Ovo de sol - desabrochar; sombra, que mão tu me trazes? Presa a essa luz que me fascina, perdição do meu olhar sobre um pouco de tudo, disfarçado na ignorância do pós-além, sem que, realmente, de nada veja!... Oh! Silhueta de mundo, desvenda os teus mistérios, pousa-os na palma da minha mão, perdi-me quando sobre ti derramei o meu olhar, que nublado me quitou da realidade, transferindo-me para a essência diáfana da tua perda neste romper de emoções que de mim e em mim explodiu... tÓ mAnÉ
segunda-feira, 24 de março de 2014
Emboscado de mim
Emboscado, aguardo
Quero surpreender a minha alma,
Sem préstimo, que deambula
Por um mundo sem espaço.
Neste embuste vívido
Que é o meu corpo gasto
Embosco-me de mim.
tÓ mAnÉ Style
Luna
Luna, lua tua,
De luar me banha
Canalha, de ti, assim,
Safado, o meu corpo,
Clama!...
E, a razão, aconselha-me…
E, a razão, implora-me…
Que,
Não escreva, assim,
Em chama!…
tÓ mAnÉ Style
Subitamente “Importantes somos todos nós!!!”
“Importantes somos todos nós!!!”, às vezes fico extasiado quando me deparo com uma frase, simplesmente, avisada e lúcida no meio de toda a panóplia de insanidade verbal que orbita, infestando e poluindo, o meu entorno. E, então, subitamente, perante tão claro e sútil uso do verbo, dou por mim especado, admirando, e embasbacado, pensando: Será que o comum “embelezador de paredes incautas” compreende melhor a realidade cósmica, irrefutável, e a nossa realidade mundana, inquestionável, do que toda uma comunidade política e/ou politizada à qual se junta uma súcia de “opinion makers” e “opinion leaders” de circunstancia, proveniência e de índole duvidosa?...
tÓ mAnÉ Editions
O meu mundo tem dois sóis
O meu mundo tem dois sóis…
Um que brilha esplendorosamente para os afortunados e outro que tremeluz, esbatidamente, para os esquecidos.
Um que não consente que a noite acenda os seus medos e outro que oculta os dias cintilantes enchendo-os de terrores múltiplos.
No meu mundo, que tem dois sóis, nada está correcto e harmónico.
Morrem os obesos e os famintos e os outros também.
Porque um sol, para realmente o ser, tem que ser fonte de vida. E, no meu mundo, assim o não é.
Todavia, no meu mundo, há um sol que cria, enquanto outro há que mata.
Há o sol da paz, da harmonia e da prosperidade e, em contraponto, há o sol da guerra, da miséria, da fome e da destruição.
Sóis diferentes para gentes diferentes: O sol dos ilustres e o sol das plebes.
Há o sol dos brancos e dos negros que é diferente do sol dos amarelos e dos vermelhos. Poderíamos misturar de outra forma as cores, pois esta foi aleatória, que os sóis não mudariam, ambos continuariam muito iguais a eles próprios.
Face a este problema incontornável e dualista e, como o mundo é meu, vou dar-me ao luxo de desenhar um sol, um sol que banhe todos de igual forma, mas que consinta o respeito pelas suas diferenças e pelas suas culturas.
Não sou Deus mas Este deu-me o aval de criar, o livre arbítrio de consciência e o dom da imaginação. Recorrendo a eles vou conceber um terceiro sol: O sol da igualdade, da justiça e da solidariedade.
Um sol mais abrangente quer no âmbito quer no conceito. Um sol raiz de todas as coisas. Um sol para todos e não só para alguns. Um sol piedoso e misericordioso. Um sol pleno de abundância e destituído de mínguas. Um sol que ri e chora quando a isso é compelido. Um sol mais humano quanto toca tudo e todos. Um sol que acarinha e alimente a diferença, donde floresce o fundamento do mais profundo saber. Um sol que admita a noite e a lua, como seus pares, não lhes restringindo quer direitos, quer deveres. Um sol que brilha intenso, mas que se sabe ocultar quando é necessário que chova. Um sol que deixe viver e morrer com a dignidade inerente ao ser e ao saber.
Em suma um verdadeiro sol. Regente e magnânimo para todos os seres vivos e matéria morta.
Nasce sol meu.
tÓ mAnÉ Editions
Completa(mente)
Completamente irritado! É assim que posso definir, de momento, o meu estado de ânima. Depois de ter passado uma noite atribulada e mal dormida, remoendo, remordendo, deglutindo e ruminando o maldito do sapo que, subtil e subrepticiamente, me foi enfiado, na véspera, pelas goelas abaixo, sob o título pomposo de elucidação.
Não vou aqui falar do sapo pois cada um tem os sapos que merece e quando os engole tem duas opções: Digeri-los e cagá-los ou vomitá-los na cara de quem nos impingiu tão viscosos animais.
A minha peleia é outra que, apesar de inglória e solitária, é uma peleia, uma luta, contra o inconformismo e em prol do intervencionismo quer cívico quer político.
Devo confessar que, a cada dia que passa, a minha solidão cresce. Cresce quando, pela manhã, vejo ou oiço as notícias, quer na televisão quer na rádio. Cresce quando chego ao local de trabalho e vejo o conformismo estampado na desilusão de cada um. Cresce quando à hora de almoço, no restaurante ou em casa, revejo as pseudo notícias no ecrã policromático ou da caixinha de fabricar ilusões. Cresce quando chego a casa, cansado, e mais “crescido” e sou malbaratado ou ignorado. E por fim cresce quando à noite tenho insónias ou noites mal dormidas; empanturrado de “ensapadas”.
Almoço só ou acompanhado pelas palavras que escrevo que, há muito, são as minhas amigas, mulheres e amantes. Enquanto confidencio os meus silêncios e as minhas mágoas ao meu velho, todavia sempre novo, bloco de bolso e a cada trago de tinto que furto ao fundo abaulado do copo, sempre meio cheio, que cúmplice, não se manifesta, não se queixa, nem reclama, entrega-se ao sacrifício de mim numa rendição incondicional.
A cada dia que nasce, renasço na esperança vã que as notícias da 08:00 horas me noticiem a mudança para que façam minguar este ímpeto solitário que em mim todos os dias renasce, cresce e me cava na alma, a covato, onde aos poucos vou, solitariamente, cultivando, salpicados, os cardos da minha insatisfação.
Não logro um sorriso faz muito tempo. De rir, abertamente, tão pouco me lembro e gargalhar… nem de chacota pois esta, por norma, é indecente.
Os sabujos da política e os políticos retiram ao meu âmago a alegria. Sugaram-me os conhecimentos, apropriaram-se deles enquanto conhecimento próprio, trajam-nos, na vã tentativa, de cobrir, de vestir a sua desnuda ignorância, fazendo, assim, da sua mediocridade uma forma inteligente de um não o ser. Usaram. Usurparam. Fizeram seu o que era meu. Venderam-me, como se escravo fosse. Privaram-me do privilégio do ser meu em prol do ser seu.
Sanguessugas nojentas que vivem, na conveniência do regime, independendo de qual, com, e de, o saber e o trabalho de quem sabe, de quem por inconveniente é muito conveniente manter na sombra. Aí, nessa noite eterna, onde produzem a luz com que alumiam, fascinam e encandeiam quem tem a coragem de nos seus olhos os olhos de frente pôr, quem os ouve fingindo-se comovido quando na realidade está bebendo para regurgitar onde devido e, pior, quem lhes deixa por convir, espaço para criar mas, apenas o suficiente, para que, da nascente oculta, a água fresca possa brotar, sempre renovada, alimentando os vampiros da ignorância que, decumbentes, o chefe de clã vão bajular e alimentar.
A informação, o conhecimento, o saber fazer, como vós sabeis, é cinzento, na sua génese, não é preto mas tão pouco branco tão pouco e de transparente nada tem, por vezes, poucas, translúcido mas na sua ingente massa critica é, infelizmente, tenebrosamente opaca.
Assim, a mediocridade gera uma mediocridade ainda maior pois, só assim, a mediocridade poderá medrar. Cresce, eleva-se e sobrevive graças a uma luz que permanece, obrigatoriamente no escuro, na penumbra, no outro lado da realidade, no backstage, fora do alcance das luzes de ribalta, onde não ofusque o brilho baço, mate dos actores principais que lhe sonegam, quer uns quer outros – actores principais, secundários e figurantes – a possibilidade, ainda que exígua, de sair da solitária, de refulgirem, ainda que uma só vez.
tÓ mAnÉ Editions
A imponderação do inconsequente
Será que um inconsequente pondera os seus actos e decisões? Será?...
Será que pondera as consequências, o impacto e o impacte, na vida alheia, das suas irreflexões? Será?...
Será que lhe é indiferente a sujeição a que obriga quando imponderadamente decide por si só? Será?...
Será a arrogância da ignorância? Será?...
Assusta-me pensar na imponderação!
Aterroriza-me a impiedade dos inconsequentes!
A simples possibilidade de reflectir, sem leviandade, na imponderação e nos inconsequentes arrepia-me! Arrepia-me até aos ossos! Sobretudo, por bem saber, que a imponderação dos inconsequentes é analisada até à ultima das consequências – ponderam inclusive o imponderável – pois a inconsequência dos inconsequentes é medida, cuidadosamente, para evitar a não afectação da mesma aos actos praticados e às decisões tomadas pelo actor material da imponderação ponderada à exaustão. Assim, o inconsequente de si vincula as inconsequências a outrem, marginalizando-se das imponderações perpetradas. Existindo, portanto, numa vivência longínqua da efectivação da acção. Distanciando-se, prudentemente, da realidade substantiva da consequência. Viaja na proporção inversa da razão causa efeito. Volatiliza-se, sublima-se, imaterializa-se, ao momento, conforme as necessidades factuais produzidas pelo efeito causado.
