma ele retruca-lhes outra até que lá acertam no peso, na medida e no preço por fim, parece um verdadeiro cigano. Um dia, quando for maior, quero ser como ele (já estou a treinar essas esgrimas verbais, mas isso é segredo, shuiiiii…), quero dar tanga aos vendedores, posso até afirmar, sem faltar à verdade, que estava em ferrinhos para começar hoje. Mas, a vida nem sempre é mãe às vezes também é madrasta e tive que pôr a viola ao saco e conformar-me. Não ia haver passeio ao mercado. O ritual, hoje, não se cumpriu; Pizzaria, mercado, “Gordicha” e casa. Ficámos pelos intercalados perdidos e mercado ”nestes hás de binóculos”. Viram-no vocês?... É que eu “nope”!...
Contrafeita lá fui pisando estrada ou melhor passeio… não podendo afirmar que: Cantando e rindo mas… lá fui no fito do almoço e do gelado.
Na verdade ocorreu um hiato de tempo que me varreu da memória alguns pormenores, por exemplo: O trajecto entre a lojinha da Dona Ana e a casa da avó Aurita, bem como o conteúdo do almoço e para cumulo nem me lembro de ter devorado o gelado que o meu pai me comprou, de certa forma como prémio de consolação, o que me cria uma sensação nítida de vazio, assim como se me tivessem estuprado uma parte muito singular da minha vida. Acho, se calhar, que este lapsus memoriae se deveu à contrariedade ocorrida na manhã – olhem que até fiquei ofendida. Aonde é que isto já se viu?!… não ir ao mercado ao sábado de manhã é crime lesa Laura, hum… como querem que me lembre do que fiz e almocei?!... Acham?!...  Ai, ai, ai,…, ai, ai tÓ mAnÉ… Olha que o rego já não vai direito.
Sorte das sortes! A tarde decorreu em alta, contrariamente ao PSI20 da sexta-feira anterior que foi revisto em baixa, e tal como o prometido. E, o prometido foi nem mais nem menos que uma ida ao Algarve Shopping Center que, incluiu como excursionista o primo André, pois o meu mano Pedro é um “escarapanudo” e nunca alinha nestas coisas pirosas; ele é os amigos, ele é o ginásio, ele é as gajas, ele é as big parties, etc… coisas de gajo peneirento.
A saída de casa, face aos padrões normais, ocorreu muito cedo, uma vez que o programa incluía uma secção cinematográfica e, a minha mãe, armada em forreta, resolveu ir comprar as pipocas, as águas e sei lá que mais… ao Jumbo que, segundo ela ficavam muito mais em conta e de qualidade – as pipocas – menos duvidosa que as do cinema que eu já vi como funciona o esquema, ora catrapisquem: Chegam em sacos de plástico enormes, frias, são enfiadas nas tulhas de vidro onde são aquecidas para depois serem vendidas, ao preço dos olhos da cara que não do outro também, como se fossem acabadinhas de fazer e, para cumulo, ainda as voltam a ensacar para o dia seguinte, isto é, são arrefentadas e requentadas vezes sem conta até ao seu términos, colocadas sabe Deus e os transportadores onde, ora mas que grande porcaria! Passe o eufemismo.
Pois é! Não é que já me descaí… chatice esta hem! Não vos queria contar que tínhamos estado a preparar uma ida ao cinema mas, esta minha boca grande não sabe estar calada, ora bolas! Como diz o raposo Swiper dos bonecos da Dora, a exploradora. Deveria ser uma surpresa para depois.
Antes, quero-vos contar ou falar do tempo que fiquei à perna solta ou de “soltura” ou à vara larga, chamem-lhe o que entenderem, com os “porreiraços” do papá e do primo, que por seu turno resolveram, enquanto a mamã não chegava – e se ela demorou – irem beber um cafezinho à lojita da Sical. Enquanto eles degustavam e não degustavam o precioso néctar, desatei a pintar a manta todinha, como me aprouve, ou o mesmo será dizer que, fartei-me de cabriolar, nem vos vou contar o que fiz ou deixei por fazer. Poupo-vos a esta!... eheheheheh… 
Tantas e seguidas dariam mau resultado e eu sabia-o! Mas, enquanto o pau vai e volta folgam as costas… E, assim, o meu pai, face ao teor da actuação, resolveu compensar-me. Imaginem que me levou até junto de uma menina grande e muito simpática (acho que ele queria arrastar a asa à “piquena” e estava a usar-me, indecentemente, como isco vivo para “anzolar” a moçoila, mas não faz mal, que eu contei tudinho à minha mãe; recompensa, recompensa mas, sem abusos, ora toma lá que é bacalhau…), que estava trabalhar na lojinha ambulante de compra e vende objectos de prata e ouro. Chegados ao local do crime, o meu pai, instigou-me a pedir um balão à menina grande mas, falou tão alto que ela ouviu – pudera não era surda com certeza – e logo se aprestou a dar-me um balão com uma haste longa de plástico branco encimada por uma espécie coroa, também de plástico; hoje em dia é tudo de plástico, onde estava preso um balão de um amarelo dourado fantástico; não me esqueci de, timidamente, agradecer. Balbuciei um: Obrigada, assim muito para o sumido e em surdina, ao qual a menina grande respondeu com um amplo e resplandecente sorriso.
Imediatamente dei as costas e fui brincar com o meu novo brinquedo, sob o olhar atento do meu pai que, maroto, ficou a dar tanga à miúda grande.
Enquanto a minha mãe deambulava pelo Jumbo, deleitando-se nas compras, nós (eu, o pai e o primo) entramos em rega-bofe total. Primeiro comecei a jogar ao balão, despreocupada com qualquer tipo de escala, sem largura ou comprimento, sem objectos ou transeuntes. Era tudo meu. Depois juntou-se o primo à brincadeira e a escala dilatou-se e, quando por fim, se reuniu o meu pai a escala extravasou qualquer tipo de limites. Estávamos imparáveis, como se refere agora muito em política, nós entrámos numa espiral não recessiva, o que é deveras deprimente, mas sim numa espiral hilariante e esfusiante. Pontapé aqui, chapada “acoli”, cabeçada além, palmada acolá, fazendo ou procurando fazer, o que nem sempre foi passível de alcançar, com que o balão não tocasse o chão. Uma orgia de boa disposição e de “estassecagandismo” por parte de três miúdos traquinas. Desta forma, quase dantesca conseguimos incomodar um Sopping e meio. Aí chegou a castração vestida sob a forma de mãe pendurada de sacos e,… findou a reinação.