Neste mundo de imprevisibilidades capacitaram-se e dotaram-se de meios de inversão e subversão do acto, da decisão, da atitude e até da palavra, remetendo-os ao âmbito da imprecisão ou arremetendo-a em ombros alheios.
Não carregam substância, nem detêm substrato. Caminham leves e desenraizados. Esgueiram-se! Navegando entre uma indefinição perpétua do verbo e o consequente imponderável. Para eles a culpa é sempre abstracta e nunca adjectiva – foi uma questão de semântica, foi uma questão de leitura, o objecto do verbo foi descontextualizado, subvertido, pelo que irremediavelmente perdido no contexto da sua inserção,…
Na verdade quem se atreveria a pensar o que é impensável?... Ou ponderar no que é imponderável?... Ou ainda questionar o que é inquestionável?... Ou mais dizer o que é inefável?... No mínimo seria apodado de atrevido ou audaz e no limite ascenderia até ao limiar superior da loucura.
Contudo, a resposta é assaz simples: O inconsequente!
E porquê?
Porque, o inconsequente, por impoluto e avisado, por inimputável e impunível e pelo uso exímio das qualidades suso referidas, que, para os mais desatentos, volto aqui a dar realce, por as querer inesquecíveis: Volatilidade, sublimidade e imaterialidade.
Afinal quem se atreve a punir um louco em seu perfeito estado de saúde mental?!... A medicina não atesta e a justiça não ousa!...
E, desta forma ligeira, entre as gotas da chuva, no meio duma saraivada, o inconsequente, passa incólume, enquanto as consciências desarmadas de tão portentosas ferramentas, ficam encharcadas até aos ossos, vitimadas pelo objecto, pela matriz, pelo vector da imponderação pérfida e sórdida dos inconsequentes.
Todavia, louco é aquele que no seu perfeito juízo dá aval e crédito a tamanho prejuízo. Aquele que lega e delega, por sufrágio universal, semelhante responsabilidade à criatura boçal; imponderação consequente por quase todos vista enquanto um processo ou uma causa natural: A democratização do poder desmedido da besta colossal.
tÓ mAnÉ Editions
Morena
Beijada pelo raio de sol,
Tua pele, morena, é sumaúma.
Solto, em teus lábios,
Brinca inocente, morena, doce sorriso.
Presa no teu olhar, morena,
A felicidade, estampada no rosto, reluz.
Teus cabelos, morena,
Molhados de gel, brilham, ofuscam.
Morena, teu corpo ondula,
Ao sabor do samba,
Que arde no teu sangue,
E, magnânimo, entrega-se,
Derretido, morena,
Tal como (gel)ado de manga rubra espada.
Deixa-me, morena,
Deixa-me, que cheire esse teu odor
De mato ancestral.
Deixa-me, morena,
Deixa-me, sentir o teu sabor.
Deixa-me, morena,
Deixa, de ti o meu paladar saciar.
Ó, morena, de unhas de gel,
De vermelho pintadas.
Deixa-me, morena,
Deixa-me, senti-las assim afiadas,
Morena!...
tÓ mAnÉ Style
14
Dois pensamentos de 14:
1. Ademais, muita gente te disse que és uma mulher lindíssima!...
No entanto, permite que te diga aquilo que,
Salvo raras e honrosas excepções,
Ninguém te disse:
“A tua beleza para além de extrínseca é outrossim intrínseca, é o casulo que contém a crisálida que abriu um dia, na borboleta que os outros vêem”.
2. Não cansa olhar teu lindo rosto!...
Deus na Sua eterna sabedoria,
Sabe bem o que faz!...
E, se por alguma eventualidade não te ofereceram uma flor fica esta à laia de exemplo.
tÓ mAnÉ Style
segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014
Três tristes textos (Protesto e/ou a graça?!...; O Sr. Birra; Apetites de ser)
Protesto e/ou a graça?!... --
Não passa um só dia que eu não proteste. Tal como nem um dia só se vai que não dê graças a Deus. Protesto e agradeço em doses diferentes e consoante a vontade mo exige.
O dar graças dá-me ânimo para protestar. O protestar traz-me as bênçãos e as dádivas de Deus de que necessito para continuar este périplo diário, sem me sentir manipulado por cruzes e fios de nylon, tal e qual uma marioneta, neste teatro burlesco em que todos vivemos e em que o espectáculo somos nós.
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O Sr. Birra --
Hoje trouxe o meu adorado bloco de notas, reticente, devo confessar, teria, melhor optado pelo meu livro de leitura ou talvez pela companhia de alguém. Mas, teimoso, agarrei-me às letras pintadas neste fundo, apesar de nada me ocorrer para o preencher. Limito-me a construir palavras e a soldar linhas com elas; forjar frases avulsas, sem sentido, conspurcadas pela ausência de imaginação.
Deveria ter a decência, se é que ela é para aqui chamada, de não encher de desabafos desconexos estas folhas virgens, puras que merecem bem mais que uma sujeira, uma diarreia mental, uma descarga (maus humores figadais) biliar ou algo bem pior, quiçá, uma demência momentânea. Pois, na verdade, até parece que estou tomado pelo Sr. Birra, que, usualmente, costuma afectar os bebés e garotos de tenra idade e até os vovós, como também a classe política e outras vedetas afins ou ainda algumas mulheres na temporada da “chica”.
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Apetites de ser --
Apeteceram-me “pucarinhas” assadas em chapa quente com uma pitada de sal ou uma folhinha de toucinho fumado, até parece que estou prenhe. Prenhe de uma vontade enorme de mudança – mudar de estilo de vida. Ser mais, melhor e diferente. Ser farol num mar ausente. Ser música soprada, expelida, escorrida da boca de um vulcão activo, não em erupção. Ser névoa que absorve e bane a mentira em nós contida. Ser sólido, aquele que abala todos os padrões da geometria. Ser luz, aquela que perfura a noite da loucura, da insanidade dos Homens. Ser aquele, que não Deus; Esse, divino, não castiga, perdoa na Sua eterna magnificência, que ergue a gadanha e faz a (in)justiça que a justiça não se atreve a fazer. Alfim, ser aquele que veste de amarelo quando a moda é vestir preto.
tÓ mAnÉ Editions
No Zé dos Matos
No meio, ou no seu mais ou menos, da segunda intervenção do segundo painel do Colóquio “Metamorfoses do Campo e da Cidade”, por volta das treze horas e trinta e tal minutos e, após uma considerável diarreia literária, em módulo de leitura de autor, inacabada, que versava sobre arrogante e vã tentativa de estreitar o campo à cidade, através de alegorias e extractos de poemas e textos, de Virgílio, de Almeida Garrett – Folhas Caídas – ou mesmo Eça de Queirós – A Cidade e as Serras, desabafo um pouco mais alto que o que conviria à ocasião ou ao evento: Socorro! E, acto imediato, levanto-me e saio com cara de desagrado.
No caminho entre o auditório e o automóvel, faço uma pequena passagem e paragem nas instalações sanitárias. Mijo. Inspecciono o prepúcio que, após os abusos e maus-tratos da véspera, estava-me a provocar um ardor incómodo. Nada detectei de anormal, nem sequer um vermelhão ou um prurido que fosse. Botei a gaita à cueca e corri o zip das calças, lavei as mãos e propus-me ao caminho.
Sentado no carrinha, ainda estacionado, com o estômago a roncar por um reforço ao pequeno-almoço, apesar das bolachitas e dos bolos do coffee break, e contemplando a luminosidade deslumbrante do dia que me entrava como um flash luzente na alma, bem como a temperatura amena que se fazia sentir inobstante a época do ano; início de Novembro, uma ideia desatou a bailar na minha cabeça: Estou no parque de estacionamento da Universidade Campus das Gambelas, não vejo o mar há já algum tempo, estou só e sem compromissos, e o tempo, por si só, até convida, porque não hei-de dar um pulinho ao Restaurante Zé dos Matos em pleno Parque Natural da Ria Formosa, na Ilha de Faro?... E não havendo um porque, o rumo, tal como o destino, estava traçado.
A viagem é curta, como curta é distância entre os pontos da partida e da chegada, agradável, onde se beneficia de uma paisagem maravilhosa e de uma fragrância inesquecível da Ria Formosa em plena baixa-mar, contrapondo com a estopada do colóquio entre o bulício da cidade e o bucólico dos campos.
Foi com uma enorme sensação de bem-estar e uma satisfação inefável que vi deslizar, pelo exterior dos vidros da 308 SW, os contornos da ponte que liga a zona do sapal à estreita faixa de terra que a separa do mar. Deslumbra pela fragrância peculiar da brisa a maresia, inquinada pelo almíscar do matope das zonas alagáveis, agora descobertas, que enche, preenche e turva os sentidos enquanto circula livremente atravessando os vidros abertos da carrinha.
Estacionar, foi mesmo à porta do restaurante, apesar do sexto dia, da sexta-feira, do mês de Dezembro, do ano de 2013; É a crise, dizem uns e a oportunidade dizem outros, mas de que importa isso afinal, para eternizar, o meu momento de felicidade?... E, eis-me à porta do conhecido Zé dos Matos e, isso sim é que é assaz importante. Uns passos mais e descubro-me a escolher, sob orientação, uma mesa no avançado coberto que, na realidade, se encontra posicionado nas traseiras do estabelecimento e, que permite uma ampla visualização, um privilégio único, da Ria de Faro e da ponte de acesso à ilha, que de facto não é uma ilha mas sim um istmo. Nesse momento, assalta-me a cabeça a seguinte ideia: Deus é grande, é bom, é pai, é negro e é fêmea.
Obedecendo, sentei-me onde me foi indicado - na mesa já por mim, mentalmente, pré-definida - ou seja, em qualquer uma das mesas livres que, por sinal ou mau sinal, eram o universo de quase todas, triste sinal dos tempos este, pois em tempos idos sem marcação havia que esperar e desesperar ou levar na cara com um redondo estamos cheios, atirado em surdina, pelo empregado que, em vão, tentava empregar ou envergar o melhor de todos os seus sorrisos.
A maré, entretanto, já enche. Assim ditam, para quem sabe um pouco de marinhagem, as proas dos barcos que se viraram a nascente, para a foz em estuário.
Abro o cardápio, rebolo os olhos sobre ele, donde, sobressaem, quatro iguarias, que de imediato, despertam a minha gula, provocando-me um rosnar surdo no estômago, avisando-me do adiantado da hora. Ovas fritas, “eirózes” (assim estava escrito, onde é que já se viu um menu sem erro, até parece mal) fritas, arroz de lingueirão e raia de alhada, e o meu estômago famélico rebolava.
Pouso a lista na mesa. Acorre de imediato o empregado. Inteiro-me se poderia pedir uma mista de ovas e eirós ou irós ou ainda enguias, todavia nunca “eirózes”, acompanhada de meia dose de arroz de lingueirão ou langueirão. Pesaroso, o empregado, responde que não. Aí opto, entre um piado, deambulante, de uma gaivota que passa pairando no vento e um olhar de relance à ponte, pela raia de alhada, afinal estamos no tempo dela, da raia, não menstruada; na gíria, dizem que, a raia está menstruada quando a raia adquire uma tonalidade avermelhada, durante o período de eclosão larvar que ocorre entre Fevereiro e Agosto e, que durante o mesmo não se devem comer.
Para acompanhar peço três quartos de um branco fresquinho – Vinha das Servas 2012 da Herdade das Servas; um alentejano encorpado e frutado, vai bem com o prato escolhido, faz-lhe a cara.
Aguardo. E, enquanto isso, resolvo começar a derramar imbecilidades sobre o meu bloco de notas; tinta que agarrada a ela traz mais tinta, fazendo do compasso de espera um acto de entretenimento pseudo-intelectual. Inicio a escrita. Observo quem me rodeia. Todavia não vou por aí. Eis que esvoaça um fiapo de ideia na minha mente: É contumaz, estou sozinho, que mais hei-de fazer que não roçar pelo papel a esfera da esferográfica, tombando nele os meus pensamentos soltos, esvoaçantes tal como balões de hélio livres de peias, e observar quem e o que me rodeia, entre um copo de vinho, um sorriso solitário, talvez até patético.
Eis que o tacho em alumínio faz a sua entrada triunfal na sala e aterra pleno de classe sobre a mesa, libertando um odor acidulado, todavia maravilhoso. É o acepipe que chega para libertar do sofrimento o meu estômago já rancoroso que entre um urro e um ronco, exige o que lhe é de direito.
E, assim, dei o início a um intervalo para o abuso…
Generosa é a palavra que define a dose e generoso foi também o abuso; foi enfardar à fartazana como o bom povo diz. Cometido que foi, comido e bebido, assim o está. Só peço a Deus que não me caia em mau saco e não me meta em alhada alguma, pois a cozinheira carregou no vinagre da raia, no que concerne ao meu estômago e ao meu gosto singular. Quanto ao resto, impecável, o café já fumega, e para meu conforto, bom de tragar, LAVAZA grita a chávena, porque hei-de duvidar?
Quinze e dez brilham nos ponteiros do meu Citizen Eco-Drive, peço a conta; a “marafada” como se fala no meu Algarve. Pago. Não reclamo como é meu uso. Mijo, lavo as mãos, e saio.
O regresso nem sempre tem mais encanto tal como a despedida e, foi o caso, pois não me apetecia regressar nem tão pouco despedir-me. Queria mesmo era ir sonhar, enquanto marcava, aleatoriamente, as minhas pegadas na areia molhada da beira-mar.
Incontornável. Tive que abrir mão dos sonhos e voltar a pôr os pés no chão.
A maré, na força da enchente, impou, ganhou espaço, espraiou-se pelo sapal, o cheiro a maresia almiscarada, apesar do levantar da brisa em vento, quase se dissipou, até o caminho de regresso parece que aumentou.
O colóquio espera-me para um terceiro e quarto painel, intervalados por um coffee break. Chego atrasado mas daí não advém mal.
Agora, entediado, no anfiteatro sentado, toda a magia se esfumou. Abla una española, num “españolez”, sobre um projecto na bacia hidrográfica da Ria de Alvor, todavia longínqua voga a minha alma, voga solta e sonhadora…
Rezo!
Rezo para que o sono não me dê e, se me der que não durma e, se dormir que ao menos não ressone e, se ressonar que sejam todos surdos ou que ninguém esteja atento ao acto…
tÓ mAnÉ Editions
Forjador de vidas
Tentei, incongruentemente, juntar os pedaços da minha vida e fazer deles um mundo igual a todos os outros mundos mas o infortúnio de ser desigual aos demais não me permitiu tal veleidade, obrigando a que o puzzle dos meus dias e, a cada dia, não se completasse como assim o destino o predestina.
O decorrer dos dias fez correr os anos e o número de peças soltas foi, atormentadamente, aumentando e, o que de início, não passava de um mero buraco, ou dois, soltos, na pequena grande folha das vinte e quatro horas, com o vazar dos tempos, cada vez mais as peças faltavam, ou sobravam, ou simplesmente estavam desajustadas ao puzzle e os espaços em branco engrandeciam, rasgando os meus dias como grandes clareiras num bosque, abrindo vazios, inexpugnáveis e insondáveis, em mim, desanexando-me e desindexando-me das páginas (constituídas por doze horas) e das folhas e por fim, lavrados que foram os anos, do próprio livro fui, lentamente, expurgado, até apenas uma reminiscência de mim perdurar, teimosamente, sob a forma de uma áurea diáfana.
Hoje, recordando de longe, do local onde me refugio em segurança, reconheço que as folhas eram formas de estar e as peças soltas os elos que deveriam encaixar-se numa realidade diferente, um painel de outro livro, o livro da vida que deveria ser mas, não era, a minha, eram as peças desajustadas e as que sobravam (por pertencerem ao mesmo tempo a duas realidades, a duas vidas separadas, eram as peças coincidentes) que completariam os brancos livres das folhas incompletas que formariam um outro livro de uma outra estante nesta biblioteca, neste arquivo semi-morto, da vida. Esta seria a recôndita prateleira da estante onde guardaria o livro que deveria ter sido a minha vida, vida inscrita, a ferro e fogo, nestas peças, irrecuperáveis, que foram atiradas nas profundezas do tempo, recalcadas, humilhadas, todavia nunca esquecidas. Esta prateleira seria, dessas peças o cemitério, e era lá que deveriam, libertas, serenas repousar e descansar eternamente.
A vida que (sobre)vivo misturou, na sua infinita ignorância, estas duas nefastas realidades, criou um mundo desequilibrado, pleno de lacunas, brechas e clareiras, inquinado, que viaja permanentemente de um eu que não era EU, para um NÃO EU que era no final eu e, neste périplo sem fim à vista, a insatisfação vai galopando desenfreada dentro de um ser híbrido, um eu-nim-EU, perdido, inexoravelmente, entre o ser e não SER e, irremediavelmente, atirado no mundo do estar sem que na realidade lá permaneça; divaga no mal-ESTAR indeterminadamente.
Esta duplicidade de SER por não ser conduz a um percurso sinuoso onde, a rebelião, sufocada pelo sentido de responsabilidade apegado ao não mundo que a própria vítima cria ou deixa criar, assume-se, com a travessia dos tempos, como um coma induzido. Esta artificialidade, no entanto e contrariamente ao coma induzido, vegeta, inconsequentemente, entre explosões de ira incontida e uma paz em banho-maria e, assim, vai-se afundando numa depressão reprimida, estudada, todavia nem sempre domada e contida.
Vejo nestas palavras um homem quebrado pelo silêncio, pela violência das palavras surdas sopradas ao vento, jamais expressas, impostas pelas memórias de um EU, irremediavelmente, perdido nas peças que cada folha, impreenchível, largou a estagnar, a apodrecer nas poças e nos charcos existentes nas clareiras dos bosques, que resultaram das lágrimas impostas que os alagaram. Deixando, inacabado, na prateleira da estante mesmo ali ao lado, um livro, a história do meu EU, a história de alguém que não este boneco, de vida, animado.
Porque me entrego assim?... Será uma rendição?... Ou será antes uma consequência directa deste circo, desta arena de areia sangrenta, onde me vejo como o chacinado e nunca como o gladiador vencedor?... Será que estou alquebrando e deixei que fosse traído e ultrapassado pelas subtilezas da vida?... Esta mesma vida pela qual passei e passo ao de leve, deixando mesmo parte dela por viver, parado num marasmo basbaque de quem nunca viu aquilo que já nada tem para ver.
Contorno partes, noutras porém passo as folhas relegando as peças mais inconvenientes, tentando esquecer as que supostamente não interessam, ou as que tomo por irrelevantes por conveniência, ou ainda largando-as no branco e preto da indiferença por descabidas. Assim, faço e desfaço a meu bel-prazer, as lacunas, as clareiras, as partes brancas e, vou fingindo a vida que vivo, vivendo uma vida que não é, necessariamente, a minha, abandonando a vida que deveria viver, vivendo na penumbra duma vida que não é minha.
Quem sou eu?...
Um forjador de vidas indevidas?... Ou a improcedência do bem e a inconsequência do mal?...
Quem sou eu afinal?...
tÓ mAnÉ Editions
Crónicas FDS da Laura - Registo XVII
Pois, pois, pois o sábado já abriu alas pelo corredor, estreito, da minha herdade. Quem vem lá, quem vem lá? O fim-de-semana e com ele, aos trambolhões, as minhas crónicas de FDS.
Parecida, semelhante, quase igual, aproximadamente análoga com todas as outras manhãs de sábados, assim foi esta manhã de sábado. Uma repetição do que já é repetido, um eco, uma reverberação próxima mas também tão longínqua, um aperceber desapercebido.