O cinema. Oh! O cinema. Foi para todos os gostos, excepto para a mãe; alguém tinha que me acompanhar. O primo foi ver o Iron Man III (O Homem de Ferro III), o pai foi assistir ao Oblivion (Esquecido) e eu e a minha mãe escolhemos The Gladiators (Os Gladiadores). E, assim, cada qual, satisfeita a sua opção, acertou o relógio na hora do encontro após a secção final, pois cada secção começava à sua hora, e desabelhou. Foi muito giro este desconjuntamento geral, tal e qual uma debandada de estorninhos; cada um voa por seu lado para no final se juntarem em bando novamente – assim, nós nos assemelhávamos, porém só na revoada pois, quando chegou o momento da reunião, o caso tomou outras características e contornos. Foi o cabo dos trabalhos para se concretizar a união do bando extraviado, após o final de todas as secções cinéfilas.
Eu entendi que queria e deveria ir brincar, arrastando neste processo a mãe, com os “zingarelhos” que existem no pátio interior do Shopping, o meu pai raspou-se sabe Deus e ele para onde, desconfio que foi ver a menina grande, aquela que comprava prata e ouro na lojinha ambulante, e finalmente o primo, o mais fácil de encontrar, pois ficou especado à porta do cinema, acho que estava com medo de se perder e ver-se obrigado a calcorrear o caminho de volta. O facto é que no ponto de encontro ninguém se encontrava à hora previamente marcada.
Com o baixar do sol, começou a erguer-se uma brisa fria e desconfortável. O ponto de encontro deixou de ser aprazível e o meu pai não havia maneira de aparecer. A minha mãe iniciou um processo acidular, até que aos poucos e poucos esgotou de um todo a pouca paciência que ainda a povoava, dizendo: André fica com a tua prima que eu vou procurar o Tó, e, assim, fiquei à guarda do primo, enquanto a mãe disparou Shopping fora.
Sabem onde ela o encontrou?... Adivinhem lá… Não! Nem pensar. Eu digo-vos! No Jumbo às voltas com as “amantes” dele: Os livros. Acham isto normal?... E eu cheiinha de fome e o primo, esse esfaimado, nem se fala…
Logo que a minha mãe voltou disparámos os calcanhares rumo ao McDonald’s, onde nos espojámos, nuns sofás em plástico, duros e incómodos, na frente exterior do excelso estabelecimento. O primo André não esteve com meias medidas e logo, num ataque frontal à linha de batalha, se repimpou com um desmesurado menu; é grande “frieira” o bicho, arre! Eu até que o entendo, está a crescer, não sei para onde mas está! Só pode! Devorou um enorme hambúrguer com batatas fritas, ambos besuntados de toda a classe de molhos e bebeu uma Coca-Cola, um Big Mac foi como ele apelidou o menu. Este comportamento fez-me lembrar a minha avó Ilda que diz: Quando tem fome até vai a parvo, e é-o! Sem tirar nem pôr. Nem uma criança, como eu, faz uma figurinha assim.
Eis que, finalmente, o papazinho chegou. Apre! Já não era sem tempo. Trazia um arzinho de quem quer mas não pede, sorridente, satisfeito consigo e com a vida, assim como de… quem levou e gostou. Típico de quem a armou bem armada. Porém, menos-mal, a sua chegada despoletou o início da paparoca, uma vez que a minha mãe estava sitiada na vigia da prole, isto é, tomando conta de mim, como se tal fosse necessário, enquanto o primo, sem piedade, se alambazava, atacando com vigor redobrado, o seu menu Big Mac.
Canja de massa bolinhas com hortelã, foi a iguaria que o papá escolheu para o “Je”.
Estava quentíssima. Aí… eu adoro canja de massa de bolinhas, porém entre uma colherada e outra e para compensar o tempo de arrefecimento, saltitei de sofá para a mesa e vice-versa. Enquanto rodava este filme, o meu papá aproveitou o ensejo, uma vez que a sopeira era a mamã, para ir comprar pizzas, ou melhor fatias de pizza à Pizza Hut, das quais eu acabei por devorar parte do recheio. Eu tinha cá uma larica, lembram-se?!... Enquanto este despautério se avolumava, a mamã foi munir-se de algo comestível e, tal como o primo André, optou por um menu Big Mac. Quando ela chegou estava o meu pai a comer o que restou da canja, pois a sua dose havia sido debelada, em parte por mim – o meu paizinho gosta bué (muito de) canja, o que não deixou de ser uma sorte para ele – e atiçando-me um rabo de olho quando eu saía da risca invisível entre o bem e o mal ou entre o bom e o mau comportamento que, ele e só ele, havia desenhado para mim e só para mim. Não é justo! Não acham?...
Resumindo para não ir muito mais além.
O primo encarregou-se ou foi encarregado de tomar conta de mim; até parece que a fera aqui sou eu, e entre duas de brincadeira, roubava duas batatas fritas à minha mãe. Assim, o papá e a mamã acabaram por jantar, se é que se pode chamar jantar a semelhante travia, num sossego para o desassossegado. Findo o repasto os “lordes” apeteceram-lhe uns descafeinados e só depois de realizados e cumpridos os seus nobres desígnios é que soou o clarim de regresso ao quartel-general. Bolas já não era sem tempo! O pestana, aquele malvado, já me combatia sem trégua e cada ataque que perpetrava era mais feroz que o anterior.
Ufa!... Finalmente sentada na minha cadeirinha de transporte viário e o roncar dos 110 CV do motor diesel e a lenta trepidação do veículo em movimento. O meu mundo começou a diluir-se na sombra entre o real e o quimérico e a rodopiar entre o ser e não estar que, efectivamente deixou de estar para se imbuir no mundo do sono e do sonho. Apaguei algures, entre Faro - o Shopping - e Vale da Rosa, para a realidade… Porém antes, mesmo, mesmo no hiato entre o abrir e o fechar do obturador, ainda pensei: Sabem qual é a melhor coisa que Faro tem?...
- A estrada para Loulé!...
Eis-nos aportados no cais de domingo. O dia do Senhor. Não, não fui à missa, ainda sou pequenina, mas hei-de ir… porém já ouvi falar do menino Jesus, das palhinhas, da vaca e do burrinho.
Ora então vamos lá ao que interessa.
Para não quebrar a tradição ou abrir a excepção o meu pai levantou-se tarde. É um espertalhão, é o que ele é! Só se levanta cedo, ao fim-de-semana, quando que lhe é de conveniência; a caça, a pesca e pouco mais, mas eu já lhe topei a manha e, a mim, ele não me engana, não! Para ir à caça nunca lhe dói a cabeça nem as costas nem sabe-se lá o quê, passa-lhe logo a idade do com dor.
Também, e para não se perder o ritmo da instituição, foi a minha mãe que se levantou para ficar comigo, ela é assim como o anjo da guarda das minhas manhãs de fim-de-semana.