Começou, tal como no sábado passado, com o pequeno-almoço na mesa da rua, do pátio da cozinha, sobre uma enorme sombrinha ou chapéu-de-sol ou pára-sol, azul, desbotado de outras épocas, que a minha mãe resolveu montar junto à mesa para tornar mais agradável a nossa estadia; o sol já vai picando. Comemos o mesmo de sempre, para variar, claro. Eu devorei o meu leitinho com muito “xicólate” e a mãe, lambuzou-se, com uma tosta mista, um galão caseiro e um sumo de laranja natural, feito na Bimby, aquela maquineta infernal. Quanto ao meu pai: Na cama na ronceirice.
Adivinhem quem nos veio visitar logo pela manhã? Pois não adivinham, faltam-lhes os dotes, mas eu digo-vos: O Ioan e a Maria, fiquei muito contente – a Maria cresce a olhos vistos de dia para dia e, cresce para a frente e para os lados. Ela está descomunalmente grávida, e vai ter um menino. Tenho que lhe perguntar se ele ainda se vai chamar Alexandru, acho o nome tão estranho para um bebé pequenino.
O Ioan, mal bebeu o café, foi logo trabalhar, deve ter combinado, da última vez que cá esteve, algo com o pai, coisas lá deles e das quais não percebo patavina. Apenas ouvi falar em arranjar a campainha e o videoporteiro que estavam avariados há mais de um ano; as coisas aqui em casa são assim: Se não faz muita falta pode esperar, está-se bem! Agora que estou a falar neste assunto recordei-me de uma coisa que achava muito curiosa e engraçada que vou partilhar convosco: Sempre que o conserto do videoporteiro vinha à baila ou pela boca da mãe ou pela má-língua da avó Ilda, o meu pai respondia invariavelmente: Assim não me chateiam! E encolhia os ombros como que a atitar o tema objecto da observância para trás deles, os ombros. Que será que ele queria dizer e mostrar, pergunto-me.
Estávamos, eu a mãe e a Maria, o mulherio, comodamente sentadas à mesa de pequeno-almoço, quando, vai de lá senão quando, apareceu a avó Ilda - ela está avelada, olhem-lhe só o aspecto, o ar - numa de quadrilhice – assim que denota algo ou vê alguém que não é usual acontecer ou aparecer, ou seja, que sai um pouco dos costumes da sua loucura do dia-a-dia, vem logo meter o bedelho. Está-lhe no sangue, que fazer?... Mas verdadinha dita até que este comportamento, coscuvilheiro, dá um certo jeito. É como ter um polícia em casa ou mais ou menos, pois ela não foge e dá o alarme e o polícia mais ou menos.
Já o tempo tinha feito rodar o sol quando, estremunhado, de pijama e coçando o “sim senhor”, apareceu o meu pai para se juntar a nós. Altura em que o Ioan também deu por encerrada a tarefa. Finalmente a campainha, de cujo som já me havia olvidado, e o videoporteiro estão operacionais (vamos ver até quando!), Allelujah!...
Vou ter que vos fazer uma confissão que por relevante não poderia ficar, neste espaço de tagarelice aberto ao critério da vossa imaginação, por linha branca. Assim, confesso que: Deveria ter começado este relato, esta minha crónica FDS, pelo final de tarde de sexta-feira. E porquê a ousadia de começar logo por sexta-feira? Ora vamos lá então, mas por partes, tal e qual um jogo de futebol.
Parte um ou primeira: Porque o fim-de-semana começa logo que deixo a porta da escolinha, o que acontece, salvo raros e honrosos casos, na sexta-feira à tardinha e, porque, basicamente, estamos no verão é ainda muito de dia porque no inverno é noite cerrada.
Parte dois ou segunda: Porque os meus pais resolveram, às vezes dão-lhes estas telhas ou venetas, oferecer um jantar na minha, que é a nossa, casa, A quem? Hummmmm… Pois claro: À minha prima Cátia, ao primo emprestado Tomás, ao priminho Gustavo, ao tio Orlando, à tia Ondina, à avó Ilda e à tia Vitalina. Raio que já estou cansada de tanto badalar família e como vocês já os conhecem todos sobejamente nem mais um pingo de baba que vou esbanjar sobre este assunto. Parágrafo.
Falemos antes de comida que é bem mais interessante e gostoso. O jantar que foi mais um repasto e peras ou maçãs ou como vos der na real gana, foi constituído por uma massada de pargo e corvina, quiche de frango e gambinhas frescas da costa, cozidinhas, isto sem mencionar doces e frutas variadas.
Nada deixei para trás. Petisquei de tudo e por tudo o que foi sítio, até me atrevi a meter o bedelho na canjinha de frango, cebolinha e massa de argolinhas do priminho Gustavo, que estava de estalar.
Foi uma festinha bonita e digo festinha porque afinal sempre foi algo mais que um simples jantarinho.
O Gustavo é terrível das orelhas, nem queiram saber a energia que o raspelho tem, só mesmo visto. Era meia-noite e picos quando se deram, finalmente, por encerrados os trabalhos ou melhor quando todos resolveram recolher aos respectivos sacro santos lares. Para dizer a verdade eu já ansiava por isso e acho que o meu pai também, pois falando por mim, já estava borradinha de sono e já estávamos no sábado, ufa… até que enfim que desampararam a loja.
Bem, agora que já escancarei tudo o que tinha para dizer de sexta-feira voltemos ao dia de sábado, mais precisamente a manhã, que ficou para trás com a abertura deste parêntesis.
Depois de terminado o trabalho e dadas duas de conversa e três de simpatia, o Ioan ajustou as contas com o pai e foi-se embora com a Maria; ouvi dizer que tinham outras coisas para fazer razão pela qual não aceitaram o convite para o almoço.
Apesar de a hora já estar bastante entrada na tarde, ainda houve tempo para brincar às corridas à volta de casa com o meu pai, que acordou bem disposto e prestou-se à “cansadeira” de andar atrás de mim à volta e à volta de casa.
E, de tropelia em tropelia, eis-nos chegados à hora da paparoca. O almocito foi parco em inovação, poderia dizer que foi uma reutilização de produtos cozinhados para o jantar da véspera (não se pode desperdiçar a comida. Morre muita gente com fome, está sempre o meu pai a dizer), nada de grave e soube-me bastante bem, não sei se foi pelo adiantado da hora ou se realmente estava nos trinques.
Engolido que foi o almoço de pedaços disto e daquilo cada um desabelhou para seu lado. O pai foi fechar-se no escritório, agarrado ao computador, para ajudar a mãe, com a tese de mestrado, essa bendita ou maldita coisa, de que já estou farta até à medula óssea ou ao tutano, nem sei bem o porquê nem em quê, o que também não me interessa nada, pois eu fui sacrificar-me a ver os meus bonecos e a brincar ao faz-de-conta, enquanto a mãe, primeiramente, se agarrou aos tarecos da cozinha e depois foi transladar dos roupeiros, coisa que deveria já ter feito à séculos, a roupa de inverno e substitui-la pela de verão, parece que finalmente o tempo bom chegou, o que já não era sem tempo, por onde é que ele terá andado, conjuro.
De tanto estar sentado na cadeira, desconfortável e anatomicamente incorrecta, da secretária, o papá piorou das costas; aiiiii os meus lombos, como ele diz. Estar muito tempo sentado faz-lhe bastante mal às costas e hoje não foi excepção. Ao levantar-se, metia dó, até parecia um velhinho, não é que seja muito novo mas também não é assim tão velho, eu viu-o bem, apesar dele não ter reparado, estava todo encurvado para a frente, segurando as ilhargas com as mãos, e quando começou a andar os passinhos eram muito miudinhos e arrastados e apoiava as mãos, para se equilibrar, onde podia ou melhor jeito dava. Segurei-o, ternamente, para ele não cair, não que tenha muita força mas para ver se ele se animava um pouquito mais e se sentia apoiado, e acompanhei-o até ao quarto, onde se deitou, sobre a cama, de borco, isto é,de barriga para baixo e, juntando o ânimo que lhe restava, chamou pela mamã; estava mesmo derreado, nunca o tinha visto assim tão dorido. Ainda bem, a mãe, não tinha penetrado nos aposentos reais, já o pai lhe pedia para que ela lhe fizesse um massaginha às costas com o creminho de tomilho milagroso que serve quase para tudo e todos os fins, de acordo com o Professor Dr. Tarass Koval, personagem já caracterizada nestas minhas crónicas de FDS.
Cuidadosamente a mãe foi-lhe sovando as costas com o benfazejo creme e à medida que ia surtindo o seu mágico efeito o meu pai ia relaxando, até que ali ficou “desmastriado” e meio para o esquecido, sozinho, a curtir as suas mágoas.
Enquanto o meu pai estava todo entornado sobre a cama, nós as mulheres, iniciámos os preparativos para uma deslocação higiénica à praia; um saltinho de sol, mar e areia. Nada, mesmo nada fácil é efectuar a reunião da tralha necessária ao evento, pois a tralha é mesmo mais que muita e os adereços, esses, juntos são mais do que a areia da praia.
Tarefa, ainda que árdua, realizada. Agora urgia saber se o saltinho se daria ou não e aqui entra novamente o meu pai em acção: Primeiramente, a mãe, foi verificar o estado do seu estado e só depois de uma análise rápida resolveu perguntar-lhe: Sempre vamos à praia? Está tudo preparadíssimo! Acho que eles já tinham combinado o programa previamente.
Vamos sim, respondeu o pai, acrescentando: A miúda necessita de apanhar ar, sol e água do mar. Dar umas banhocas e brincar um pouco na areia. Passa a vida encafuada em casa, bolas. E não há-de ser por minha causa que vamos ficar em casa.
E, dizendo isto, levantou-se, a custo, mas levantou-se, preparou-se, sabe Deus e ele a que custo, todavia não deixou de ir comigo ou melhor de nos acompanhar. Vejam só que até pediu à mãe, não sendo inédito não o é também usual, para levar o carro, alegando que não tinha coragem e que era perigoso nas condições em que se encontrava. Desculpas esfarrapadas, de quem está de rastos e, não o admite. Orgulho nu e cru!
Estas foram as condições, inegociáveis, para que pudéssemos chegar à praia de Loulé, em Quarteira. Abro aqui umas chavetas, por serem mais, hierarquicamente e matematicamente falando, que parêntesis, para revelar que o meu pai não se atreveu ou melhor nem sequer ousou a tentar fazer quaisquer das manobras de praia, como por exemplo: Transportar o saco dos brinquedos ou espetar o pára-sol e, claro, também fazem parte de uma boa tarde de praia, as brincadeirinhas envolvendo a minha ilustre pessoa a areia molhada, a banhoca conjunta que é muito “fixolas” e é condição sine qua non de praia na sua verdadeira acepção da palavra.
Sabem, vendo-o como o vi nem me atrevi a exigências, o coitado estava mesmo mal, via-se na perfeição. Assim, ficaram as despesas inerentes a estes custos por conta da mamã.
Inobstante a água do mar estar um tudo ou nada para o fresquinho, o que para mim é irrelevante, pois fresco não é palavra de ordem quando se trata de banhoca no mar, coloquei as braçadeiras cor-de-rosa e fui com a mãezinha desfrutar de um reconfortante banhinho. A mãe não compartilhou do meu regozijo, não sei porquê, a água só estava mesmo fresquinha, e quando saiu da água parecia uma perua depenada.
Tenho uma confidência para vos fazer: Enquanto brincava, na areia molhada, a fazer castelos de areia, conheci um menino. Não lhe perguntei pelo nome, o acanhamento não deixou, acham que teria sido importante?... Eu também não achei. Quando o conheci ele estava a fazer uma cova na areia mesmo à beira-mar que, estava sempre cheia de água. A maré enchia e com ela a cova, isto aliado ao estado um pouco agitado do mar, proporcionou-nos uma bela de uma piscina natural com aguinha sempre renovada. Adorei tomar mais umas valentes banhocas na piscina improvisada.
Com o cair da tarde, ao longe, ouvimos uns gritos algo familiares, um pregão como lhe chama o meu pai: Bolinhasssss, bolinhasssss, bolinhasssss de Berlinnnnn, era um rapazola que gritava ou melhor apregoava, segundo o meu pai. O ratinho que tenho na barriga logo acordou e desatou a ratar, a ratar a pedir-me uma, ele adora bolinhas de Berlin.
Comprámos-lhes uma, desta vez fizemos-lhe a vontade ou satisfizemos-lhe a vontade, mas só desta, uma vez que as bolinhas não passam de pocinhos de gorduras polinsaturadas, um verdadeiro veneno para a saúde do ratinho. Porém, azar dos azares, quando já meia marchava a outra metade resolveu rebolar-se pela areia. O meu ratinho ficou inconsolável e, eu, ao ouvir aquele baque surdo na areia, fiquei lívida. Paralisei. A tristeza invadiu-nos, a mim e ao ratinho. E chorámos, e gritámos, todavia o fedelho que vendia as bolinhas não voltou a gingar na areia da nossa praia. Apre, irra que chatice!...
Bailando neste vira que não vira a hora da fuga, velozmente, fez a sua aparatosa aparição. Rebolou sobre si, sorriu e piscou o olho à malta, fez uma vénia e partiu, não falou mas tudo disse e, zus Loulé City ou melhor Vale da Rosa Parvónia.
E daqui não levam mais uma palavra que seja. Nada mais vou contar, porque estaria a ser fastidiosa e a fazer um replay em slow motion do que é useiro, vezeiro e costumeiro dos meus, já incontáveis, relatos de FDSs. Imaginem!... Façam alguma coisa para variar. Vá lá cambada.
Voltarei amanhã, revigorada, cheia de promessas e aventuras; assim o espero.
Domingo, ó domingo… tu que és o dia que antecede a segunda-feira e me trazes a esperança e a promessa de que a véspera de sábado vai ainda demorar, por isso ao fim da noite eu te odeio, o que tens ainda para me mostrar, me ensinar antes que te desfaças e percas nos braços da madrugada do dia que se te segue?... Revela-te domingo meu!
E foi só pedir que logo o domingo se rebolou, na sua generosidade sem par, derredor os nossos corpos e perante os nossos olhos, mas que “bicho laruta” me saiu este domingo é mesmo de “fina-arrasga”.
A primeira revelação veio sob o espectro, volúvel, do primo André que nos agraciou com a sua insigne presença, a sua e a do seu, deletério, computador, apêndice que se lhe prende na extremidade de uma das mãos para, de tempo em tempo, dar descanso à outra, todavia, sempre presente. O André, também é detentor de um outro apêndice de algibeira ou bolso, que serve para contrapeso do peso que lhe falta, o telemóvel last generation, comme il faut.
Largando-me deste assunto, e esquecendo as mariquices ou maquinetas tecnológicas das quais, o primo, tanto gáudio faz, vou dedicar-me a outro de não somenos importância ou relevância e que se traduz num volte face de 180 graus ou num looping de personalidades, porque falar do André e passar de seguida para o meu pai é como se fosse a acelerar em sexta velocidade e de rompante enfiasse uma marcha atrás, são caminhos paralelos e de sentido inverso, cruzam-se de quando em vez no infinito.
Ora vamos lá ao salto de personalidades. O paizinho não melhorou das moléstias da véspera, as costas não lhe deram tréguas durante a noite e pela manhã também não enterraram o machado de guerra, pelo que lá teve que ir, contra vontade, de rota batida para o Centro de Saúde, à rasquinha. Haviam de vê-lo todo torcidinho; não gosto nada de ver o meu pai assim.
Demorou-se por lá tanto tempo que até tive tempo para me esquecer que ele não estava em casa – passaram-se tantas coisas pelos entremeios que, o facto, de facto, não se pode traduzir em admiração alguma, por isso, vamos lá a fazer bico pequenino e calar esse Óooooo gigantesco de desaprovação e filha desnaturada, pois estou certa que a vós vos aconteceria a mesmíssima coisa. Senão vejamos como rolou a locomotiva, neste apeadeiro: Comecei por me enrolar na brincadeira com o primo, depois os jogos de computador gritaram pela minha atenção, para seguidamente os malvados dos bonecos me aliciarem até à sineta para o rancho, para, logo após o almoço, voltar a repetir todas estas tarefas, ainda que, não necessariamente, pela mesma ordem – aleatoriamente, percebem?
Vejam bem o tempo como ele é na sua verdadeira essência, umas vezes passa tão depressa que nem damos por ele, outras, porém, leva eternidades para se diluir nos ossos e, como diz o Dr. José Seguro: Os dois anos deste governo mais parecem dois séculos.
Batidas já eram as dezassete horas quando o meu pai voltou, ressalve-se que quando saiu ainda não tinham batido as onze e, para ele o tempo deve ter escorrido bem devagar, pois quando a mamã lhe perguntou como é que ele estava, limitou-se a dizer: Tenho as “nalgas” feitas num passador. E, se tinha palavras que o apoquentavam guardou-as por ali deixando a retórica para outra ocasião ou para um nunca mais, dirigindo-se directamente para o sofá e espojando-se nele abundantemente.
Neste marasmo, o que restava da tarde foi, indolentemente, passando. O pai no sofá. A mãe às voltas e reviravoltas com a tese de mestrado. E, o primo, revolitando entre o computador, o telemóvel e o bem-aventurado fazedor de amigos virtuais, que de amigos nada têm, o Facebook, ora num, ora noutro, conforme as necessidades do artista. Falto eu, pois… eu estive por conta própria, devidamente vigiada por algum deles, e entre bonecos e bonecos estavam o resto dos bonecos; não sei se terá sido prenda ou castigo por ter vestido logo pela manhã o vestido de princesa… ou porque há domingos que são mesmo assim: De mau feitio.
Palpita-me que a minha crónica está a ficar sem material de feitura, não estou a ver que vá acontecer uma remontada da situação, como dizem nuestros hermanitos em linguagem de futebóis, aqui na “tabanca”.
Neste momento toda a gente está a tomar banho de sofá mas cada qual direccionado no seu vector próprio. Assim: A mãe e o primo estão a ver um filme qualquer no computador, usando o programa wareztuga.tv, eu estou com um o olho nos bonecos e a língua a ditar a minha vidinha ao papá que, está com aquela carinha de farto de me ouvir, e de quem quer ir atirar o canastro para cima da cama ou de outro sofá, por forma a não ter que aturar ninguém, digo eu mas, sei lá…
Bem, o certo é que nem sempre aquilo que nós somos é necessariamente aquilo que nós gostaríamos de ser, como também, nem sempre aquilo que nós queremos é necessariamente aquilo que nós temos.
Assim, e como já não vou, pela certa, ter mais coisas de interesse comum para contar, vou-vos fazer uma vénia de despedida e dizer-vos: Despeço-me com amizade, como dizia o Eng.º Sousa Veloso no saudoso, segundo o meu pai, programa televisivo TV Rural.
Fuiiiii…
tÓ mAnÉ (in Laura Solange dixit) - 2013.06.(15,16)
terça-feira, 10 de dezembro de 2013
quinta-feira, 28 de novembro de 2013
Nylon
Nylon
De nylon preto
Eram as meias, luzentes,
De rebosilho, negro,
Enfatizando a linha harmoniosa
Das longas, esbeltas e torneadas pernas
Envoltas neste ténue véu de mistério
sombrio
Que a cada movimento ondulante
Escravo, da seda, escarlate, do vestido
Bafejando quentes e insondáveis segredos
Na superfície, macia, da pele lisa e
morna
Que o envolve, que o acaricia.
Assediando-a!
Arrepiando-a!
Arremessando-a!
De promessas, de prazeres incontáveis
A cada passo que na noite fria, troa
Ecoando na calçada portuguesa da rua
Elevasse numa leve brisa que, ofegante,
sopra
Pela rua, despida, solitária, nua de
gente.