Estava eu a dizer-vos, à boca cheia, que o meu pai se tinha levantado tarde, mas não referi as horas. Pois é, assim para o lado das 11:00 horas.
Sorrateiro, levantou-se, despachou-se e papou o pequeno-almoço, tudo à sorrelfa. Estava ele já com um pé na rua e outro a sair de casa para ir à sua mais que tradicional, diria mesmo atávica, bica matinal em Loulé, quando vai de lá senão quando, e tal como diz o povo que é sábio: Cagou-lhe o cão no caminho, ou seja, a matreirice foi descoberta a tempo e foi-lhe imposto um travão para não dizer uma arreata que fica deselegante.    
Onde pensas que vais? Pergunta-lhe a minha mãezinha. E, sem aguardar resposta, por evidente, mais sabia a mãe qual era o fito, retrucou: O almoço quem o faz? Acrescentando ainda: Bebe um Nespresso e trata de te agarrares à massada de peixe que são mais que horas e tu na cozinha é o que nós sabemos, devagar, devagarinho e parado. Se querias ir a Loulé porque não te levantas-te mais cedo? A cabeça da corvina está na arca congeladora.
E, assim, a conversa teve um ponto parágrafo. Sabem?... Acho que o meu paizinho não ficou nada satisfeito e tão pouco feliz com a ideia. Contudo, meteu o rabo entre as pernas, e dedicou-se à árdua tarefa de fazer o almoço, não julguem que é pêra doce fazer massada de peixe, enquanto a mãezinha continuou a empenhar-se e embrenhar-se na sua tese de mestrado, depois de velha ou cota como agora está em voga, é que lhe deu este “achaque ou quiçá menopausa” intelectual, consumindo os dias agarrada ao computador; pesquisando, estudando, escrevendo, etc…, nem sei para quê… enquanto o papá tem que alancar com os “domésticos”… ai, ai, ai,…   
E, entre azedos, azedumes e palavras trituradas entre os dentes lá se foi escoando a manhã e se engoliu o almoço; a massada de peixe estava um mimo.
Encerrado este, onde entre umas mais directas e outras mais enviusadas, o meu pai foi logo alertando que tinha que desanuviar a cabeça para exorcizar o mau feitio e que talvez fosse ver o mar, lá-lá-lará…  e ri-piu-piu passarinhos ao ninho…
O certo é que ainda bem não tinha engolido a fruta, e antes que a mamã, sonhasse com alguma, já estava a dar de “frosques”, atirando, quase em forma de sibilo surdo, um: vou beber café a Quarteira, ler um pouco; clássico nele, e encher um garrafão com água do mar para efectuar um combate efectivo à sinusite – o meu pai sofre muito com a sinusite. Acreditem eu ouço-o!... Ronca que se farta.
Para além do mencionado, o meu pai é um homem cheio de incumbências, tipo mil ofícios, ainda informou a minha mãe que: Ia, para ter sossego (eu sei que ele se estava a referir a mim, não sei porquê, pois sou até muito sossegadinha e tudo), para o trabalho dele, fazer a reclamação da tua avaliação de desempenho (não sei o que vem a ser isso mas deve ser importante – o trabalho é sagrado, pelo que eu não lhe toco). Ah! Quase me esquecia, para além do referido, ainda tinha intenção de dar um saltinho a casa da avó Aurita para se inteirar da gravidade do seu estado de saúde; ela, ultimamente, tem passado mal, quer dizer pior, porque mal ela anda sempre.      
Agora aqui para nós que ninguém nos ouve. Não acham muita coisa a fazer em tão curto espaço de tempo (o almoço terminou tardíssimo)? Será que não irá ter que dormir fora de casa?... Faço votos para que não, senão a minha mãe não vai ficar nada satisfeita, não vai, não!...
Com o meu pai fora e a minha mãe babando em cima do computador, fiquei quase por minha conta. Quase disse eu e isto porquê? Porque logo, o par de jarras, a minha avó Ilda e a minha tia Vitalina, apareceram, como dois espectros fantasmagóricos a ensombrarem a minha efémera liberdade, para fazerem as honras da casa, bem como, o árduo trabalho de acompanhamento contínuo das minhas actividades, peripécias e tropelias.
Neste vaivém o mais impiedoso dos impiedosos foi passando. Trazendo agarrado a ele, como uma pele emprestada, o final de tarde e com ele o arrebol onde o meu pai vinha imbuído dando um ar da sua graça, que de graça nada tinha, uma vez que vinha que não se tragava, pior que vinho feito a martelo. Azedo! Era um qualificativo que passaria despercebido enquanto eufemismo dos eufemismos…
Ele vinha que não vinha, ele estava que não estava! Essa é que é essa!...
Pelo que entendi ou melhor ouvi mas não entendi, o trabalho que o meu pai tinha feito para o serviço da minha mãe, ficou perdido numa memória dispersa do computador ou talvez não na memória mas sim na vaga ideia, ou seja, desapareceu antes de ser gravado. Segundo ele no momento de gravar cometeu uma calinada qualquer e ups… Lá foi tudo para o maneta (coisas da vida, não acham?...).
Resumindo e baralhando o ambiente de ocaso ficou um pouco para o contaminado de um halo peçonhento de mau humor ou mesmo da linha do impossível. E, apesar da água fria que a mamã tentava colocar na fervura a temperatura não baixava e o meu pai continuava a ferver (em pouca ou muita água, pouco se lhe fazia: fervia e a bom ferver!) e proferia: Fiz uma reclamação brilhante, refazê-la era impossível, nem próximo, pois inspiração de nível superior só acontece de quando em onde e, aquele tinha sido um dos momentos de sumidade, de coqueluche, ímpar de intelectualidade; humildade não lhe falta, toparam?... Por seu turno a mãe retorquia-lhe: Deixa lá. Não tem importância. Amanhã de cabeça mais fresca, vais ver, que te vais sair bem. Etc, etc, etc,…  Todavia o meu pai continuava a bufar que nem um touro em arena tauromáquica e, acima de tudo, estava inconsolável.
Entre duas de malabarismo e no meio de coisas e loisas o tempo, irremediavelmente, foi escorrendo, como areia, de uma redoma para a outra no interior da ampulheta ou relógio de areia, tal como nós no banho, só que aquele, o tempo, não tem toalha para lhe limpar as misérias, por isso, não seca e escorre, escorre sem parar.
Ele escorre para a hora de jantar, ele escorre para a hora dos bonecos, ele escorre para a hora de sornar e, por fim, ele escorre para o tempo que não tem tempo para parar, numa sequência intemporal de escorrência temporal.   
Bem chega de filosofar.
Até amanhã meninos que a Laura, a marafada da pena, vai fazer um óica.