Vai só, segura de si, não vacila, segue
em frente
Segue onde e ao que vai
Sem ligar ao que prossegue
Olhos postos no caminho
Esquece o roçagar, entre as pernas, do
nylon
E, a cada passo, sente
Húmida de expectativa a vontade de chegar
Vontade que o corpo trespassa,
E, a cada número, que para trás deixa
Apressa e troca, titubeante, o passo.
Vinte e seis, gritam-lhe os olhos
Estaca. Gira em torno do eixo da volúpia.
Uma a uma, lentamente,
O nylon da meia estica
Ajeita a jaqueta, preta,
Verifica, mentalmente a compostura
Tudo está perfeito.
Avança.
(décimo oitavo frente)
Prime o botão mágico, suavemente
Não há resposta…
Inquietasse!
Sustem o fôlego, num compasso de espera
Prime de novo, agora, mais veemente
Aguarda, impaciente…
Clack! Estala, seco,
O trinque da fechadura da porta.
tÓ mAnÉ
Style
Guadalupe
Contemplo-a! Sobre a mesa
Aberta para mim
Apelativa, convidativa.
Do seu bocal rolou, descuidada,
Uma pérola rubra
Maculando o alvo linho da toalha
Uma gota, genuína, de prazer
Rolou e pingou
Deixando antever uma volúpia escondida.
A seu lado, imponente,
Ainda reluzente, o objecto, erecto
Adivinha, antecipadamente, o culto, o
deleite
Contudo, erecto permanece
E, imóvel, aguarda, pacientemente
aguarda…
Que tão precioso néctar o preencha
Lhe humedeça as paredes secas.
Inclina-se solene com cuidado
Não vá o requinte ficar toldado
Dando-se, sem reservas, docemente,
Num ondular suave, todavia pungente
Culminando, tal como iniciou, abruptamente.
Faço, fugaz, uma ténue vénia
Tomo-a em minhas mãos
Reclino-a com esmero
Leio seu corpo negro azulado
Orlado por um céu nocturno
Onde,
Um quarto decrescente e uma estrela
cintilante
Repousam em primeiro fundo.
Guadalupe 2005 Selection
Sirvo o copo que, cansado, erecto espera
Sento-me, confortavelmente, na poltrona
Rebolo-lhe o néctar pelas suas faces
Observo-o, inclino-o, elevo-o
Sinto-lhe o odor frutado e amadeirado
Conduzo-o, vagarosamente, aos lábios
Furto-lhe um diminuto gole
Degusto-o!
Deleito-me com a sua essência,
Única, exótica.
Fecho os olhos, recosto-me
Aguardo que me penetre os sentidos
Procurando eternizar a magia do momento.
tÓ mAnÉ
Style
Crónicas FDS da Laura - Registo XVI
Inicio a minha crónica, algo peculiarmente, alertando-vos para o seguinte: Este fim-de-semana tem duas singularidades que o tornaram um nadinha mais acidentado e apimentado, ambas no seu sentido mais lato, que registos anteriores. A primeira, e a mais significativa e não tendo nada contra a segunda, prende-se com a chegada, do meu tio padrinho Miguel e da minha tia Bleca, este sábado, lá de Lisboa ou melhor Oeiras, de trouxa a reboque, incluindo o barco, será que é desta que vou dar uma voltinha no barco do meu padrinho?..., à Ilha de Tavira. Todos os anos, nas últimas três semanas de Junho eles arrendam uma casa, sempre a mesma, mesmo na Ilha de Tavira, ficam ilhados percebem? Para umas férias paradisíacas, onde, a pesca, a praia - quando o tempo deixa – o deleite gastronómico e o relax, estão na ordem do dia e da noite. A segunda vem dependurada ao factor tempo. Três são os dias de registo: O sábado, o domingo e a segunda-feira ferido nacional - 10 de Junho, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, outrora o Dia de Camões, de Portugal e da Raça, epílogo este, como diz o paizinho, do antigamente, antes da Revolução dos Cravos Vermelhos ocorrida dia 25 de Abril de 1974.
Bem, feito que
está o intróito, vamos ao que interessa.
A manhã de sábado
foi um pouco mais do mesmo, ou seja, como todos os outros sábados, não fora
umas coisitas que tenho para vos bisbilhotar e que fui ouvindo por aqui e por
ali – sou muito atenta ao mundo que me rodeia, sabem?... – e nada de
interessante vos teria para relatar.
Assim, fiquei
sabendo que: Um: Vou ficar em casa com a avó Ilda e a tia Vitalina,
alternadamente, consoante o vagar – disponibilidade – das donzelas, uma vez que
o pai e a mãe têm que ir a Tunes a um tal Professor Dr. Tarass Koval (um
endireita ucraniano) para tratar do “desmontalo” das costas do papá – desde
ontem que andava à rasquinha. E, ainda que, quando voltaram, sabe Deus as
voltas que não deram e as que deram, também, já eram mais que horas da sineta ter
tocado a rancho. Como também, que o meu pai vinha “que não podia” de
“trilhadinho”. Até dava dó, acreditem. Quase não almoçou, o que não faz em nada
o seu feitio, e logo se atirou para cima do sofá, assim tipo “esborrachado”,
para de imediato desatar a dormir quem nem um lorpa, o que, também, não é de
seu génio. Dois: Fui de rota batida para a cama, acompanhada pela mamã, numa vã
tentativa de bater uma sorninha retemperadora das canseiras matinais. Ainda
passei pelas brasas, digasse de passagem! Porém, alguém decidiu, obstinadamente,
desatar a bater, contumazmente, na porta-janela do quarto, como se tivéssemos
que ir retirar alguém do cadafalso da força ou houvesse uma sangria desatada
pelo barranco abaixo ou sei lá o quê?... Por amor de Deus. Soneca ai és tão
linda mas, já te foste. A porta-janela, para evitar o seu derrube extemporâneo,
teve que ser franqueada a este “aqui me acudam” e, lá estavam plantadas, com
raízes e tudo, a avó Ilda e a tia Vitalina, plenas de novidades ou melhor
decisões, que cuspiram quase em uníssono, não fosse uma não atrapalhar a outra.
Cosidas as palavras, de uma e outra, para que a chilreada fizesse algum sentido,
aqui fica a manta de retalhos ou a serenata completa: A Cátia, a minha prima em
segunda mão, o Tomás, o marido da Cátia e por consequência o meu primo
emprestado em segunda mão e o Gustavo o filho de ambos (ele ainda é
“pichotinha”) e meu primo em terceira mão, queriam ver-me. Bolas mas logo agora
que eu estava cochichando é que lhes deu uma vontade destas sem qualquer
tempero. Ai a vida é dura.
Condescendendo e
pensando um pouco atrevo-me a fazer as afirmações seguintes: Sei que
regressaram da Ilha da Madeira, onde vivem e trabalham ou vice-versa o que é
muito diferente em termos comportamentais e de vivência do dia-a-dia, mas também
sei que, chegaram hoje e vão cá passar oito dias de férias. Mas onde é que está
a presa, meu Deus?... Oito dias. Oito longos dias. São mais que uma mão cheia
de dias e, por isso têm que ser contados com as duas mãos. Senão vejamos ou
melhor experimentemos: Um, dois,…, uma mão cheia, …, sete e oito, já entrando
na outra mão. Onde está então o afogadilho afinal?... Aiiiii, haja pachorra.
A Cátia é filha
do tio Orlando – o trinta cabelos, Barroá ou o Zeca Diabo (coisas desses
adultos pequeninos que se fartam de inventar nomes estranhos, que eu não
entendo a razão nem o porquê, pois sou pequenina grande. Eles apelidam-nas de
alcunhas. Acho que ainda vou ter que aprender o que isso é!…) – da tia Ondina e
também é irmã do Nelson, meu primo em segunda mão. Ai…, isto das famílias e dos
laços familiares é tão complicado, sabem?...
Vou-vos contar
uma coisa, um segredo. Shuiiiii… A sorte é que o meu pai não acordou, nem deu
por isso. Senão a cena ia dar em circo, ai ia, ia…
Saímos de
mansinho para não acordar a fera e bute para casa da avó Ilda onde os ilustres
nos aguardavam “estacionados”.
Os grandes, os
adultos conversaram e eu andei a laurear a pevide ou o queijo, assim vocês o
queiram, pois o Gustavo, como é muito pequenino, ainda não tem muita graça
brincar com ele, não belisca nem risca nesta história.
Quando
regressámos o papá já estava acordado ou semi-acordado, problema que resolvi em
duas palitadas, deixando-o mais que desperto: Alerta! Isto porque resolvi ou
melhor apeteceu-me, furiosamente, brincar com ele, para verificar se estava de
manhas e fitas ou realmente estava mesmo mal – às vezes ele é manhoso. E,
nestes propósitos nos mantivemos, enquanto a mãe foi tratar dos cães por falta
de vontade do papá; digo-vos que quando o meu pai não vai tratar dos cães é
porque a coisa vai mal ou a mamã lhe pede para fazer o jantar.
Animais tratados.
Mãe em casa e jantar por fazer. Houve que improvisar algo expedito para encher
as panças. Assim, recorrendo à Bimby, a mãe começou a fazer massa de pizza,
logo em subsequência: Pizza para o Jantar! Oléeeeee… Não que goste muito de
pizza mas, pelo menos, é diferente.
Devagar e
devagarinho. Foi assim que o pai se levantou do sofá, quando a mão gritou da
cozinha: Tó, queres fazer a cobertura das pizzas?
Nesta fase do
campeonato o meu pai convidou-me para o ajudar. Adoro ajudar o papá, quer na
cozinha quer noutras tarefas é sempre um mundo de cor e alegria - e só o que eu
não aprendo… - para além disso, hoje, ainda tive uma bela recompensa: Um bom
naco de salsicha, umas fatias de salame de peito de peru e meia lata de milho
cozido, hummmmm… uáuuuuu…
Trincado que foi
o jantar e, apesar de não ter comido grande coisa, pudera após tamanha
recompensa, a lengalenga do costume desencadeou-se. Porém, desta vez, foi o
cabo dos trabalhos para cair nos braços de Morfeu ou adormecer. Ele foi:
Historiazinhas, leitinho com “xicólate” – muito “xicólate”, que é assim que
gosto – e também foi a paciência da mãe que foi para o caneco. Valeu, então e
desta vez, o meu paizinho, que me aturou até o malfadado do “Pestana, aquele o
João. Não, não, não é aquele dos Hotéis” aparecer.
Aiiiii… domingo,
pois domingo…
Até que não
começou muito mal mas depressa o caldo se começou a entornar. Como assim? Pois,
ainda não tinham batido as nove no sino da Sé Catedral de Vale da Rosa e já o
telefone, o fixo, reparem que eu não disse o telelé, “ringava”. Era a avó
Aurita. Não se estava a sentir nada bem e queria que o meu pai fosse com ela ao
Centro de Saúde.
Como foi a mamã a
atender o tal de “fixo”, pois o meu papá estava, como de costume, na cama a
preguiçar, lá foi ela a correr, bzzzzzteeeee…, até ao quarto, acordar o
sornador.
- Tó, Tó,
levanta-te! Era a tua mãe, ao telefone, a dizer que precisa de ir ao Centro de
Saúde. Não está a sentir-se nada bem. Vá lá homem. Despacha-te! Pode ser coisa
séria.
Nem o ouvi
responder. Mas foi num ápice que se levantou, arranjou e “pequenalmoçou”, até
parecia que lhe tinham chegado uma acha acesa ao cu, para os menos versados em
assuntos de lenha, digo, em termos velocimétricos, que foi tudo a mil à hora e…
zummmmm Loulé, pois o alerta despoletado urgia no tempo.
O tempo foi
passando e passando e a minha preocupação aumentando. Tanto tempo e sem saber
de nada, não faz muito o meu estilo irrequieto e curioso. Ainda por cima
exilada em casa com a mamã, que passava roupa a ferro, furiosamente, sem me
ligar pevide que fosse. E, nesta inclemência de tempo, não houve bonecos que
conseguissem travar a minha inquietação, o meu desespero.
A hora de almoço
aproximava-se a passos largos quando o meu paizinho chegou com a avó Aurita a
reboque. Ufa foi um alívio, finalmente tive tempo para eliminar e expurgar a
minha inquietação. Estavam os dois ali e bem vivinhos, apesar da avó estar assim
para o lado do mal-encarado, porém ainda assim brindou-me com um amplo e terno
sorriso. Apesar de tudo, na sua cara abatida, estava estampada uma centelha
mística de alegria e contentamento por me ver. Fiquei tão contente! A avó é
mesmo supimpa!
A mamã, logo que
o pai e avó chegaram, arregaçou as mangas, puxou das ganas e disparou a fazer
uma canjinha com umas pernas, anémicas, de frango que o meu pai trouxe da
“vila”. Intui e bem que era o almoço para a avó – sou uma sabichona ou melhor
uma Eco-Sabichona apesar do eco aqui
ser descabido, pois nem no meu cérebro se deu qualquer reverberação que fosse
digna de assim ser denominada.
Após o almoço,
que nasceu tarde e a más horas, “as da vida airada” apareceram; estou a falar,
como é bom de adivinhar, da avó Ilda e da tia Vitalina, as duas “passaroas”,
que hoje ainda não tinham dado um arzinho da sua gracinha, resolveram arejar as
asinhas por estes lados.
Enquanto elas, as
gajas velhas, falavam, o meu pai, despejou-se inteirinho no sofá, a ler.
Enquanto isto, fui de rota batida, atrelada à minha mãe gritando pelos meus
bonecos, porém em vão, pois quer chiasse quer não a medida tinha que ser a
mesma, era ir e mais nada. E, neste confronto de vontades e gerações, lá nos
fomos, ambas, arranjando e despachado para uma ida ao Fórum Algarve, apalavrada
de véspera, para assistirmos a um cinema.
Terminado o make up a partida foi imediata, num
abrir e fechar de olhos diria, e aqui vamos nós rolando asfalto, primeiramente,
em direcção a Loulé, para “despejar” a avozinha, que já estava bem melhor
encarada, graças a Deus, e depois a Faro que por sinal fica na direcção de
Loulé – acho que Loulé fica em todas as direcções, pois o meu pai costuma dizer
Sotavento, Barlavento e Loulé, quando fala, empolgado, do seu querido Algarve –
e, entre Loulé e Faro está o cinema no Algarve Shopping.
Entrega feita e
zus… cinema lá vamos nós…
Estacionámos o
carro bonito no parque de estacionamento inferior, mesmo junto às escadas em
caracol (sinto um certo “cagufo” ou “meduço” em subir aquelas escadas de degraus
vazados e que tremem bué a cada passo). Quando rompi no patamar do rés-do-chão
dei de caras com um enorme, gigantesco, ingente insuflável e, logo todo o
cagaço, que as escadas possam ter provocado, se dissipou, tal e qual o vento
sopra uma nuvem negra que tapa o sol e deixa um dia radiante no seu lugar. Incrível!
Claro está, como água límpida da nascente, que, e não poderia deixar de ser de
forma alguma, e melhor ainda, ouro sobre azul, utilização à “fartazana” e à
“borlix”.
Eu quis, eu exigi
ir dar uma saltadela ou melhor dizendo uma escorregadela naquela pequena grande
maravilha. Azul, cor de laranja e amarelo o descomunal insuflável era todo
dentes para mim, amplo era o seu sorriso e o seu poder de atracção. Constituído
por uma escada de acesso à rampa da escorregadela e, estas, separadas por uma
parede de bordadura, elemento afecto à segurança dos utentes. Tudo em plástico
resistente e cheio de ar; deve ser por isso que lhe chamam de insuflável ou
aquele que se pode encher com ar ou outro gás, sabiam?... Também tinha paredes
laterais e o respectivo fundo, claro é, claro está?! Está?!...
A rampa e os
degraus vistos cá bem de baixinho eram assustadores, altos, mas atirei com os nervos
para o inferno e puxei da coragem e subi, a custo, mas subi, para depois
efectuar uma descida em modo de deslize a uma velocidade vertiginosa, foi
incrível, e foi incrível não uma vez mas duas vezes e mais se lhes seguiriam
caso tivesse tido a veleidade de me o permitirem. Simplesmente adorei!... E,
não tive medo nenhum, tal como seria espectável e patente no olhar de
desconfiança dos meus papás, daí toda a classe de incitamentos no sentido de me
encorajarem. Pois bem, não foram precisos!
Gerida que estava
a emoção mas não digerida e já estávamos a dar sebo nos cordões perfilando-os
na direcção do Jumbo onde fomos adquirir os bens primários de assistência à
sessão cinematográfica: Pipocas e águas.
A subida ao andar
superior onde o cinema se encontra alojado - ele vive lá, sabiam? E parece que
está sempre em casa – foi efectuada pelas escadas rolantes, destas eu gosto,
são uma curte! Já “esbardoirados” no piso 1, dirigimo-nos de imediato à
bilheteira para adquirir os ingressos ou bilhetes e, mais um momento de emoção,
mais uma surpresa, o filme que pretendíamos assistir, o Epic, era apenas e tão
somente exibido em 3D, o que levantou alguma celeuma, dividindo-se as opiniões
entre o ir ou não ir, não por causa do assalto ao pecúlio familiar, mas sim,
pelos benditos óculos que eu iria ter que usar.
Ao fim tudo se
compôs com um: Já que estamos aqui vamos experimentar pois daí não há-de advir
grande mal ao mundo, que o meu pai lançou para o ar e, lá vai a boa da Laura
Solange, e seus paizinhos, para a sua primeira experiência em filmes 3D;
abonando a verdade devo dizer que não correu tão lindamente como seria de
esperar ou não!?...
O Epic fala da
natureza, dos destruidores e dos protectores da mesma e, em certos momentos,
consegue ser bastante real e assustador e em 3D imaginem... o como senti o
rabinho apertadinho. Mas, aguentei firme até ao fim com algumas escaramuças
entre o quero ou não quero dar à sola daqui e o escoder da cara no peito,
aconchegadinho, da mamã.
Sabem, o filme
fez-me lembrar a minha estória no
“Livro Viajante” e de nós, os Eco-Sabichões.
People! Temos que proteger o nosso
planeta e a Mãe Natureza. Temos que ensinar os nossos filhos, quando os
tivermos, claro, a respeitá-la mais. Mais que nós, mais que os nossos pais e
muito, muito mais que os nossos avós. Vamo-nos a isso? Cabe-nos, a nós, essa
hercúlea tarefa.
O caminho para
casa espreitou logo após o términos do filme e uiiiii… Caí “desmastriada” nas
teias do sono ou seja soneca foi a palavra chave do meu regresso a casa – o
balancé e o ruído do motor a diesel do carro são fatais. E, não fora uma real
mijada, tipo Don João VI, na cama me ter despertado (chorei muito com vergonha.
Eu que até já sou uma menina grande, descuidar-me daquela maneira é humilhante)
teria passado pelo jantar e pelo resto da noite toda até que se fizesse manhã.
Assim, fiquei que nem podia e chorei que chorei, a vergonha atingiu raias de
indignação, inimagináveis, para comigo, um despautério mesmo. Bem que os meus
pais podiam dizer que: Filha não tem importância, por vezes acontece, que eu
estava inconsolável. Todavia a vida contínua e não é uma mijinha qualquer que
faz parar o relógio.
Pijama novo, logo
após a lavagem das vergonhas; digo novo com toda a propriedade da palavra, pois
a minha mãe tinha-o comprado no sábado de manhã, não sei onde mas é giríssimo e
o mais importante a estrear. Lavada e “empijamada” fui instalar-me, com o meu
papá lindo, no sofá a ver os bonecos, uma pequena recompensa pelo desconsolo de
alma que me assolou, até à chegada, pela mão da mamã, da canjinha que restou do
almoço.