         
 tÓ mAnÉ   (in Laura Solange dixit) - 2013.04.(27,28)

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Crónicas FDS da Laura – Registo IX


Mais um fim-de-semana fantástico! Um 21 e um 22 a abrir, como o tempo passa… Não é que estou quase, quase com 4 anos e pela afã com que vejo a minha mamã a preparar o meu aniversário, a coisa vai ser rija; fiesta. Vejam bem que a 22 dias de calendário do evento os preparativos preliminares ou seja a planificação já começou. Até o meu pai não escapou à enxurrada e teve que entrar nas conversações no que concerne a elaboração da ementa e da lista de convidados, devem ser os eternos ilustres de sempre; as festas das crianças são uma desculpa para os adultos se divertirem. Eles julgam que não dou por nada mas eu sou mais fina que o azeite… a mim, ninguém me tapa os olhos e ao Manel “o Alegre” ninguém o cala!... Visões dimorfas de ponto de vista…
Mas vamos lá ao que interessa… este fim-de-semana. Porque a mim também ninguém me cala nesta matéria.
Todavia quero deixar aqui um pequeno reparo, relativamente à autoria da escrita da efeméride. Então foi assim, eu contei à minha mãe e ela escreveu, depois contei ao meu pai e ele deu-lhe o seu tom e acrescentou. Perceberam foi uma prelecção tríplice. E, agora sim, vamo-nos a ele tiger. 
No sábado de manhã fomos passear ou melhor resolver assuntos de armazenamento e aprovisionamento semanal. Primeiro, e logo que saímos de casa, fomos ao café e tomámos um cafezinho, o meu foi de água com uma colher de café de café do meu pai e açúcar, gosto tanto! Depois fui ao mercado, onde vi as frutas, os legumes, o peixe e os mariscos mas, o que me apeteceu mesmo foi um gelado, que a minha mãe comprou na condição de só o comer após o almoço. E, neste reboliço total, a manhã fez-se hora de almoço. E aí começou o busílis da coisa, não é que o desgraçado do gelado não me deixava de atentar a cabeça. Colou-se-me ao cérebro tipo assim… como se cola algo com Araldite, a mistura entre os tubos gelado e cérebro em proporções adequadas foi fatal para uma colagem eficaz. Assim, e só por causa disso corri para casa da minha avó Aurita, nunca senti tanta vontade de ir para casa; adoro andar no “laré”, para almoçar em menos de um farelo para depois, finalmente, saborear o geladinho da Hello Kity, uáuuuuu, que bom. E, assim, abri a época e expurguei, num ápice, a luta titânica, a mistura explosiva que me atormentava a alma: Cérebro versos Gelado.
À tarde fomos para nossa casa e levámos a avó connosco. Ela ficou lá a passar o resto do fim-de-semana. Fiquei tão contente; eu gosto muito da avó e não só.
Já em casa, passei o tempo a rasgar a manta, ou seja, e fartei-me de brincar no quintal da nossa casa ou da nossa quinta ou da nossa herdade, quiçá?... Irrelevante!
No domingo convidámos o tio Aníbal e o primo André para almoçar, bem como as avós Aurita e Ilda, só tenho comigo aqui as duas avós, pois os meus avôs Monteiro e Neves foram morar para uma estrelinha porém, guardo-os religiosamente no coração, o primeiro porque o conheci e o segundo pelo que ouvi falar dele.
Fico mais feliz que uma pega sem rabo quando se organizam estes almoços de família.
Comi tudo! Sopa, gambinhas da costa e peixinho no forno. E, ainda, fui a primeira, não sou uma linda menina, não?... Ora digam-me…   
A tarde passou-se num piscar de olhos entre duas de brincadeira, uma de bonecos e meia de sorna. Depressa a noite chegou. Os comensais bateram em retirada, sendo que a avó Aurita foi um pouco mais tarde com o meu pai; ela vive em Loulé mas isso vocês já sabem.
O jantar foi a três: O pai, a mãe e “euzinha” mesmo.
Ainda, após o jantar, sobraram uns momentos para a bonecada mas, o inevitável aproximava-se: A hora da deita!... E, assim, foi…
Deu-me o fanico…


 tÓ mAnÉ   (in Laura Solange e Maria João dixit) - 2013.04.(21,22)

O fascínio do poder

A subjugação do outro sempre foi objecto de ambição adido à condição humana; aqui nesta breve reflexão não vamos entrar noutro âmbito que não o de ser humano.
O poder enquanto antítese de humildade, arroga-se ao direito de exercer um domínio efectivo e, com ele, da obrigação do jugo se dotar.
Dir-se-ia que é sintomático do tecido social ou mesmo viral, enquanto transversal a todos os pequenos e grandes poderes que apesar de minúsculos submetem ao seu domínio, critério e a seu bel-prazer, maiorias, fazendo-as querer, urdindo uma ilusão apoteótica, que o poder reside nelas e não na efectividade do poder.
 O poder não conhece pudor nem justiça, apenas a obsessão por mais e mais poder.
A transmissão do poder é extremamente violenta para o transmissor e uma apoteose para o receptor ou sucessor ou o novo detentor. É quase como um estropiar uma parte de um para implantar no outro, fazendo dele um hipotético ser superior. É como uma recepção de vida para um e uma entrega da mesma, às mãos do sucessor, pelo outro.
O poder é solitário, logo egoísta, desconfiado, patético e ausente. Não se lhe conhecem amigos, reconhecem-lhe oportunistas que orbitam em seu torno, tal e qual um electrão orbita, aleatoriamente, em torno do seu núcleo, tentando resgatar à sua avareza crónica algumas vitualhas, algumas parcas migalhas que, aquele, usando de um crivo de malha estreita mas, dotada a cada realidade, peneira e espalha com um critério assertivo e pragmático e sempre em troca da “gota de sangue” que alimente a sua voracidade de vampiro a vinte e quatro horas.
O poder encerra-se entorno do seu medo e do medo que inflige, escondendo-se atrás de si mesmo e da áurea tenebrosa que emana, num ideal de sombra, penumbra e crepúsculo, que cultiva cuidadosamente, em campos obscuros, onde medram e são colhidos ao sabor da ocasião os dividendos da ocultação da planta do fruto da informação.
Informação é poder! E informação recôndita é a força suprema do poder, é a roda motriz da engrenagem que faz a máquina quebrar a inércia e entrar em movimento uniformemente acelerado, desacelerado ou simplesmente uniforme em acordo com a conveniência e a conjecturara em gerência; algumas vezes, poucas, queda-se inerte, estudando a matriz e o vector de actuação. Esta é a forma de poder, menos conhecida, mas a mais perigosa. Denominada de: Poder Inteligente.
O poder é cego, porém os cinco sentidos restantes; ambição, tacto, olfacto, paladar e audição, estão e são apuradíssimos, requintados no seu uso e abuso. Nada acontece que não chegue através destas vias sensoriais. E, apesar de cego, o poder tem olhos, miríades deles, que revolitam em torno dele e estão disseminados e proliferam de lés a lés, quer na sua área de interferência quer fora dela. Desvirtuando, impregnando, fedendo, cuspindo e soprando a informação ao poder que a irá digerir em seu interesse próprio. Guardando-a para si ou libertando-a, através de flatos de odor putrefacto, na teia onde as aranhas se apoderarão dela, urdindo-a a seu discricionário e tenebroso prazer.
Esta rede ou teia, ainda que rudimentar em alguns casos e extremamente complexa noutros, de informação mantém o poder actualizado, informado e documentado de tudo o que gira em torno - fora e dentro - da sua esfera de influência, tornando-o, desta forma, quase omnisciente e omnipresente; um semi-deus.   
O exercício do poder assemelha-se à transmissão, disseminação de uma pandemia, cresce exponencialmente com a assumpção do mesmo e com o tempo de exercício efectivo da prerrogativa.
O povo diz e Deus guarda-lhe a razão: Se queres ver um pobre soberbo dá-lhe a chave de um palheiro. Quer isto dizer que o exercício do poder é tanto mais efectivo e feroz quanto a condição social dos ancestrais dos executores, independendo da sua ascensão ou não no tecido social, ou seja, quanto mais baixo é o extracto social donde provêem os executores mais eloquente, apertado e estreito o exercício da pertinência se revela.
O poder tem uma memória eidética pelo que nada no seu entorno lhe escapa, é uma esponja de absorção milagrosa de informação, todavia, uma armadilha fatal para os seus oponentes, quer no campo da batalha pelo poder em si quer no cobro de dividendos e favores.
Enquanto viral, instala-se, aloja-se no hospedeiro e, estupidamente, bebe-lhe a vida, seca-o, suga-o até extinguir a fonte geracional. Aí, procura avidamente um novo hospedeiro ou simplesmente aquieta-se à míngua, enfraquecendo e definhando, à medida que a fonte geradora do nutriente liofiliza, o alicerce desmorona ou a sua vida fenece.
Contudo, atenção, que na realidade, o poder não morre, fica apenas latente, hiberna, aguardando, pacientemente, por circunstâncias favoráveis que o acordem e o libertem desta letargia, deste sono e o tragam à vida e ao sonho: O sonho eterno de ser poder.
A configuração suprema, idílica até, de exercício do poder é o poder manipular ou deter ou decidir a vida de alguém ou duma extensa comunidade, que pode ser tão extensa quanto se possa imaginar: Uma galáxia por exemplo. É o poder de decidir quem vive ou morre, de quem é subjugado ou permanece livre, de quem prospera ou definha, de quem pode ou não seja o que for. Este é o poder que mais se assemelha ao Poder de Deus e, aquele que a humanidade mais almeja, mais luta para lograr atingir numa combate desleal e desumano pelo direito à posse do instrumento mais abstruso do mundo: A justiça do Poder pelo Poder.
O querer poder ser tal e qual Deus, todavia, aberrantemente, encerrado na pele de um Sátiro. 


tÓ mAnÉ   Editions

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

A utilidade do inútil


Todos vós devem estar a pensar que utilidade é que terá um inútil, será que a terão mesmo?...
Como é do conhecimento geral e quase estatuído por lei todos os espaços dos habitáveis aos comerciais, aos industriais, aos serviços e outros afins tem um elemento comum: O bibelô. Estes elementos são inutilidades úteis, enchem espaços nos quais ninguém repararia ou dificilmente o faria, ou seja estas inutilidades servem para ocupar lugares de pouca ou muita relevância, conforme os casos, para garantir a esses “espaços vazios” uma vida que não teriam ou mesmo até, pressupostamente, embeleza-los, isto é, os inúteis apesar de aparentemente não terem qualquer utilidade, valorizam outras inutilidades concedendo-lhes créditos que não têm e, erguendo por elas, mundos ilusórios de infinita utilidade. Em suma fazem o favor de fazer o que não se faria e se faz; advertida ou inadvertidamente?!... 

tÓ mAné  Editions

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Crónicas FDS da Laura – Registo VIII