Comi toda
“agalhofadinha” ao meu pai, estava tão, tão trilhadinha. Porém, logo que a
minha mais que querida mamã se espalhou sobre o outro sofá, resolvi,
imediatamente, mudar de aconchego e ir dar uns miminhos à mamã; há que
distribuir equitativamente e de modo equilibrado os afectos – a gerência dos
ciúmes diria mas não digo.
Maltinha, não irá
tardar o ponto final à conversa, a cama que já me espreita, vai-me chamar pela
certa e eu vou ceder aos seus encantos.
Beijiiiiinhosssss…
Abriu a manhã e
com ela abriu também a minha pestana. Rabujei e retoicei na cama. Levantei-me.
Mamãaaaaa chamei.
Bem, parecia que
ela estava mesmo ali atrás da porta. Foi um ai entre o chamar e a aparição.
- Bom dia
querida.
- Bom dia mãe.
Logo que a mãe
bordeou a cama agarrei-me a ela como uma lapa e começaram os beijinhos e os
abracinhos, o jogo do “tira a fralda” – ainda uso fraldinha à noite, é por
causa dos descuidinhos - e a higiene matinal. Hoje não houve lugar a bonecos. O
pequeno-almoço foi na mesa da rua, no pátio da cozinha. Não sabem como é
agradável, no campo, apanhar o fresquinho da manhã lavado pelos primeiros raios
de sol e ouvir o chilrear dos passarinhos e simultaneamente beber o meu
leitinho com muito “xicólate” e a comer torradinhas com mel, como é bom. Ah!
Isso é, é!...
Já o
pequeno-almoço ia adiantado quando o Ioan e a Maria, que está muito grávida –
sete meses; ela vai ter um menino, o Alexandru –
apareceram para nos visitar. Vocês já os conhecem, ou pelo menos aqueles de
vocês que conviveram comigo no ano passado, pois já os mencionei nas minhas
crónicas de FDS mas, para os menos atentos, os mais esquecidos e aqueles que de
facto não privaram comigo, aqui fica a informação: O Ioan e a Maria são um
casal romeno, agora nosso amigo, mas que inicialmente começaram por trabalhar
em nossa casa. Ela como conservadora de limpeza e ambiente e ele como um Zé faz-tudo
– o Ioan é muito habilidoso – que com o andar do calendário foram estreitando
os laços ao nível da confiança e da amizade. Eles são muito porreiros e eu
tenho uma predilecção muito especial pela Maria, isto é, gosto muito dela.
Enquanto o meu
pai não levantou o canastro da cama e se dignou a juntar a nós, após o seu
trato higiénico diário, que hoje incluiu o fazer ou desfazer da barba (isso eu
denotei quando ele chegou todo cheiroso à mesa do pequeno-almoço e abocanhou um
paposeco com fiambre que a mamã tinha preparado especialmente para ele), o Ioan
tomou um café e a Maria comeu uma bolachinha e trocaram duas de conversa de
encher ou de conveniência com a mamã. Mas isto não ficou por aqui, pois durante
o decorrer do repasto do meu pai; sandes de fiambre, galão caseiro, sumo de
laranja natural e café expresso da máquina da Nespresso, Um Roma, estivemos, aí
sim, em amena cavaqueira sobre a Roménia, a terra do Ioan e da Maria, os usos e
os costumes, a caça e a pesca (não poderia deixar de ser), os sonhos e as
desilusões, enfim falou-se de quase tudo, instalados principescamente na mesa
da rua, enquanto um solinho maravilhoso nos lambia e coloria a existência.
Assim como tudo
começa, assim também termina. O meu pai e o Ioan foram tratar de aspectos
relacionados com os negócios lá deles; coisas deles que a mim nada me importam
nem concernem, por isso voltei o “sim senhor” e fui brincar com a Maria que é
muito mais meiga e divertida que eles que só falam de coisas com nomes muito
estranhos como recuperadores de calor, tubos spiro ou girândolas, quem é que se
interessa por semelhantes aberrações?... Eu, seguramente, não!
E, neste
estrafego, o tempo foi rebolando e rebolando, e com tanto rebolar trouxe
agarrada a ele a hora de almoço que, inexoravelmente e insistentemente, desatou
a bater à porta, truz, truz, queria forçosamente entrar e acabou mesmo por
fazê-lo, não sem antes ter ocorrido a debandada geral; cada qual para sua casa,
até a avó Ilda, que nos entremeios tinha aparecido, não foi excepção. Restando,
alfim, os três da vida airada: Cocó, Ralheta e Facada, ou seja eu, a mãe e o
pai.
Almoçámos um
lombo de porco estufado que a mãe havia preparado emmeios. Estava de piscar o
olho e estalar a língua e chorar por mais.
Um simples
telefonema para o meu tio padrinho e o programa da tarde ficou de imediato
delineado e consistiu numa visita à Ilha de Tavira, uma visita ao meu tio
padrinho Miguel e à tia Bleca, pois, e apesar, deles terem chegado no sábado à
tarde, ainda não lhe tínhamos posto a vista ao alcance ou um ouvido na voz;
bolas nem truz nem muz, até parece que não são família… bem em frente e sem
medos.
Durante a viagem
de ida passei pelas brasas, pelo que não há pormenores, só acordei quando a
mamã me estava a retirar da cadeirinha de andar de carro.
Das Quatro Águas
para a Ilha de Tavira temos que apanhar o “vaporetto” ou seja um barco da
carreira que fede a gasóleo, contudo fico sempre extasiada com esta pequena
viagem, entre sete a dez minutos, rejubilo da alegria e não é para menos pois o
enquadramento paisagístico é paradisíaco.
No cais, no outro
lado da margem, ordenámos às pernas que nos levassem à casa onde o tio padrinho
e a tia estavam alojados. Ficam todos os anos, desde que me lembro, na mesma
época, na mesma casa e pelo mesmo espaço de tempo; três semanas, na Ilha de
Tavira. É original, não acham? Para não falar na diversidade de gosto.
O percurso do
cais à casa é bem curto, depressa foi cumprido, entre correrias e risadas e os
normais reparos à segurança por parte do pai ou da mãe consoante o grau da
minha ousadia. No final da passadeira, em lajes de betão, lá estavam eles, debaixo
de um “telheiro” ou melhor uns panais de sombreamento, verdes, defronte da
entrada principal do chalé,
escarranchados em cadeiras de braços e quase em estado de roncadeira – afinal não
era para menos, no interior daquele pequeno quintal ou pátio, confinado por
paredes, estava uma atmosfera abafada que se fartava – de cortar à facada.
Feitos que foram
os cumprimentos da praxe e alguma conversa miúda de ocasião (claro está que a
pesca ocupou o papel principal ou fez a despesa da conversa), e eis que
apareceram uns amigos de longa data do papá e do tio que, todos os anos do
mundo, montam tenda quando o parque de campismo abre e só a levantam quando o
mesmo encerra. Estou a falar do Rogério e da Zita (tal como a abelha da
Fundação), com eles também vinha uma das suas duas filhas, a Inês, que trazia,
por sua vez, a reboque as suas crias, a Catarina, que é mais ou menos da minha
idade, e o Pedro que é bebé, tem apenas dois mesitos, e se chama como o meu
mano velho, que tem quase dezanove anos, e é nadador salvador na Praia do
Cavalo Preto em Quarteira, apesar de não ter sombra de juízo. Facto que obrigou
o meu pai a estar a ralhar com ele ao telefone – deve-lhe ter entrado por um a
cem e saído pelo outro a duzentos – durante uma eternidade mais uma vida, e
etc, etc,…
Durante o período
do desanque no mano estive a brincar com a Catarina ou melhor dizendo eu passei
o tempo todo a brincar com a Catarina. Ela é um docinho! Adorei a Catarina!
Logo que terminou
o eterno telefonema para o mano, o meu pai teceu meia dúzia de comentários
azedos acerca do assunto e levantou ferro levando a reboque o tio Miguel para
darem uma passeata e com certeza para porem a conversa em dia ou simplesmente
para estarem os dois que é acontecimento raro.
Quando chegaram,
trouxeram a hora de levantar arrais com eles. E, assim, se realizou,
inexoravelmente, o percurso inverso mas, agora, menos encantador; o espectro do
regresso retira o fascínio à beleza circundante ensombrando-a com o manto da
tristeza de quem deixamos para trás. Casa, cais, barco, cais, carro, casa,
assim se cumpre a inversão da história.
Chegados a casa
(desta vez a excitação não me deixou cochilar e as perguntas caíram umas atrás
das outras – vocês sabem como sou curiosa) a moenga do dia-a-dia iniciou-se,
ritual já mais que conhecido por vós, com excepção de um pequeno detalhe, uma
pequena variante ou cambiante: O papá ofereceu-me um bombom, antes de jantar,
sem dizer nada à mamã, facto inédito, e com um gesto de cumplicidade, uáuuuuu… Bem,
não foi bem um bombom mas sim um m&m’s, azul, penut. Ao que eu agradeci e exclamei escancaradamente: Enganas-te a
mãe, lindo menino! Claro que a “cusca” da mãe não poderia ter deixado de ouvir
ou pelo menos fingir que não (afinal a conversa não era com ela) e retrucou:
Filha! Não se engana a mãe nem o pai. Botei o violino no estojo e a conversa
ficou por aqui não fosse azedar.
E, por aqui,
também vai ficar a minha crónica que mais parece já um testamento, não sei se o
Novo se o velho, pois o resto foi mais do mesmo e por vós demais que conhecido
e sabido.
Um Chi-coração
que amanhã é outro dia e ver-nos-emos se Deus assim o entender.
tÓ mAnÉ (in Laura Solange dixit) - 2013.06.(08,09,10)
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