Olá! Não é que voltei… Sim, voltei ao Centro Autárquico; finalmente criaram uma salinha dos “grandes”, moços e moças assim como eu, e finalmente houve vaga para mim ou a minha pessoa na sala dos grandes, depois de um longo e penoso e tortuoso périplo pela Casa da 1ª Infância, de que não gostei muito por múltiplas razões sendo a falta de atenção a principal – eu necessito de muita atenção - e depois pelo Jardim de Infância do Serradinho, onde detestei a comida e me senti muito só, pois os meninos eram todos mais velhos que eu e porque não tinha aquela atenção, outra vez a atenção, que eu mereço. Voltei e estou muito contente por ter regressado. Adoro a minha escolinha “velha”! Aqui tenho toda a atenção do mundo, adoro a comidinha e acima de tudo gosto muito de todos, da Telma, da Lena, da Paula, dos meus colegas e amigos. Alfim de todos, sem excepção!
Adivinharam! Sim, sou eu a Laura Solange. Voltei e com o meu regresso, regressaram as minhas aventuras de FDS.
Hum…, deixa-me pensar como hei-de começar, será que ao fim deste tempo todo de ausência já lhe perdi o jeito. Primeiro vou ter que falar com o meu pai para ver se ele está disposto a escrever as baboseiras que lhe digo. Lembrem-se que ainda não sei escrever mas, falar isso é outra coisa diferente; a língua não se me atrapalha… Acordei com o meu pai contrato por mais uma época – estas coisas funcionam mais ou menos como os jogadores e treinadores de futebol.
Sábado, o “Grande Sábado”. Acordei bem cedinho e muito bem disposta. Bebi o meu leitinho com muito chocolate, é como eu gosto, e a primeira secção do dia, como todos os dias, foi o Madagáscar, assistida em camarote de honra, primeira fila, escarrapachada na cama dos meus pais rodeada de almofadas. Normalmente estas secções são extremamente intermitentes entre as minhas miradelas fortuitas ao filme e o meu estrebuchar pela casa toda.
Enquanto os meus progenitores se desmultiplicavam numa azáfama sem fim de afazeres que culminam na saída de casa para uma ida ao mercado onde reabastecem as diversas divisões e aparelhos de bens essenciais para a sobrevivência da longa semana que vai dando entrada de mansinho, eu deambulo e saltito pela casa fora numa afã de arrumação nunca vista; à minha maneira claro!...    
Com a chegada da avó Ilda e da tia Vitalina, que hoje, excepcionalmente, vão ficar de quarto de sentinela a minha ínclita pessoa, e com os avisos avisados de juizinho Laura, vê como te comportas, sê boa menina, recomendados pelos meus papás e com o tradicional: Voltamos já e queremos saber como tu te portaste e etc e tal, amaciei um pouco o meu impulso de arrumação, sentei-me e encantei-me num príncipe qualquer de uma série qualquer dos meus bonecos da televisão, do Canal Panda, até ao regresso dos meus papás ao sacro santo lar. Normalmente, também faço parte integrante deste processo recolector de produtos domésticos, dá jeito pois atrapalho e atraso bastante o processo, percebem?... Sei que sim, por isso nem vou explicar o porquê.
Quando o pai e a mãe retornaram a casa, o almoço já cá cantava, candeia que vai à frente alumia sempre duas vezes, diz sabiamente o povo. Os marotos apanharam-se sem mim ou livres de mim e chegaram tarde, tarde é favor, chegaram tardíssimo. O que será que andaram a fazer aquelas alminhas, hum… Boa não deve ter sido!...
Sentada no sofá, descansando do muito que cabriolei, com a avó passada comigo, via calmamente o meu querido Canal Panda e eis que eles dão um arzinho da sua graça. Apre, que já não era sem tempo. Todos eles eram risinhos, mansinhos, ternurentos, felizes e contentes, pelo que, para ser solidária, e só por isso, também alterei o meu estado de espírito de contemplativo para radiante e, entre beijinhos e abracinhos lá foi fluindo o mais que início de uma tarde.             
A avó rejubilou de satisfação e, para seu gládio, logo deu às de Vila Diogo, assim que viu o meu pai a rodopiar no meio dos ingredientes para a confecção do almoço; não fosse sobrar para ela…
Almoçaram! Ou melhor almoçámos, aproveitei para fazer um almoço tipo lanche ou um reforço do almoço, como lhe queiram chamar. Era o que mais faltava era comerem sozinhos e para além disso gosto sempre de opinar sobre as coisas que o meu pai inventa; ele safa-se!... leva-lhe o jeitinho…
Apesar de em minha casa haver sempre muita coisa para fazer, para brincar, para para… ainda assim apeteceu-me ir visitar a minha avozinha Ilda. Apeteceu-me ir ver as galinhas, os patos - principalmente a minha patinha branca – os gansos e acima de tudo os cãezinhos bebés, os cachorrinhos.
Adoro, também, ir esticar a perna e ver as flores silvestres, aprender os seus nomes, sentir-lhes o aroma e a textura. Colher uma de vez em quando para oferecer à minha mãe ou às minhas avós e até ao meu pai; para ele não ficar ciumento.     
Entre correrias, gritarias, gargalhadas e brincadeiras o tempo foi escorrendo e com ele o primeiro, e verdadeiro, dia de sol desta primavera mas não só também a hora dos meus pais irem ao supermercado abastecerem-se de uma miríade de produtos para nós e para as avozinhas.
Desta vez não escapei nem resisti à avalanche e upiiiii… lá fomos nós…
Tal como não resisti à avalanche também não resisti aos abanões do automóvel e zummmmm… Apaguei!...
Acreditem foi assim sem mais nem ontem, tal e qual um “vipe” ou uma picada de uma mosca tzé-tzé. Fiz uma directinha até ao jantar, aliás até depois do jantar ou melhor até ao meu jantar, pois o papá e a mamã já tinham cumprido essa tarefa.
Limitei-me ou limitaram-me, face ao adiantado da hora, a uma sopinha. Ainda me deram a benesse de ver uns bonequitos para não ir para a cama de pança semi-cheia, dádiva que não se alongou muito no tempo e, passo seguinte: Cama, onde a mãe me leu uma historiazinha que eu ouvi em silencio, com muita atenção e agarradinha ao meu lencinho de chuchar. Volta meia e meia volta e voltou o apagão.
Dormi quem nem um anjinho. E, quando acordei, logo dei os bons dias ao domingo e aos papás queridos misturados com beijinhos.
Pois… no domingo, para variar, levantei-me um pouquito mais tarde do que é normal, o meu normal é mesmo o sábado; cedinho, por volta das 09:30 horas e adivinhem qual foi a primeiríssima coisa que eu disse, adivinhem, adivinhem…
Pois é, não adivinharam! Mas eu como sou boazinha vou dizer-vos: Pai tira-me a fralda que está cheia, só depois vieram os supraditos bons dias e beijinhos, a que se seguiu a exigência do meu leitinho com muito “xócólate” e os bonecos da Dora “Exploradora” que como DVD que é só passa na televisão do quarto onde se encontra o respectivo leitor. E, desta forma plena de classe, acabei com o sonho do meu pai de dormir mais um sono, ou ficando a fazer preguiças na sozinho na cama; paradigma de domingo. Paciência! Eu estou primeiro.
Depois de cuidar as minhas necessidades primárias; fralda, leite com chocolate e bonecos, o meu pai foi tratar da sua higiene diária, vestiu a roupa dos cães e tomou o pequeno-almoço. Tudo isto ocorreu no espaço de tempo em que eu via a Dora. Por outro lado a minha mãe andava a passarinhar por casa às voltas e reviravoltas das múltiplas incumbências domésticas que só se fazem mesmo ao domingo de manhã, senão… esqueçam lá isso.
Antes de sair, a passear com a matilha, o meu pai veio dar-me um beijinho de até já, tem esse hábito, e zus catrapus lá vai ele, com o chapéu verde azeitona de abas largas, a vara de zambujo e a canzoada, trespassando pelo portão e deixando-nos para trás. Parece, naquela figura rocambolesca, o Matusalém.  
Enquanto o meu pai dava largas às pernas e se deliciava a passear os bobies pelos campos a fora eu e a minha mãe ficámos sós em casa.
Chatice hem!... Eu que gostava tanto de ter ido, também.
Todavia, num ápice esqueci e, nada se perdeu, tudo se transformou em brincadeira, tropelia, asneira, etc… Há coisas que eu não quero aqui referir; o pudor não deixa. Coisas só minhas.
Em jogada de antecipação, a minha mãe, antes que o meu pai chegasse, começou os preparativos que antecedem a saída de casa para algo especial; o banho, o vestir, o pentear, o pôr umas “sprayzadas” de água-de-colónia ou perfume, sei lá… e com os: Porta-te bem filha, está quieta amor, temos que nos despachar princesa, etc…
Chegadas aqui, curiosa, pergunto (pois já me ia cheirando a algo diferenciado do dia-a-dia dos dias de fim-de-semana): Onde vamos mãe? Ao que ela respondeu: Almoçar a casa da avó Aurita e depois vamos assistir à procissão da Nossa Senhora da Piedade ou Mãe Soberana padroeira de Loulé.
Para ser franca do almoço eu percebi mas daquela da procissão nem pesquei um caboz… coisas de grandes, logo, para não me atrasar, pensei.
E, enquanto, nesta cega-rega, eis que o meu pai e a canzoada chegam. Vem todo suado. Chamando um, gritando por outro, assobiando aqueloutro e entre “eiôs” lá foi acomodando a bicharada na casinha deles; o canil, excepto, claro, o Syd “o guardião” e o Goya “o galã”. Para além dos cães e do bordão o meu pai trouxe um molho de plantas esverdeadas que emanavam um cheirinho divinal; o meu pai deu-mas a cheirar. Hummmmm… o que são pai? Como se chamam?
- Chamam-se poejos filha. E, são uma erva aromática que vive dentro de água, nos ribeiros e zonas alagadas. Olha! O pai vai pô-los dentro de água para depois os plantarmos no nosso quintal.
- E servem para quê pai?
- Olha filha! Podemos, com eles, fazer chá, licor, pôr na comida e até ou mesmo saquinhos, misturados com outras ervas aromáticas, para pôr no interior das gavetas e roupeiros para dar um bom cheirinho. 
Fiquei muito contente pois aprendi mais uma coisa nova e experimentei novas sensações. Ai mas que belo cheirinho têm os poejos.
Finalizada que foi a conversa o meu pai, assim como de cronómetro em punho, pois já vinha mais que atrasado, arrancou para o banho e as consequentes tarefas pós banho; ele é rápido nestas manobras.
Após pessoal banhado, vestido e cheiroso rumámos a casa da avó Aurita onde, já em desespero de causa, esperavam para dar ao “serrote ou ao corta palha” a prima Sofia, a tia Rosário e a avó, está claro!
O almoço foi borrego no forno, estava uma especialidade, adorei!... Podes fazer mais avozinha, eheheheheh…
Papado o borrego e cada um para seu lado todos ficámos a “giboiar” em casa da avó, aguardando a bendita da procissão passar.
Quando chegou a hora, a avó Aurita, veio avisar toda a gente ou nós mesmos e fomos todos, para parecermos muitos, para as janelas, onde a avó tinha pendurado duas colchas ou colgaduras, uma vermelha e outra dourada, engalanando as varandas em honra da Santa.  
Vi tudo e compreendi porque se chama procissão aquela vaga, aquela mole humana andante à frente e atrás do andor, é porque vão todos atrás uns dos outros ao mesmo ritmo ou quase, formando um fluxo contínuo e ondulante. Afinal, era uma festa grande: A festa grande da Mãe Soberana, como referiu a avó.
Depois de passar o andor com a Santinha e os outros todos que eram mais que muitos, só restaram, as pétalas das flores que as pessoas atiravam às mãos cheias (eu ajudei) e aqui e ali algum transeunte, assim como que perdido, iniciámos os preparativos de saída. Íamos ver passar a festa a outro local.               
O dia estava solarengo, por isso decidimos fazer o percurso a pé, excepto o meu pai que teve que levar a avó no carro, ela, coitadinha, está velhinha e custa muito a andar, pois tem osso que lhe magoa da planta do pé, é como se andasse com uma pedrinha dentro do sapato.
O ponto de reunião escolhido, como sucede todos os anos, foi o bar do Jaime (Bar Marroquia), na Rua Nossa Senhora da Piedade, onde a minha avó já tem reservado tacitamente um lugar para ver passar o andor e acompanhantes e, também, de onde o meu pai entra na multidão em movimento, logo atrás ao andor, para acompanhar a Santa à sua casa no alto do cerro. O meu pai e os outros dizem que vão subir a ladeira para ajudar os homens do andor a levar a Nossa Senhora a casa, ao Santuário. E, assim, lá vai ele de braço dado com o indígena do lado, no meio de vivas à Santa e aos homens do andor, só regressando quando regressam as Bandas Filarmónicas que precedem os homens do andor. Entre vivas, saltos, danças e correrias lá chega ele todo suado e afogueado.
Para o ano, que já sou grande, também quero ir.
Aí, depois do merecido (???...) descanso, chegou a hora dos caracóis, do pão torrado e das imperiais, para mim e para a avó água fresquinha, e começa a parte que eu mais gosto. Adoro caracóis!...
Este ano, juntaram-se a nós uns amigos dos papás: O Emiliano, a Fátima e a Joana, a filha mais nova. A Joana tem a minha idade. Foi amor à primeira vista, isto é, gostámos muito uma da outra, somos compatíveis, nem houve necessidade de vergonhas ou quebra-gelo, simpatizámos à primeira. Fartámo-nos de brincar, foi tão fixe.
Dos caracóis à pizza, ou seja do Bar do Jaime à Pizzaria do Renato “Loulé Pizza”, foi um saltinho, tal como foi um saltinho do lanche ao jantar. A pizzaria estava apinhada, mal nos podíamos mexer; só debaixo da mesa, e uma danada de uma algazarra pairava no espaço, enchendo toda a casa de um barulho ensurdecedor. Todavia, festa é festa… e neste ambiente festivo e ruidoso, devorámos o pão de alho e as pizzas e mais que fosse…
Finado que foi o jantar; contas pagas é claro, tive que dizer adeus à Joana e à brincadeira, o que não foi muito do meu agrado, diga-se.
Seguidamente o meu pai foi buscar o carro onde todos nós nos enfiámos, rumando a casa mas, todos, a avó, a prima, a tia… hummmmm estranho mas… Fiquei-me sem perguntas. Mas estranho mesmo foi o meu pai parar o carro a meio caminho de casa e depois manobrá-lo para que ficasse voltado para a vila – Loulé é uma vila só que, não sei porque carga de água, insistem em lhe querer chamar de cidade, palavras do meu pai.      
Apesar de mortinha de sono e desconcertada com tão aberrante e incomum paragem ainda me ia animando com a prima Sofia em brincadeiras de espaço exíguo. Estávamos nós neste jogo de gato e rato quando oiço um descomunal “pum” seguido de vários outros “puns” de menor intensidade, porém mais frequentes no tempo e um mundo de luzes coloridas no céu. Assustei-me, claro! Não fazia ideia do que estava a acontecer, até parecia que o tecto do mundo ia desabar em cima das nossas cabeças ou melhor do tejadilho do carro. Fiquei cheiinha de medo e comecei a dizer, repetidamente, ao meu pai: Avança, avança,…
Eu estava com medo e ninguém entendia. Todos me falavam em fogo-de-artifício e apontavam para o céu, dizendo: Olha. Como se eu estivesse cega. Acontece que eu não queria nem ver nem ouvir nem tão pouco saber. Eu queria mesmo era ir para o conforto e segurança da minha casa.
Fiquei impermeável a palavras e explicações, os meus ouvidos ficaram surdos ao que quer que fosse que não aos estrondos no céu e os meus olhos cegos que não para as luzes que enchiam a noite de clarões e o meu coração de pavor. Conclusão: O chinfrim só terminou quando o carro iniciou o movimento que tanto tudo em mim ansiava e gritava: O avança, ou seja quando o carro começou a avançar na direcção a Loulé.                      
E, no meio de choradeira e gritaria; nada me consolava, o meu pai avançou.
Primeiro na direcção de Loulé, onde parámos em frente da casa da avó e descarregámos esta, a prima e a tia. Depois regressámos para a nossa santa casinha. Aí eu já ia mais contentinha, o achaque já me tinha passado e tudo estava de pouco a pouco a retomar a normalidade. Apre não gosto de fogo-de-artifício!
Já em casa foi envergar o pijaminha e vale de lençóis…
E, voilá, terminou o meu fim-de-semana quase, quase a iniciar-se a semana, eram precisamente 23:58 horas quando assentei arraiais na almofada.

 tÓ mAnÉ   (in Laura Solange dixit) - 2013.04.(13,14)

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Recomeço


Arrasto.
Cansado arrasto
Este meu corpo dorido
Este meu karma entretecido
Que pesam
Como manta, negra, de feltro e lã,
Urdida.
Demolhada, encharcada na dor
Que verga o corpo e vexa o fado.
Levanto-me e deito-me
E, a puta, da manta, não me deixa
Como se fosse uma “mantiderme
Atormenta-me as noites
Transformando o seu peso em pesadelos
Acorda-me para um novo dia
Tal e qual o anterior e o ante anterior
Despertando-os para o mal-estar
Para o suplicio.
Ainda assim, arrastando-me
A cada manhã, ergo-me, para mais um dia
Abro para um mundo, desumano
(não que ele assim o mereça)
Um sorriso,
Uma farsa de bem-estar
Assim, a mim o devo
Assim, a mim o exijo.
Quando o sol já desce em ocaso
A noite a preparar começo
Pois talvez amanhã
Não haja acordar
Não haja recomeço.

tÓ mAnÉ     Style

Já alguma vez…


Já alguma vez rezas-te?...
Rezaste a Deus com fervor?...
Ou, será, que fizeste tentativas?...
Vãs, oportunistas, desesperadas, insanas
Convenientes, talvez?...
Onde andava, egoísta, a tua vontade?...
Dispersa! Sempre dispersa…
Divagando! Sempre divagando…
Le vol de l'oiseau.
Já alguma vez rogas-te?...
Rogaste a Deus com amor?...
Ou, ignorante, impretaste mundialidades?...
Irreflectidas, inconsequentes, obtusas
Abjectas, talvez?...
Onde vogava, ensandecido, o teu saber?...
No comezinho mundinho teu?
Na luta que divorcia o Homem de Deus?
Quem és?
Quem somos?
Ímpios? Laicos? Ateus?...
Grito por ouvir a Palavra de Deus
(seja Ele quem seja, não importa: Deus é Deus)
Grito!
Grito por mim e pelos meus
Grito por ti e por todos
Grito por Deus.

tÓ mAnÉ   Style

Vinte cêntimos


Aguarda expectante
Na bicicleta sentado
Que termine a conversa
Entre deus e o diabo.
Impaciente do vício
Estende a mão mendicante
Suplicando por uma moeda
Dois pares de olhos viram-se!
Acutilantes observam
Um mais duro e soberbo
Dá as costas na resposta
Outro mais contrito
Deita a mão canhota ao bolso
Retira seis moedas
Dentre elas, uma escolhe  
Vinte cêntimos.
É para o vinho logo pensa
Esta alma caridosa
Mas… vinte cêntimos para a droga?...
Vinte cêntimos são tão pouco
Não chega nem para o pó nem para a nódoa
Não dá risco, não dá gole
Na narina, no pelo, presa não fica
Na camisa não se nota
Tão pouco para, inconsciente, de borco cair.
Avaro, ruge o cérebro, altaneiro
E, a mão, independente, volta ao bolso
Nela brilha mais um níquel
E, na face do pedinte, um sorriso escaninho
É um euro ou cem cêntimos
Que tilintam junto aos vinte
Já compõe o ramalhete.
Agradece e, pausadamente, retirasse
Buscando mais uma alma caridosa
Pedalando com o seu pé coxo.
Seguindo o titubeante trajecto
Logo o piedoso pensa:
Ora aqui… ora ali… o pecúlio vai crescendo.
Vinte cêntimos…
Até para a água é pouco.   
Compadecido sorri e sorrindo faz o seu caminho.

tÓ mAnÉ   Style